![]() |
|
O conceito de angústia: súmula da obra de Sören Kierkegaard
|
| Em
1844, Kierkegaard publicou O conceito de angústia, no qual investiga
a temática do pecado. Nesse livro, ele afirma ainda que o pecado
se caracteriza pela indefinição e pela constante modificação
de acordo com a atmosfera que o rodeia, exigindo da ciência que pretende
investigar tal temática clareza, delimitação e finalidade,
para que deste modo se possa compreender o conjunto daquilo que se investiga.
Uma determinada ciência só poderá harmonizar-se com
a ciência como um todo conhecendo seu lugar, sabendo de sua finalidade
e reconhecendo seus limites. A psicologia como matéria cientêfica deve, então, definir e delimitar o que pretende estudar acerca do pecado. Afirma o filósofo que cabe a esta área de estudo não o conteúdo do pecado, mas a sua possibilidade, pois é psicologicamente fora de contestação que a natureza do homem contém a possibilidade do pecado. Kierkegaard afirma, então, que a questão a ser investigada pela psicologia é a angústia frente à possibilidade do pecado. Partindo da metáfora do pecado original - Adão e Eva -, Kierkegaard sugere a angústia como situação que ocorre a Adão frente à possibilidade de escolha. O pecado original de Adão traz a consciência da culpabilidade, o sofrimento e a angústia. O homem, por sua natureza pecaminosa, posto que lhe é dado escolher, vive na intranqüilidade. A angústia é o sentimento que ocorre diante da possibilidade, caracterizando a situação de liberdade - o homem que é livre, é livre para o pecado. Ela surge em face do real estabelecido e do futuro. Tanto o pecado quanto a liberdade não se dão a partir de nenhuma premissa: a liberdade é infinita e provém do nada, e o pecado não ocorre num processo contênuo como necessidade, e sim em salto e como possibilidade. Não
deve, então, a psicologia tratar o pecado como objeto e sim como
ato, dada a constante modificação que é própria
do pecado. Ao homem é oferecida a possibilidade do pecado, e neste
aspecto a psicologia ocupa-se da existência individual que se dá
em movimento, saltos de estado para estado, e em cada estado existe uma
esfera de possibilidades, em igual proporção, a angústia.
à psicologia não cabe discutir eticamente o pecado, cabe-lhe estudar as posições psicológicas da liberdade diante do pecado, a não-liberdade pela carência de interioridade ou pela não-consciência, podendo se revelar de diferentes modos: hermetismo, perda somático-psêquica da liberdade, perda pneumática da liberdade. Na posição psicológica do hermetismo, a não-liberdade se faz presente pela ausência de comunicação. é, pois, a linguagem, o verbo, que pode retirar o homem desta posição. A perda somático-psêquica da liberdade se mostra por uma irritabilidade tensa, por uma hipocondria e, até mesmo, uma histeria. Falta interioridade, e esta se expressa no corpo pela angústia. Na perda pneumática da liberdade mantém-se a crença na certeza e na imortalidade, forma mais acentuada de não se assumir a angústia. Entende-se o eterno de modo inteiramente abstrato. O homem preso ao temporal não consegue ver concretamente seu limite ou imagina a eternidade de modo metafêsico. A eternidade condicionada ao temporal consiste na situação que o homem teme, e por isso tenta esquivar-se e nem deseja pensar. A carência de interioridade, pronunciada pela angústia, possibilita que se alcance a consciência do eu. Exercitar a consciência do eu consiste numa atividade que se dá em um processo de compreensão e não em um processo mecânico, e quanto mais concreto é o conteúdo da consciência, mais concreta se faz a compreensão, e, uma vez que falte a consciência, tem-se o fenômeno da não-liberdade. Enfim, para se escapar da angústia e da liberdade podem-se inventar inúmeros subterfúgios. Porém, é a angustia que constitui o possêvel da liberdade. Na angústia é que surge para o homem a possibilidade de constituir-se certo de sua finitude e conhecedor de suas ilusões. Referência bibliográfica: KIERKEGAARD, S. O conceito de angústia. São Paulo: Hemus, 1968. Ana
Maria Lopez Calvo de Feijoo |