David
Lodge, escritor inglês, em seu romance Terapia, publicado em 1997
no Brasil, cria uma história em que o personagem Lawrence Passmore
narra suas reflexões e vivências a partir de seu encontro
com as idéias de Sören Kierkegaard.
Lawrence é um homem descontente com sua imagem, sente um estranhamento
de si mesmo, percebe-se incapaz de viver o presente, sempre correndo atrás
do espectro da perfeição que lhe escapa. Queixa-se também
de uma dor constante no joelho diagnosticada como Sêndrome da Disfunção
do Joelho - SDJ.
Questiona-se por que não se sente satisfeito, visto que sua vida
financeira é muito boa, sua estrutura familiar é estável,
goza de boa saúde (com exceção do joelho) e considera-se
bem-sucedido profissionalmente. Pergunta-se então: qual é
o problema? E responde: "Não vou Saber Disso Jamais. Em sua terapia,
define assim seu estado de infelicidade: "A questão é que
eu não fui sempre infeliz. Ou razoavelmente contente. Mas em algum
lugar, em alguma época, perdi aquilo, o pique de viver pura e simplesmente,
sem ficar ansioso ou deprimido" (Lodge, 1997, p. 26). Na tentativa de
resolver seus problemas, submete-se a diferentes tratamentos: médico
e cirúrgico, fisioterapia, psicoterapia, cognitivo-comportamental,
aromaterapia e acupuntura, sem, no entanto, alcançar os resultados
esperados.
Certo dia, ao sentir-se intrigado com a pergunta: "Como vai a sua angst?",
Lawrence sai em busca de seu significado e depara-se com a definição
filosófica: "(filosofia do existencialismo) a angústia causada
pela percepção do homem de que seu futuro não é
determinado, mas deve ser escolhido livremente", e sente-se, então,
invadido pela sensação de auto-reconhecimento: "Angústia
é o que sinto quando acordo de madrugada num suor frio. Angústia
aguda, mas sem ser especêfica. Claro que logo associo coisas especêficas
a ela. Impotência, por exemplo" (ibid., p. 77).
A partir daê, vai ao encontro de Kierkegaard e de suas obras: Temor
e tremor, Desespero humano, Conceito de angústia, Ou... ou e Repetição.
Sente-se afetado pelas temáticas abordadas pelo filósofo,
mesmo tendo a impressão de que não compreendeu do que se
tratava. Inicia com a leitura de O conceito de angústia, tema que
mais o interessou, mas decepciona-se com o êndice que insistia em
trazer o "pecado".
Ainda sem compreender bem, avalia como interessante o seguinte trecho:
"Eu posso dizer que aprender a conhecer a angústia é uma
aventura com que cada homem tem de confrontar-se se não quiser
cair na perdição ou por não conhecer a angústia
ou por se afundar nela. Aquele, portanto, que tenha aprendido certo a
viver em angústia, aprendeu a coisa mais importante". Lawrence
questiona-se então: "Mas o que é aprender certo a viver
a angústia e como é diferente de se afundar nela? Isso é
o que gostaria de saber" (ibid., p. 106).
Resolve então ler Ou... ou, por sentir-se intrigado com o têtulo,
e em um dos trechos, novamente tem a mesma sensação já
experimentada anteriormente, a de que Kierkegaard estava falando diretamente
de sua condição. Reconhece-se, portanto, no homem que o
filósofo define como homem infeliz: "O homem infeliz está
sempre ausente para com ele mesmo, nunca presente para ele" (ibid., p.
119). Lawrence discorda, em princêpio, do filósofo: "Não,
errado, meu caro Sören - nunca paro de pensar em mim, esse é
que é o problema. Mas, quando analisei, pensar em mim não
é a mesma coisa que estar presente para mim" (ibid., p. 119). Percebe,
portanto, que nunca está presente a si mesmo porque está
sempre vivendo no passado, de recordações ou no futuro,
vivendo na expectativa.
à medida que vai descobrindo Kierkegaard, Lawrence percebe sua
forma estética de ser no mundo. Reflete sobre a diferença
entre a dúvida e o desespero, e sobre a impossibilidade de desvencilhar-se
de escolher e viver a dúvida e o arrependimento pelas possibilidades
não escolhidas. Na busca de encontrar-se consigo mesmo, de retratar-se
e de resgatar sua felicidade, faz um retrospecto de sua vida, indo ao
encontro de vivências, pessoas e lugares importantes. Ao fazer o
caminho de Compostela, Lawrence compreende verdadeiramente os estágios
da existência: estético, ético e religioso. O peregrino
do tipo Estético busca deliciar-se com os prazeres pitorescos do
Camino. O peregrino do tipo ético vivencia a dúvida, questionando-se
por todo o percurso se realmente é um peregrino verdadeiro. E o
peregrino do tipo Religioso, o verdadeiro peregrino, apenas caminha, pois
vive o estado de profunda interioridade, aceitando os paradoxos do existir
humano sem tentar resolvê-los como nos outros dois tipos de peregrinação.
Lawrence, por fim, parece não mais sofrer de SDJ, e sua persistente
frase "Não vou Saber Disso Jamais" é tomada como condição
do existir.
Maria
Bernadete Medeiros Fernandes Lessa
Referência bibliográfica:
LODGE, David. Terapia. São Paulo: Scipione, 1997.
Psicoterapeuta em clênica particular, diretora e professora do IFEN. |