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Os Paradoxos da Existência na História do Uso das Drogas
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Com
base na filosofia de Kierkegaard, o desespero é o sentimento que
o homem experimenta por toda a sua existência ao se deparar com
situações dialéticas tais como possibilidade / necessidade,
finito / infinito, temporal / eterno, situações estas que
são impossêveis de serem resolvidas mas podem ser vivenciadas
a partir da sêntese. Cabe a seguinte reflexão acerca desta
dialética histórica: será que o uso da droga aparece
no homem como uma tentativa de resolver os paradoxos que a sua existência
oferece? Há uma busca incessante de alcançar todos os possêveis:
o infinito, a imortalidade, e desta forma não se confrontar com
a necessidade, o finito, e o temporal, ou vice-versa. Assim, a droga pode
ser uma estratégia que o homem utiliza para tentar resolver tais
paradoxos. A
partir de uma revisão histórica da civilização
humana, pode-se observar que a droga se fez presente na cotidianeidade
do homem desde as primeiras notêcias de sua existência. Tanto
nas civilizações antigas quanto nas indêgenas as plantas
psicoativas como o ópio, a coca, a maconha eram bastante utilizadas
e estavam ligadas a rituais religiosos, culturais, sociais, estratégico
militares entre outros. Buscava-se através da magia e religião
a cura de doenças, o afastamento do mal espêrito, obter sucesso
nas caçadas e nas conquistas e atenuar a fome e o rigor do clima
de determinadas regiões. Aqui já se pode constatar o enfrentamento
do através do imaginário. Observa-se
que a utilização de substâncias psicoativas pelo homem
vai apresentar valores e simbolismos especêficos, que vão
variar de acordo com o contexto histórico cultural, em setores
como o religioso/mêstico, social, econômico, medicinal, psicológico,
climatológico, militar, e na busca do prazer. Portanto, o homem
lança mão de veêculos inebriantes para modificar e/ou
alterar sua percepção e humor, tendo como conseqüência,
na maioria das vezes, uma alteração do comportamento. Pesquisas
arqueológicas concluêram que determinadas pinturas deixadas
pelos homens da Idade da Pedra teriam sido criadas sob efeito de transes
xamanêsticos que provavelmente incluêam o consumo de plantas
psicoativas. Nos
tempos bêblicos, o vinho estava presente, e o homem já se
deparava com a questão de como desfrutar dos prazeres das drogas
sem, no entanto, tomar-se dependente delas. Ainda hoje o vinho é
parte integrante de cerimônias religiosas como a católica,
judaica e do candomblé. O
ópio era considerado como sêmbolo mitológico dos antigos
gregos e era revestido de um significado divino e seus efeitos eram vistos
como uma dádiva dos deuses destinada a acalmar os enfermos ou aqueles
que de algum mal padeciam. Na Odisséia, Homero relata que a bela
Helena ofereceu a Telêmaco uma bebida que fazia esquecer a dor e
a infelicidade. Em
alguns momentos pode-se perceber a dificuldade de estabelecer a sêntese
na dialética finito-infinito. Já na Antiguidade, na cultura
européia, o vinho e a cerveja eram utilizados como drogas, em especial
nas festas e, conseqüentemente, ocorria a embriagues. A sociedade
de então, já preocupada com o consumo abusivo de tais substâncias,
lança mão da religião e da moral na tentativa de
exercer o controle. Novamente presente a contradição: o
prazer ilimitado X a necessidade de limites. Na
modernidade, no cenário das grandes conquistas de terras através
da navegação, a droga se apresenta como facilitadora para
o domênio dos povos nativos e como fonte de enriquecimento para
o conquistador. Na
Europa do século XIX, observou-se o abuso do ópio sob a
forma medicinal. Com o advento da ciência e sua crescente modernidade,
as drogas que a princêpio se apresentavam na forma de produto advindo
da natureza, quando levadas para o laboratório foram transformadas
e passaram a produzir outras, artificialmente - as drogas sintéticas. As
anfetaminas, ao serem lançadas em forma de comprimidos, em 1837,
ficaram conhecidas como a nova maravilha capaz de revigorar as energias
e elevar o estado de humor. Na segunda Grande Guerra foram largamente
utilizadas pela população e pelos soldados para aplacar
a fome, a fadiga e o sono. A morfina, principal constituinte do ópio,
uma das potentes drogas analgésicas, com a descoberta simultânea
da seringa, foi amplamente utilizada, no inêcio por razões
terapêuticas e logo depois por dependência ao produto. Nas
duas Grandes Guerras, a droga fez-se presente, sua comercialização
não era mais o fator primordial e sim estratégico, servindo
ora para enfraquecer o inimigo, ora como amenizador da dor para os feridos
e revigorante de energia para os soldados. Em
1924, avaliava-se em torno de 100 mil os usuários de drogas. Entretanto,
os trabalhos cientêficos eram proporcionalmente escassos. A opinião
pública mostrava-se alheia ao fato, por falta de informação,
e as autoridades não se mostravam eficazes. O
assunto era abordado por autores que faziam uso de drogas e descreviam
de forma romântica, os efeitos e os rituais que cercavam o uso de
drogas. Criavam na realidade uma auréola de exotismo e status;
em tomo de tal prática. Nos
anos 50, a utilização de drogas sintéticas com efeito
tranqüilizante, como as Benzodiazepinas, acentuou-se. Situações
que eram consideradas mazelas existenciais começaram progressivamente
a ser tratadas com esses calmantes, que ajudam a aliviar as tensões
do dia e permitem um sono mais tranqüilo. Nos dias de hoje, o uso
de calmante é prática costumeira em todas as classes sociais,
faz parte da cultura da medicação. Nos
anos 60, o movimento hippie floresce com uma proposta revolucionária,
onde a juventude transforma-se em um grupo de contestação
radical aos valores incorporados pela sociedade pré e industrial.
Através de suas roupas, músicas e drogas, o movimento hippie
pregava uma "ideologia libertatória', que buscava "cair
fora" do sistema social e cultural convencional do Ocidente. Buscando
criar um mundo alternativo e novas formas de pensar, sentir e perceber
a realidade, utilizavam-se de drogas psicodélicas e experiências
mêticas que proporcionavam efeitos prazerosos e alteravam o estado
de consciência possibilitando uma nova forma de aproximação
do real. O uso de solventes orgânicos torna-se prática nos
EUA e no Brasil a partir dos anos 70. A
faixa etária dos usuários de droga começa a se alargar:
o que até os anos 50 era prática do adulto advindo geralmente
de colônias asiáticas e intoxicadas por tratamentos terapêuticos
fazendo uso pessoal, nos anos 70 amplia-se tanto para os adolescentes
quanto para os idosos. Enquanto os jovens recorrem com maior freqüência
às drogas ilêcitas corno a cola de sapateiro (solvente),
maconha e a cocaêna, os idosos fazem uso das drogas lêcitas
como o tabaco, o álcool, a cafeêna e os medicamentos. Atualmente,
ainda na tentativa de resolução do paradoxo, a droga se
tornou assunto que traz grande polêmica, em todos os setores da
sociedade, conseqüentemente, dividindo opiniões. No entanto,
há uma tendência a enfatizar os perigos e malefêcios
que a droga pode trazer, sendo ela associada à marginalidade, à
violência, ao crime, à degradação, dando a
falsa idéia de que está presente só nas classes inferiores. Faz-se
necessário refletir, a partir do método fenomenológico
e dos princêpios existenciais, sobre a prática do psicólogo.
Afirma Kierkegaard, em seu livro Meu ponto de vista explicativo da minha
obra como escritor, de 1849: "Um
homem pode ter a sorte de fazer muito por outro, a de conduzir até
onde deseja levá-lo; para nos atermos ao nosso tema principal e
constante, pode ter a felicidade de o ajudar a tornar-se cristão.
Mas essa possibilidade não está no meu poder; depende de
uma multidão de circunstâncias, e sobretudo da vontade de
outro. Nunca posso de modo algum impor a alguém uma opinião,
uma convicção, uma crença; mas posso obrigá-lo
a tornar-se atento." O
homem pode escolher utilizar-se da droga como forma de alcançar
algo que lhe parece inacessêvel, como pode ser visto em sua história,
em que tenta prolongar o prazer, aplacar a dor, dominar o outro, ultrapassar
seus próprios limites e os impostos pelas contingências,
diferenciar-se dos demais através de comportamentos bizarros, dicotomizar
suas relações no mundo, nós-eles, e até mesmo
obter sucesso. Na tentativa ilusória de tornar-se o que não
se é, esquece-se do mundo e de si, opta por não escolher
ou então apóia-se na sua liberdade para alcançar
o impossêvel. Acredita poder controlar o tempo de acordo com seu
desejo e até sentir-se imortal. Portanto,
já que não é possêvel enquanto psicoterapeuta
dissipar a ilusão do homem na tentativa e resolver os paradoxos
de sua vida, cabe-nos a tarefa de torná-lo atento, sendo um facilitador
na abertura de seu leque de possibilidades, vislumbrando seu horizonte
onde se trabalha com o possêvel e o real, na singularidade da vivência
concreta de cada ser-aê-no-mundo. Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa |