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A Psicomotricidade na Abordagem Fenomenológico-Existencial
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O
homem comunica-se através da linguagem verbal, ruas também
através de gestos, movimentos, olhares, forma de caminhar - sua
linguagem corporal. Quando
o bebê chora - ou não -, logo que nasce, o essencial não
é seu choro, mas a comunicação, já precocemente
estabelecida. Ao chorar, contorcer-se e fazer caretas o bebê mostra-se,
ou seja, transmite-se ao mundo, bem antes de a conquista da palavra dar
lugar à priorização da comunicação
pela fala. A
esta comunicação, a este estar-no-mundo intenso dentro do
limite da corporeidade - espaço próprio do sujeito -, pode-se
nominar psicomotricidade. A
psicomotricidade do indivêduo desenvolve-se com sua maturação
biológica, seguindo esquemas já conhecidos e definidos por
médicos, biólogos, fisioterapeutas. O estudo da motricidade
pode ser compreendido a partir do interesse despertado pelo diferente: "O
bizarro, o invulgar e o inesperado sempre atraêram a atenção
e têm, freqüentemente, despertado temor e espanto. [...] A
ocorrência de eventos e circunstâncias invulgares estimulam
os esforços individuais e os movimentos sociais relacionados com
a compreensão, a assistência, a prevenção e
o controle dessas condições e eventos." (Telford,
Charles W. e Sawrey, James M., 1976.) Embora,
conforme admitem os próprios autores, esta visão possa ir
longe demais enquanto generalização, os estudos sobre o
desenvolvimento humano parecem seguir esquemas, descrevendo o desenvolvimento
normal para que se possa compreender o diferente. A
psicomotricidade não foge a esta regra quando define os padrões
considerados normais para o desenvolvimento psicomotor (considerando descrições
feitas pela neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia e áreas afins),
desenvolvendo pontos de referência escalonados a partir dos quais
poder-se-ão construir todos os testes infantis e as escalas de
quociente de desenvolvimento; e, por conseguinte, avaliar e diagnosticar
o atraso atual, assim como o desenvolvimento futuro. (Coste,
Jean Claude, 198 1) Também
a psicologia desenvolveu seus primeiros testes de inteligência (A
escala Binet-Simon) com o objetivo de investigar o potencial de aprendizagem
de crianças que tinham dificuldade na execução de
tarefas escolares. (em Bardon e Bermett, 1975). Estes
estudos têm levado ao conhecimento e compreensão daquilo
que Heidegger chama de contingente, ou seja, o que é dado ao sujeito
pelos limites de sua corporeidade - suas estruturas factuais. (Heidegger
falará também das estruturas sociais, culturais, econômicas,
geográficas. - Gilles, Thomas Ransom, 1989) Isto
posto, o objetivo deste trabalho é desenvolver a forma como uma
abordagem fenomenológica para a psicomotricidade considerará
não o contingente em si, mas o fenômeno, ou seja, a forma
como o sujeito vivente integra-se ao vivido. Mariana
é uma menina de 9 anos. Chega ao psicólogo depois de 6 anos
tratando-se com uma fonoaudióloga e uma fisioterapeuta - só
agora a equipe conseguiu inserir o psicólogo no tratamento. A queixa
apresentada pela fisioterapeuta é que Mariana recusa-se a fazer
progressos, teve uma forte regressão no quadro geral e sofreu perda
recente do avô materno. A queixa trazida pela mãe ressalta
este elemento de regressão e uma grande preocupação
com a possibilidade de mudança do quadro neurológico. No
psicodiagnóstico foi possêvel levantar grande limitação
na comunicação verbal, assim como comprometimentos na psicomotricidade.
Mariana baba muito, tem movimentos corporais descoordenados e grosseiros,
apreensão e a motricidade fina pouco controladas. A dinâmica
familiar aparece centrada na filha, ressaltando-se um sentimento de angústia
pela possibilidade iminente de perda - principalmente por parte da mãe.
O pai parece colocar-se alheio a esta dinâmica. No relato da mãe
pode-se perceber a identificação dos sentimentos da filha
a partir de seus próprios e a fragilidade de arribas, mantida sob
controle. é
então sugerida psicoterapia para Mariana e orientação
para os pais. Começa
a terapia. A linguagem verbal pobre suscita uma nova forma de comunicação
e é a criança quem define a fórmula. Sem
palavras Mariana leva a terapeuta a conhecer seu mundo: a forma como viveu
e foi tratada depois de um choque anafilático que sofrera com 42
dias de nascida que resultou em 20 dias de coma e lhe deixou seqüelas
neurológicas. Sua comunicação verbal é, neste
momento, bastante limitada. Assim Mariana vai "contando" a dor
da mãe, a dedicação traduzida em forma de medicamentos,
olhares angustiados, atenção intensa e constante. Mariana
"conta" incessantemente como é estar doente, sob cuidados
médicos e sob a preocupação ininterrupta da mãe,
que mesmo fora de seu mundo espacial -estando no trabalho -monitora seu
dia, sua rotina, já menina crescida. E reproduz em gestos e brincadeiras,
com poucas palavras, a rotina dessa mãe que liga-se à vida
da filha de longe, que sofre muito a perda do pai, que centra sua vida
na vida da filha, -e da própria vida de Mariana, vivida pela expectativa
da presença da mãe. Revivendo
sua história, Mariana vai redescobrindo-se, deixando de se ver
pelo olhar da mãe para encontrar-se sob seus próprios olhos,
seu próprio sentir. E descobre-se menina com 11, 12 anos, entrando
na puberdade, optando por deixar as bonecas - "que são para
crianças pequenas, de 6, 7 anos" - e olhando em volta, buscando
algo que substitua a boneca. Descobre lápis, canetas, tesoura,
cola. Vive a frustração de não reproduzir com suas
mãos o que imaginou: a motricidade fina foi comprometida, e muitos
movimentos amplos também, assim o grafismo denuncia a seqüela
neurológica. Como
se tomada pela mão a terapeuta vai com Mariana em busca de alternativas.
Encontram massinha plástica, argila, massa e rinha ita na hora,
e um novo espaço vivencial inaugura-se. A
essa altura a linguagem verbal já fez progressos e Mariana fala
do garoto que quer namorar, da empregada que faltou, da crise conjugal
dos pais. A mãe queixa-se da filha malcriada, teimosa. Mariana
está separada dela. Angustiada, pois separada. Separada, sendo
si-mesma. Paralelamente
é feito o trabalho de orientação com os pais. A freqüência
deste trabalho assume ritmo próprio, necessitando uma certa insistência
da terapeuta para que ocorram os encontros. é trabalhada primeiramente
a identificação dos sentimentos - objetivando não
só a conscientização, mas também a destinação
a quem de direito: você, mãe, sente isto. E o pai, como sente?
E Mariana, como percebe isto? Este trabalho vai permitindo a diferenciação
afetiva entre os membros da famêlia. Ao mesmo tempo são feitas
orientações diretas, como levar Mariana para atividades
de crianças, praças públicas - trabalha-se o medo
da mãe de que, exposta, Mariana sofresse qualquer acidente e morresse.
é explorada esta expectativa de morte iminente que persiste na
mãe desde quando Mariana correu risco real de vida. A partir do
trabalho de conscientização é possêvel abrir
o leque de possibilidades em termos de expectativas em relação
à filha, que num primeiro momento pula para o extremo de que Mariana
se case e tenha filhos e assume proporções mais próximas
do vivido, ou seja, perceber Mariana como uma criança de 11 anos,
que está aprendendo a ler e a escrever, fazendo progressos em seu
ritmo próprio, que entrando na puberdade busca informações
e oscila entre brincar de boneca ou não, que desafia a mãe,
fica malcriada. O
objetivo da descrição deste caso foi mostrar como a psicoterapia
pode, a partir de linguagens diversas definidas pelo próprio cliente,
chegar ao desenvolvimento e crescimento pessoais. Citando
Heidegger: Se
o homem é, é porque é “dizedor, mostrador" do
Ser. é quando o homem fala, quando ele diz e faz florescer a presença
que ele é. Se no juêzo, o falar que representa a linguagem
aparece como um fazer do homem, um modo de expressão de sua subjetividade,
esse falar não fundamenta o Ser do homem. A sua linguagem essencial
não é o fato de o homem possuir a linguagem, mas antes o
fato de o homem ser possuêdo pela linguagem. Pois só a linguagem
