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Os Mandamentos do Psicoterapeuta Existencial
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Soren
Aybe Kierkegaard viveu de 1813 a 1845, percurso no qual desenvolveu
sua extraordinária obra, que versa sobre a filosofia do existir,
assim denominada para diferenciar-se das obras de seu precursor Hegel,
cuja filosofia consistia na sistematização do ser. O ser
que se enquadraria num sistema abstrato que, tratando do homem enquanto
abstração, distanciava-se do real, na medida em que se
aproximava de um ideal. Kierkegaard,
de formação teológica e filosófica, pretende
alcançar o existente cru sua realidade concreta, portanto vivida.
E mais, teve como objetivo, através de suas obras literárias,
levar o homem ao conhecimento de si mesmo; nisto consistia a sua atitude
de fé. Como autor religioso, forma pela qual ele próprio
se denominou, dizia ter como projeto, esforçar-se no sentido
de tirar o homem da ilusão de ser aquilo que não é. O
percurso e os meios pelos quais este autor vai promover tal façanha
vêm descritos em seu livro publicado em sua primeira edição
em 1846: Meu ponto de vista. Começa afirmando que o segredo da
arte de ajudar o outro consiste em esforçar-se para encontrá-lo
onde ele está e, então, começar daê. Continua
mais adiante descrevendo o processo de ajuda e afirma: "Ajudar
o outro consiste em desembaraçá-lo dos laços da
própria ilusão, a fim de que ele chegue a ser o que é.
A partir do estudo desta obra , pode-se extrair o que aqui se denominou
"Os Mandamentos do Psicoterapeuta Existencial". Mesmo não
se encontrando nenhuma referência a esta produção
de Kierkegaard em Rogers, foi este quem mais se aproximou desta proposta
ao desenvolver estudos sobre a postura mais adequada de um psicólogo
humanista, seja como psicoterapeuta, seja como educador, ou ainda como
facilitador em situações de grupo. E agora, na medida
em que se desdobram as recomendações do filósofo,
vai se articular como se deve proceder no processo psicoterápico
sob a ótica existencialista. Tanto
Kierkegaard quanto o psicoterapeuta existencial pretendem ajudar o homem,
"energia viva autodeterminante", a encarar sem temor o seu
ser e a enfrentar o paradoxo da existência humana. Para este filósofo,
só através deste percurso é que se pode arrancar
o homem do estágio estético para o religioso, ou seja,
conduzi-lo do estético para a fé, enquanto que o psicólogo
vai se valer destes mesmos recursos, a fim de que o homem se reconheça
a si mesmo, assumindo a responsabilidade de suas escolhas e daquilo
que continua a escolher ser, em cada momento de sua vida, sabendo-se,
ao mesmo tempo, lançado às contingência do mundo. Seguem,
então, os "Mandamentos do Psicoterapeuta Existencial".2 1º)
Pela impossibilidade de destruir uma ilusão por via direta, deve-se
então fazê-lo por meios indiretos. Só assim a ilusão
pode ser arrancada pela raiz. 2º)
O método indireto organiza-se dialeticamente para em seguida
retirar-se, timidamente. Desta forma, aquele que ajuda não presencia
o reconhecimento que o homem faz de si mesmo, por ter vivido uma ilusão. 3º)
Quando se pretende ajudar o outro, deve-se promover a aproximação,
permanecendo na situação de acompanhar aquele que está
sob a ilusão. Só desta forma haverá a possibilidade
de tirarmos o homem de sua ilusão. Sabendo-se desde o inêcio
que é uma tarefa difêcil em qualquer caso. 4º)
Aquele que vive na ilusão, em maior parte, vivencia a categoria
estético-ética. A fim de atacar com disposição
a ilusão, deve-se chegar até ele, para então poderem
caminhar juntos. O escritor religioso, para entrar em contato com os
homens, deve começar com as obras estéticas. Esta é
a estratégia. 5º)
é importante ter paciência, pois com impaciência
pode-se acabar fortalecendo a ilusão. Faz-se necessário
ser cuidadoso para poder dissipar a tal ilusão. 6º)
Para levar um homem ao seu centro é preciso chegar onde ele se
encontra e começar por aê. "Este é o segredo
da arte de ajudar os demais". 7º)
Para se ajudar o outro deve-se entender mais do que ele entende, mas
antes de tudo deve-se entender o que ele entende. Se assim não
for, a ajuda de nada lhe valerá. Tudo começa quando se
pode entender o que o outro entende e a forma como entende. 8º)
Se orgulhoso do meu conhecimento, antes de ajudar o outro, o que desejo
é que me admirem. O autêntico esforço para ajudar
começa com uma atitude humilde. O que ajuda deve colocar-se como
desconhecendo mais do que aquele a quem ajuda. 9º)
Ajudar não significa ser soberano, e sim criado. Ajudar não
significa ser ambicioso, e sim paciente. Ajudar significa ter que resistir,
no futuro, à imputação de que se está equivocado
e, portanto, não se entende o que o outro entende. 10º)
Apenas se chega até aquele que está equivocado, mostrando-se
um ouvinte complacente e atento. 11º)
Aquele que está disposto a ajudar carrega consigo a responsabilidade
e também deve despender de todo o esforço, porém
sabendo que tudo isto só vai ter valor em relação
ao resultado obtido. 12º)
As interpretações poéticas, muitas vezes, ajudam
aquele que fala do seu sofrimento, sem que ele saiba que não
se compartilha de sua paixão e, sim, que se quer livrá-lo
dela. 13º)
Deve-se ser um ouvinte que senta e escuta o que o outro encontra mais
prazer em contar, sem assombro. 14º)
Apresentar-se com o tipo de paixão do outro homem: alegre para
os alegres, em tom menor para os melancólicos, facilita a aproximação. 15º)
Não temer fazer tudo isto, mesmo que na verdade não se
possa fazer sem medo e temor. 16º)
Chegar a ser o que se é consiste em chegar à interioridade
através da reflexão, ou ainda significa desembaraçar-se
dos laços da própria ilusão, o que também
é uma modificação reflexiva. 17º)
Quando um homem não quer ser conduzido, resta ainda obrigá-lo
a dar-se conta do ponto em que ele está.
Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo |