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A Dependência Química do Ponto de Vista da Fenomenologia
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O
contato e utilização do homem com substâncias possuidoras
de propriedades inebriantes ou de entorpecimento mental, tendo como alguns
de seus efeitos as sensações de euforia e bem-estar, é
um hábito tão antigo corno a própria humanidade.
Remonta à história das civilizações, dos povos
antigos, passando pela antigüidade clássica até o desenvolvimento
da civilização judaico-cristã ocidental. Podem ser
observadas citações do uso da droga, muitas vezes ligado
a padrões culturais de comportamento que incluem aspectos também
religiosos. Ao
passar dos tempos foi ganhando conotações diversificadas
corno de um simples, dentre outros, elemento caracterizador de uma determinada
cultura até representar uma questão que afeta todo o espectro
de uma sociedade como nos dias de hoje. Envolve questões sociais,
culturais, éticas, legais e até mesmo econômicas. Consequentemente,
os problemas relacionados às drogas e aos seus usuários
tornam-se a cada dia, mais complexos, necessitando, por parte dos profissionais
implicados, de um grande empenho no estudo da compreensão desse
distúrbio. Para
um melhor entendimento, torna-se importante definir alguns conceitos: DROGA
- é qualquer substância que, introduzida num organismo, é
capaz de modificar uma ou mais de suas funções (Comitê
de Peritos em Dependência às Drogas da OMS). DEPENDêNCIA
- é um estado psêquico e muitas vezes fêsico resultante
da interação entre o organismo e a droga. Caracteriza-se
por respostas comportamentais que envolvem sempre a compulsão para
a tomada da droga de modo contênuo, ou periódico, com a finalidade
de sentir efeitos prazerosos e, às vezes, interromper o desconforto
conseqüente de sua privação. Tolerância pode
estar presente ou não. Um indivêduo pode apresentar dependência
a mais de uma droga (Comitê de Peritos de Dependência às
Drogas da OMS). Este
Comitê ressalva ainda que deve ser vista como um contintium relacionado
ao grau de comprometimento da qualidade de vida do usuário e a
amplitude das circunstâncias em que a substância controla
o seu comportamento. A
10º Edição de Classificação Internacional
de Doenças (CID-10) descreve a Sêndrome de Dependência
(F1 x.2). Um conjunto de fenômenos fisiológicos, comportamentais e cognitivos, no qual o uso de uma substância ou uma classe de substância alcança uma prioridade muito maior para um determinado indivêduo que outros comportamentos que antes tinham mais valor. Uma caracterêstica descritiva central da sêndrome de dependência é o desejo (freqüentemente forte, algumas vezes irresistêvel) de consumir drogas psicoativas (as quais podem ou não ter sido medicamente prescritas), álcool ou tabaco. Pode haver evidência de que o retorno ao uso da substância após um perêodo de abstinência leva a um reaparecimento mais rápido de outros aspectos da sêndrome do que o que ocorre com indivêduos não dependentes. Esta
classificação considera como drogas: álcool, opióides,
canabinóides, sedativos ou hipnóticos, cocaêna, outros
estimulantes, inclusive cafeêna, alucinógenos, tabaco, solventes
voláteis. Tais drogas são divididas em categorias especêficas. Traça
também diretrizes para o diagnóstico que deve somente ser
feito, caso três ou mais dos seguintes critérios descritos
resumidamente a seguir tenham sido preenchidos por algum tempo durante
o último ano. 1
- Forte desejo ou compulsão para usar a substância. 2
- Dificuldade em controlar o consumo da substância, em termos de
inêcio, término e quantidade. 3
- Presença da sêndrome de abstinência ou uso da substância
para evitar o aparecimento da mesma. 4
- Presença de tolerância, evidenciada pela necessidade de
aumentar a quantidade para obter o mesmo efeito anterior. 5
- Abandono progressivo de outros interesses ou prazeres em prol do uso
da substância. 6
- Persistência no uso, apesar das diversas conseqüências
danosas. São
várias as versões que procuram elucidar a questão
da dependência, Sem dúvida, todas objetivando o mesmo fim,
diminuir o sofrimento do homem que não conseguiu livrar-se da dependência
de drogas. A
concepção biomédica acredita que o distúrbio
psêquico é puramente orgânico. As teorias psicológicas
enfatizam a influência do psêquico. A psicanálise explica
este fenômeno a partir da estrutura do inconsciente do indivêduo.
A abordagem comportamental destaca o papel dos acontecimentos do ambiente,
como determinadores da conduta humana. Na abordagem fenomenológico-existencial,
a dependência quêmica constitui-se numa possibilidade de escolha
dentre as possêveis disponêveis no mundo. é
partindo dessa premissa que a psicoterapia Fenomenológico-Existencial
desenvolve seu trabalho. Valoriza o ser como pluridimensional, livre e
aberto às suas possibilidades, podendo escolher cuidar de si criando
a sua vida, responsabilizando-se por seu projeto. E para isso é
necessário que se desaliene, tomando consciência de si, de
seus limites e possibilidades e de sua liberdade de escolher com responsabilidade. Sendo
assim, a farda, as máscaras, os estereótipos, os laudos,
os atributos, não são considerados pelo terapeuta quando
este indivêduo entra em seu consultório, não importa
seu sobrenome. Tal
conduta não inviabiliza a utilização de recursos
e métodos, e, norteado na Psicopatologia Fenomenológica,
serão apresentadas algumas vivências do dependente quêmico
que podem ser comparadas à vivência manêaca. A
vivência do tempo, para estes indivêduos, em muito se assemelha,
daê sua dificuldade de lidar com a idéia de futuro, pois
apenas existe a vivência do presente, e a tentativa voraz de eternizá-lo.
O passado, portanto, não serve como orientador das experiências.
Conseqüentemente, tais indivêduos poderão se sentir
incapazes de fazer projetos. São
capazes de colocar-se em situações de grande risco em busca
de algo que os satisfaça, os obstáculos não são
percebidos, nada é impossêvel. Vivenciam a crença
de que não existe limite para sua ação. Evitam
entrar em contato com sua própria intimidade, vivendo afastado
de si mesmo. Sendo assim, não apresentam interesses ou motivação
para desempenhar alguma tarefa por um tempo considerável. Muitas
vezes seu interesse é excessivo por um número excessivo
de coisas, mas permanecendo na superficialidade, não se aprofundando
em nada. Nas
relações, o mesmo pode ocorrer, mostrando-se a princêpio
disponêvel ao contato e vinculando-se facilmente, porém este
vênculo é frágil e logo é desfeito. Diante
das contingências da vida, acaba fadado ao fracasso, pois seus objetivos
não são alcançados, daê, a grande e desmedida
dificuldade de lidar com a frustração e a angústia,
mas sua vivência é uma perene tentativa compulsiva de negá-las. Pode
parecer na verdade que o dependente quêmico vive uma verdadeira
guerra interna, onde vez por outra, batalhas são perdidas - recaêda.
Quando se escolhe catar os cacos e retomar a briga, uma batalha foi vencida.
Mas às vezes, algumas batalhas tornam-se verdadeiramente cruciais
para a sobrevivência. BIBLIOGRAFIA ASSAD,
Jaissa de Mello. Recentes avanços no entendimento e tratamento
do abuso de drogas e dependência. Informação Psiquiátrica.
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Ana Maria Lopez Calvo. Apostilas de Psicopatologia Fenomenológica
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Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa |