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O Ser-no Mundo da Criança: Uma Proposta de Enfrentamento do Inevitável
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Quando
se observa ao redor pode-se constatar que todos os seres vivos têm
um fluxo em comum: nascem e morrem. Enquanto estão vivos passam
por transformações que são comumente chamadas de
desenvolvimento. Assim tem ocorrido continuamente, embora não seja
um movimento cêclico, uma vez que um ser só nasce e morre
concretamente uma vez. O
que chama a atenção neste processo são justamente
as transformações, condicionadas por espaço e tempo.
Assim como as águas de um rio não passam duas vezes no mesmo
lugar nem no mesmo tempo, a existência também é condicionada
ao tempo que flui e ao espaço, que se amplia ou se retrai. Segundo
Ariès (1981), em se tratando da existência humana, este ciclo obedece
ao que denomina idades da vida: o bebê, a criancinha, o púbere,
o adolescente, o jovem, o adulto ou a idade madura e a velhice - se o
processo se cumpre até o fim, claro, pois pode ser interrompido
a qualquer momento, e o é muitas vezes. Como qualquer outro ser
vivo, espera-se que nasça, desenvolva, dê frutos, definhe
e morra. De
que forma cada ser toma fé de sua situação, apercebe-se
de suas limitações e possibilidades? O que liga cada ser
a si mesmo em sua trajetória no tempo e espaço? Quando se
observa um indivêduo adulto, sabe-se que tem uma existência
que o precede, e que este indivêduo é o mesmo que nasceu
há tantos anos atrás em tal localização. No
caso das crianças, ou do bebê, imagina-se sua existência
para a frente, para o indivêduo adulto que irá se transformar.
O ser está então localizado sempre em tempo e espaço,
e é dentro destes parâmetros que se constitui. De
que forma fica mantida a integridade deste ser, e mais, que elementos
se tornariam necessários para que não se perdesse a si mesmo? A
existência humana dá-se continuamente num encontro eu-eu/eu-outro.
Como ser fiel a si mesmo e ao outro ao mesmo tempo? Isto constitui o paradoxo
humano preconizado por Kierkegaard. Se
não é possêvel escolher as contingências que
limitam o existir, lugar e ano em que se nasce ou vive, os pais que se
têm, a situação econômica e social, condição
fêsica e cognitiva - é sabido que as pessoas colocam-se diferentemente
nestas contingências -, esta talvez seja a marca de cada um. As
contingências estão aê, são encontradas, mas
como lidar com elas fica na esfera da pessoalidade. Uma
pedagoga recentemente comentava sobre sua filha, já com 15 anos:
"é impressionante como reconheço nela uma forma própria
de estar no mundo desde pequena: é ativa, questionadora - esta
talvez seja sua essência, sua marca registrada. Na
situação terapêutica, diante do sofrimento do cliente
que se nos apresenta, é possêvel verificar o que pode ser
chamado de desvio de percurso. Os filósofos existencialistas diriam
em unêssono: o que evidencia o desvio de percurso de um ser é
sua angústia, sua ansiedade ou "culpa existencial" no
mundo. (Yalom, 1981) O
trabalho do terapeuta ou educador apresenta-se como um voltar-se para
o cerne, para aquilo que fundamenta o desespero do cliente, para que,
a partir daê, ele instrumentalize-se em busca de um viver pleno,
em consonância com seus sentimentos e pensamentos. Como
terapeuta de crianças uma questão torna-se pertinente: como
instrumentalizar a criança, em qualquer etapa de seu desenvolvimento,
para o deparar-se com suas contingências sem desviar-se de seu cerne
pessoal? Yalom,
com a descrição dos "presentes da existência",
aponta uma possibilidade. As pesquisas e relatos que apresenta possibilitam
pensar no enfrentamento das situações como o caminho de
instrumentalização ou prevenção da saúde,
ou seja, da articulação entre pensamento, sentimento e ação
apregoada por Kierkegaard. As
pesquisas demonstram que a tendência vigente é a da resolução.
O que diferencia a resolução do enfrentamento? Os relatos
abaixo, retirados do livro do Yalom, talvez possam ilustrar esta questão. Uma
criança de 5 anos e sua mãe, professora universitária,
conversam: Criança:
"Animais também têm um fim?" Mãe:
"Sim, animais também têm um fim. Tudo que vive também
chega a um fim". Criança:
"Eu não quero chegar a um fim. Eu gostaria de viver mais do
que qualquer coisa na terra". Mãe:
"Você não precisa morrer. Você pode viver para
sempre". Outra
criança, de 4 anos, que perdeu seu avô e insistia em que
ele não estava morto, e que quando lhe contaram que seu avô
morrera de velhice buscava certeza de que seu pai e sua mãe não
eram velhos, teve o seguinte diálogo com o terapeuta numa sessão
de brincadeira: "Cr.:
Na noite passada eu encontrei uma abelha morta. Tr.:
Parecia morta? Cr.:
Ela foi morta. Alguém pisou nela e ela morreu. Tr.:
Morta como as pessoas mortas? Cr.:
Elas estão mortas mas não parecem pessoas mortas. Nada como
pessoas mortas. Tr.:
Há uma diferença? Cr.:
Pessoas estão mortas e abelhas estão mortas. Mas elas são
postas no chão e não estão boas. Pessoas. Tr.:
Não estão boas? Cr.:
Depois de um tempo, ela viverá (a abelha). Mas não uma pessoa.
Eu não quero falar sobre isto. Tr.:
Por quê? Cr.:
Porque tenho dois avós vivos. Tr.:
Dois? Cr.:
Um. Tr.:
O que aconteceu com um? Cr.:
Morreu há muito tempo atrás. Há cem anos. Tr.:
Você também viverá tanto? Cr.:
Cem anos. Tr.:
E então? Cr.:
Morrerei talvez. Tr.:
Todas as pessoas morrem. Cr.:
é, terei que morrer. Tr.:
Isto é triste. Cr.:
Mas terei que morrer, de qualquer forma. Tr.:
Terá? Cr.:
Com certeza. Meu pai morrerá. Isto é triste. Tr.:
Por que ele morrerá? Cr.:
Não tem importância. Tr.:
Você não quer falar sobre isto. Cr.:
Quero ver minha mãe agora. Tr.:
Eu levarei você até ela. Cr.:
Eu sei onde as pessoas mortas estão. Nos cemitérios. Meu
velho avô está morto. Ele não pode sair. Tr.:
Você quer dizer onde ele está sepultado. Cr.:
Ele não pode sair. Nunca." Na
primeira situação há a preocupação
em tranqüilizar a criança, livrá-la da situação
angustiante usando como recurso uma inverdade: "Você pode viver
para sempre". Este procedimento está aqui designado como resolução. Na
segunda, o que está mobilizando a criança é explorado
e enfrentado: a angústia é aceita como condição
humana, a morte como algo definitivo e certo. Este procedimento é
o enfrentamento. Fica
a sugestão de começar a pensar a educação,
ou seja, o processo de ir junto com a criança em seu caminho de
se transformar em adulto, idoso, pelo prisma da conscientização
de sua situação, ou seja, do reconhecimento das contingências
que limitam seu existir (a morte, a solidão, a liberdade, o sentido),
promovendo um enfrentamento com sua real condição de vida. Myriam Moreira Protásio |