Principiemos
nossa análise pela novela kierkegaardiana editada em 16 de outubro
de 1843, La reprise. Neste "pequeno livro", atribuêdo a seu pseudônimo
Constantin Constantius, Kierkegaard expõe sua concepção
de repetição, que conflitua com a dialética hegeliana,
representada pela "mediação". Segundo o filósofo,
a "(...) mediação é um nome estrangeiro. Pelo contrário,
a gjentagelsen é uma palavra bem dinamarquesa, e eu felicito a
lêngua dinamarquesa por este termo filosófico" (Kierkegaard,
1990, p. 87).
Kierkegaard constrói este conceito para criticar a dialética
hegeliana. Pois na mediação, um novo momento alcançado
abole o precedente, enquanto que, no movimento da dialética kierkegaardiana
representada pela retomada, os estádios (estético, ético
e religioso) não se abolem.
Nelly Viallaneix, tradutora francesa dessa novela cujo têtulo original
é Gjentagelsen, nos explica o motivo de sua escolha pela tradução
deste termo filosófico por La reprise, em vez de traduzi-lo, como
o antigo tradutor P. H. Tisseau, por La répétition.
Viallaneix ressalta que, "mais comumente, o termo repetição
evoca a similitude na reprodução da palavra ou do gesto,
a esclerose do hábito, 'o mesmo no mesmo'. Ao contrário,
a retomada kierkegaardiana no sentido espiritual, existencial é
um segundo começo, uma vida nova, esta nova criatura, reconciliada
('a reconciliação é a retomada sensu eminentori');
é sempre eu, o mesmo, porém sempre outro, a cada instante"
(Viallaneix, in Kierkegaard, op. cit., p. 57).
O prefixo Gjen significa de novo, e a segunda parte da palavra é
um substantivo forjado sobre o verbo at tage, que significa tomar, por
isso a melhor maneira de a traduzir seria "reprise", ou em português
"retomada". Kierkegaard utilizou-se desse termo para evitar qualquer referência
à palavra latina "repetição".
A história de amor expressa por esse texto tem seu questionamento
principal bem ilustrado nas seguintes indagações feitas
pelo autor, no primeiro parágrafo: "Uma repetição
é possêvel? Que significação ela teria? Uma
coisa ganha ou perde ao se repetir?" (Kierkegaard, op. cit., p. 66). A
trama é tecida entre quatro personagens: Constantin Constantius,
um rapaz, uma moça e Jó. Constantin Constantius conta que
um rapaz se apaixonou por uma moça, mas, sofrendo por se ver incapacitado
de tornar-se esposo, ou melhor, de concretizar seu amor, pede-lhe conselho
sobre como agir. Constantius diz a este jovem para desvencilhar-se dessa
relação a que se submetia para, assim, retomá-la
de modo diferente, ou melhor, precipitar a perda para repetir o amor.
Mesmo recusando tal conselho, o jovem acaba por cumpri-lo, e o efeito
dessa ruptura tornou-o não um esposo, e sim um poeta.
Essa história se divide em dois capêtulos: no primeiro, Constantin
Constantius relata a história de amor acima referida e resolve
ele próprio experienciar a repetição, voltando a
Berlim para verificar se ela seria possêvel. Ele faz a "mesma" viagem.
Faz o roteiro idêntico ao da ocasião anterior em que foi
à cidade de Berlim: mesmo trem, mesmo quarto, mesmo teatro, mesma
peça. Entretanto, Constantin não consegue vivenciar a mesma
experiência, pois não era o mesmo que antes, nem os lugares
eram os mesmos, muito menos seus sentimentos experimentados neste instante
da novela. Por isso, a resposta encontrada por ele foi negativa. Nesta
parte da história, trata-se de uma falsa repetição
(a repetição do mesmo).
O segundo capêtulo recebe o mesmo nome do livro, por tratar diretamente
da repetição em questão: a repetição
diferencial, a retomada. Por isso, a referência à história
de Jó é encontrada nas cartas do jovem a seu confidente.
Isto porque, segundo as palavras do jovem, "Jó é abençoado
e ele recebeu tudo em dobro - isto se chama uma repetição"
(ibid., p. 156). Na história de Jó, vemos a impossibilidade
da repetição do mesmo. Nela, a retomada é representada,
pois havendo por provação de Deus perdido tudo que tinha,
Jó foi posteriormente premiado com o dobro. Só que esse
dobro não é nem uma soma do que ele tinha com mais um pouco,
nem o mesmo. Seu prêmio, dado por Deus, é marcado pelo advento
do novo.
Podemos dizer que a natureza da retomada kierkegaardiana é a diferença
que emana desse ato criador no seio da existência. Repete-se, porém
com diferença. Uma diferença que não tem uma relação
com uma evolução da humanidade apontada pelo movimento racional
da história, e sim uma repetição que marca a singularidade
existencial (uma reconciliação). No movimento tesmporal
da retomada kierkegaardiana não está em jogo a verdade histórica,
no sentido hegeliano do termo, mas sim a verdade existencial que leva
em conta o fenômeno da angústia.
Para concluirmos nossa reflexão, devemos remarcar a importância
deste texto kierkegaardiano, como do corpus crêtico do autor à
dialética hegeliana, apontando, deste modo, para uma repetição
que não é uma repetição do mesmo, e sim uma
repetição que traz a diferença, produzindo, assim,
o novo.
Referências bibliográficas:
KIERKEGAARD, S. La reprise. Tradução, introdução
e notas de Nelly Viallaneix. Paris: Flammarion, 1990.
PERDIGãO, P. Existência & liberdade. Porto Alegre: LP&M,
1995.
WAHL, J. Introduction. In: KIERKEGAARD, S. Le concept d'angoisse. Paris:
Félix Alcan, 1935.
______. Les philosophies de l'existence. Paris: Armand Colin, 1954.
______. El ser, la existencia y la realidad. México: Fondo Economico,
1997.
Leonardo Pinto de Almeida
Mestrando de Psicologia da Universidade Federal Fluminense e bolsista
da Faperj.
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