fala realmente. é a linguagem que me faz sinal, e somos essencialmente
um sinal... O homem só pode falar porque diz, porque mostra. (Gilles,
Thomas Ransom, 1989) A
Psicomotricidade vai considerar o sujeito do ponto de vista, psicomotriz,
ou seja, nesse linguajar não expresso apenas em palavras, mas em
sua corporeidade. Trata-se de uma disciplina necessariamente multidisciplinar,
uma vez que fará interseção com a Biologia, Psicologia,
Fisioterapia, Lingüêstica, Medicina. Ao
fazer a leitura do indivêduo a Psicomotricidade estarão considerando
o desenvolvimento psicomotor (reflexos, coordenação, esquema
corporal, tonicidade), a estruturação espaço-temporal
(tempo, espaço, ritmo, distância) e a lateralidade. Vai ler
a forma como o indivêduo apropria-se de seu corpo considerando ser
a corporeidade a instância central da relação com
o mundo. Enquanto
proposta reeducadora buscará proporcionar o reencontro do indivêduo
com seu próprio corpo, considerando as instâncias acima referidas,
dando ênfase a esta linguagem corporal. Associada à Psicoterapia
trabalhará o indivêduo enquanto manifestação
corporal, mas também verbal, ou seja, considerando todas as formas
de expressão e buscando os significados dados pelo próprio
vivente à sua forma de estar e se colocar em seu mundo. Há
aqui que considerar o contingente, ou seja, aquilo que é dado ao
indivêduo por suas circunstâncias particulares - constituição
fêsica, sua cultura, seu momento histórico e sua história
pessoal. Uma
proposta Fenomenológica para a Psicomotricidade implica em que
se trabalhe no indivêduo as categorias fenomenológicas da
existência, quais sejam: o tempo (sua história), o espaço
(sua corporeidade), o outro (seu ser-com as coisas e os outros, sua estranheza)
e a obra (seu estar-no-mundo, seu fazer-se). O
exame das diversas dimensões do ser no mundo levou à afirmação
de que o mundo é construêdo: espaço e tempo são
criações do homem, que dispõe da fala para tentar
a superação da estranheza. Nesse sentido pode-se dizer que
o mundo é obra do homem. Trata-se, contudo, de obra implêcita,
de um fazer contênuo que nada mais é do que o próprio
processo da vida. (AUGRAS, Monique, 1986) O
método fenomenológico, através da compreensão,
apreende o indivêduo em sua própria forma, captando seu estar-no-mundo,
buscando a essência do sujeito nele mesmo, a intencionalidade da
consciência expressa em palavras e gestos e traduzida em significados,
apreendidos pelo próprio sujeito. No
fenômeno, é possêvel apreender o sentido, ou a polisemia
(há sentidos), ou seja, os sentidos possêveis do vivido.
“A voz do ‘homem’ é plurissignificativa.” (Heidegger, 1987). O
fenomenológo estará, através da captação
intuitiva (o sentido que salta aos olhos) e da integração
significativa (quando busca de forma rigorosa o sentido daquele vivido,
dentre inúmeros sentidos possêveis), fazendo a redução
fenomenológica, ou seja, apreendendo a essência do fenômeno
vivenciado naquela situação especêfica em questão,
presentificada no aqui e agora, promovendo a amplificação
da consciência e a construção de sua verdade na ação,
explorando as categorias existenciais: autenticidade, liberdade, responsabilidade,
angústia, medo. Uma
Psicomotricidade Fenomenológica compreenderá o indivêduo
em sua forma de estar-no-mundo a partir de sua corporeidade, integrando
significados e explorando rigorosamente outros sentidos, ampliando a consciência
de si-mesmo e promovendo a congruência entre pensamento, sentimento
e ação, que levará a uma vivência autêntica. * A publicação do caso foi autorizada pelo cliente e por seu responsável. O nome atribuêdo ao cliente é fictêcio para resguardar sua identidade. BIBLIOGRAFIA AUGRAS,
Monique, O Ser da Compreensão. Petrópolis: Vozes,
1986. BARDON,
Jack I. e BENNETT, Virginia C. Psicologia Escolar. Rio de Janeiro:
Zahar, 1975. COSTE,
Jean-Claude. A Psicomotricidade.
Rio de Janeiro, Zahar 1981. FEIJOO,
Ana Maria Lopez Calvo de. Textos e apontamentos dos grupos de estudos
(1992 a 1995) e da Formação em Psicologia Fenomenológico
Existencial (1996). GILLES,
Thomas Ransom, História do Existencialismo e da Fenomenologia.
São Paulo: E.P.U., 1989. HEIDEGGER,
Martin. Carta sobre o Humanismo. Lisboa: Guimarães Editores,
1987. TELFORD,
Charkes W. e SAWREY, James M. O Indivêduo Excepcional. Rio
de Janeiro: Zahar, 1976. Myriam Moreira Protásio |