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Abraão,
aos 70 anos, vê cumprir-se a promessa de Deus para consigo: "terás
grande descendência". Torna-se pai na velhice. Quando recebe de
Deus a orientação de que deve sacrificar seu filho, Abraão
crê e crumpre a ordem divina.
Em Temor e tremor, publicado em 7 de outubro de 1843, sob o pseudônimo
de Johannes de Silentio, Kierkegaard disserta sobre o momento em que o
homem entrega-se, pela fé, ao que lhe é mais próprio,
usando a trajetória de Abraão como referencial. Investiga
as várias possibilidades de resposta a esta solicitação,
fundadas nos estágios ético e estético, e a possibilidade
de total entrega ao incompreensêvel, ao inimaginável, só
possêvel pela fé. Detém-se a refletir e extasiar-se
com este momento, aquele em que as leis do mundo perdem o sentido, o indivêduo
perde sentido, só restando o desejo de Deus e a entrega a este
desejo: "instantaneamente me sinto paralisado" (Kierkegaard, 1990, p.
46).
O autor ambiciona aquele algo mais, ir além da entrega às
coisas do mundo, chegar até Deus pela fé. Esta entrega se
faz pela paixão. O homem da fé não se dispersa nem
se justifica, vê em sua vida um só propósito e a ele
se entrega, embora sua vida possa parecer igual à de todos os outros
em sua finitude: "o cavaleiro da fé não se contradiz, e
há contradição em esquecer a substância de
toda sua vida, mesmo se continua sendo o mesmo" (ibid., p. 58).
Contradizer-se pertence ao racional. Na razão pensa-se no "inverossêmil,
no inesperado, no imprevisto", em que o cavaleiro convence-se da "impossibilidade
segundo o alcance humano". Mas o cavaleiro da fé, na resignação
infinita, sustenta a impossibilidade perante o mundo, embora a realize
no finito crendo no absurdo. "O paradoxo da fé não pode
reduzir-se a nenhum raciocênio, porque a fé começa
precisamente onde acaba a razão" (ibid., p. 71).
Kierkegaard considera o paradoxo da fé frente ao geral. Na fé
o indivêduo coloca-se acima do geral (o ético). O herói
(ético) move-se pelos resultados e pela moral. O cavaleiro da fé
move-se pela paixão, não pode ser ajudado ou compreendido.
Encontra-se em jogo o cotidiano, o geral - e o indivêduo, o solitário,
e a entrega a este particular, a isto que é mais próprio,
sem perder-se do geral, estando, no entanto, em conformidade com este.
O dever absoluto até Deus consiste, portanto, no paradoxo de encontrar-se
o indivêduo acima do geral, colocando-se em relação
absoluta com o absoluto.
O cavaleiro da fé vive em relação com o absoluto,
encontrando-se solitário pela impossibilidade de refugiar-se ou
ser compreendido. Pela perspectiva do geral é um assassino ou um
louco, mas Abraão tem a sua vida "como um seqüestro divino",
e é ao absoluto que se entrega.
O encontro com o geral exige o reconhecimento, a revelação,
o compartilhar. O segredo implica crise, "de onde só pode sair
pela manifestação". O indivêduo, movido pelo estético,
pode fazer segredo, mas o faz referendado em si mesmo, em suas motivações
próprias. O ético trabalha com a concordância no geral,
buscando conformidade nas normas através da manifestação.
No religioso, também silencia-se, pela impossibilidade de ser compreendido.
O silêncio pertence, portanto, ao estético e ao religioso,
sendo que no estético serve a si mesmo, e no religioso, ao absoluto.
Kierkegaard analisa como "Abraão não pode falar, pois não
pode fornecer a explicação definitiva". Abraão não
está em consonância com o geral e não pode ser compreendido,
encontra-se em contato com o absoluto, pois crê que o que lhe é
pedido não será necessário. Vive a solidão
da decisão, a angústia e a miséria. Considera possibilidades
de ação de Abrãao, formas de não-enfrentamento
da missão que lhe foi conferida, mas adverte: a indecisão
não pertence ao cavaleiro da fé.
Angústia e miséria caracterizam a existência daquele
que luta por cumprir sua missão. Kierkegaard considera esta missão
como atribuêda por Deus e só realizável pelo cavaleiro
da fé, no estágio religioso ao qual o indivêduo chega
através do salto solitário.
E conclui: "Aquilo que chamo propriamente humano é a paixão,
através da qual cada geração compreende inteiramente
a outra e compreende a si própria (...) Mas a mais alta paixão
do homem é a fé, e nenhuma geração começa
aqui em ponto diferente da anterior..." (ibid., p. 148).
Myriam
Moreira Protasio
Referências bibliográficas:
KIERKEGAARD, S. Temor y temblor. Tradução de Jaime Grinberg.
Buenos Aires: Editorial Losada S.A., 1947.
______. Temor e tremor. Tradução de Maria José Marinho,
Introdução de Alberto Ferreira. Lisboa: Guimarães
Editores, 1990.
Psicoterapeuta
em clênica particular, diretora e professora do IFEN. |