Do Estádio Estético ao Estádio Ético: Consciência e Existência em Kierkegaard

 
Introdução:

Este trabalho pretende investigar a gênese do problema da consciência em Kierkegaard, temática tratada sistematicamente na obra deste filósofo a partir da pressuposição de três momentos da existência, quais sejam, o momento estético, o ético e o religioso.

Estes planos existenciais aparecem em vários momentos de sua obra, tratados a partir do pressuposto de uma existência inicialmente sem qualquer determinação e que, no inevitável movimento de continuar existindo, vai se determinando. Kierkegaard tratará da existência considerando os momentos existenciais e os apelos à consciência no interior destes momentos, levando em conta o fato de cada momento existencial trazer problemas que acabam por urgir o surgimento do outro, num movimento que funda um aprofundamento da consciência daquele que existe. Estes momentos existenciais são apresentados na figura de personagens paradigmáticos que personificam disposições afetivas no interior da existência.

Denominará de estádio estético a disposição afetiva que considera a existência a partir do pressuposto de que seu sentido determina-se e esgota-se no instante, desconhecendo a experiência do eterno como constitutiva da existência. Esgotando-se no instante esta existência desconhece-se a si própria em sua determinação eterna, existindo sob a determinação do sensual, do efêmero, do fluido. Os riscos, neste momento, aparecem sob a forma de perder-se na fluidez do desejo, desconhecendo o conseqüente, fechando-se a uma existência que desconhece o outro e o universal. O apelo ético surge pelo viés da universalidade, convocando para que o singular ganhe consciência do universal, que o sensível aceite deixar-se moldar pelas determinações do geral.

O estádio ético surge, então, como a disposição afetiva que jamais perde de vista o conseqüente e o geral, apelando para que a consciência reconheça sua dimensão eterna e se renda às configurações universais de sua existência. O risco, neste momento, é o perigo de tornar-se refém das regras e da tarefa de se acomodar às exigências universais, perdendo o caráter singular e ativo do singular. A questão que vai se desdobrando é da ordem do Ou-Ou, da possibilidade de sustentar a singularidade sem perder o caráter de universalidade.

O jogo destes momentos constitui-se no movimento mesmo da existência, e a compreensão dos problemas que vão surgindo nestes movimentos oferece a fundamentação necessária para que aquele que se inclina sobre a existência humana em sua singularidade e especificidade possa problematizar a questão do processo de aprofundamento da consciência.

Os planos estético e ético são apresentados sistematicamente ao longo da obra do filósofo, em especial na obra Ou...Ou. O que se pretende neste grupo de trabalho é tratar os momentos existenciais no interior desta obra, considerando-os em sua especificidade e mostrando, ao mesmo tempo, que há sempre uma inconsistência no interior destes momentos, o que leva ao necessário abandono de cada um destes planos.

O plano estético é tratado no primeiro volume desta obra. Um primeiro personagem, Don Juan, protagonista da ópera de Mozart, escravo da sensualidade, do anímico, existe singularmente como desejo que busca incessantemente viver o instante feliz que, no entanto, esgota-se num instante só. Um outro personagem, “O sedutor”, apresenta um outro paradigma do sensível, o sensual reflexivo, cuja energia e prazer funda-se no arquitetar estratégias de sedução. Ambos, insensíveis ao caráter eterno e universal da existência, escravizam-se á única possibilidade de existir mediante a correspondência irreflexiva aos apelos sensuais e à vivência instantânea. Desconhecendo a contradição intrínseca de seu movimento existencial, que esvanece numa existência que nunca se concretiza e, conseqüentemente, nunca se repete, o desespero neste momento é personificado pela ausência de um sentido existencial ou determinações e pela impossibilidade da duração no tempo. O plano ético surge como saída neste momento, ao propor um cerceamento do sensual pelo víeis do universal, e é apresentado por Kierkegaard no segundo volume da obra.

O personagem ético, Juiz Wilhelm, convida o personagem esteta a considerar a importância da reflexão e da tomada de posição no amadurecimento da consciência. A partir de argumentos lógicos, fundados no cotidiano de sua própria existência, apela para o caráter universal e eterno da existência. Quer provar ao jovem esteta que o sensual, a beleza e o prazer têm lugar na existência fundada no ético, cujo caráter é a duração no tempo, a regularidade, o cotidiano e o habitual, e que não se trata de um abandono do plano anterior, mas de uma transfiguração do sensual e do singular dentro deste plano universal. Os riscos no interior deste estádio aparecem sob a forma de uma escravização às regras e ao geral, desfigurando a existência de seu caráter criativo e singular.
ádios, através de uma leitura mais detalhada de alguns textos escolhidos, considerando-os como modos de existir exercidos inclusive por uma mesma pessoa em diferentes momentos de sua existência. Desta forma pode-se sustentar uma ponte com a experiência cotidiana da clínica. A leitura destas obras e a discussão dos temas desenvolvidos em cada uma aparecerão, então, como espelho em que poderemos refletir os diferentes modos de existir que encontramos em nossos clientes.

Problematização:

I. As formas de existências concretas, descritas por Kierkegaard a partir da explanação das dimensões existenciais, os estádios estético, ético e religioso, não podem ser consideradas de modo evolutivo. Como compreendê-las?
II. O estádio estético é sempre pensado a partir de sua negatividade: seu limite ao efêmero e ao instante. É possível pensar uma positividade neste estádio? Como esta aparece na figura de Don Juan?
III. Outro paradigma do estético, Johannes, é pensado como um estádio a ser superado em consideração à sua dimensão articuladora e verborréica. Como compreender isto?
IV. O estádio ético é comumente afirmado em sua positividade. Quais os riscos no interior deste estádio? De que forma surge a demanda por outro momento existencial, o ético-religioso?

Objetivo Geral: Compreender a abrangência da discussão trazida à luz por Soren Kierkegaard acerca dos diferentes estádios da existência em suas positividades e riscos, visando articular a contribuição desta discussão para a compreensão do cliente e do processo psicoterapeutico.

Objetivos Específicos: Tendo sempre a frente o cotidiano do existir que aparece na clínica psicológica,

I. Investigar a positividade e os riscos encontrados nos dois personagens, aqui considerados como representantes do modo estético de existir, Don Juan e Johannes o Sedutor.
II. Investigar a positividade e os riscos na figura do Juiz Wilhelm, representante do modo ético de existir.
III. Considerar a forma como, em Kierkegaard, as formas de consciência aparecem sempre em articulação com modos de existência.
IV. Refletir e articular a prática clínica a partir das discussões desenvolvidas.

Justificativa:

Há uma tendência corrente de pensar a questão da consciência em Kierkegaard tomando como ponto de chegada o momento religioso e de identificar o plano estético e o ético como momentos a serem superados em nome da plenitude do plano seguinte. Diante dessa tendência, a nossa hipótese de trabalho é a de que esta perspectiva coloca a questão do amadurecimento da consciência pelo viés de um idealismo, o que contradiz a proposta kierkegaardiana de um aprofundamento da consciência que considere a positividade e os riscos inerentes a cada momento existencial e a impossibilidade de se pensar o momento religioso como um ápice a alcançar. A existência, em Kierkegaard, deve ser pensada em sua concretude própria, aberta ao devir, e o aprofundamento da consciência como um movimento constante que jamais se fecha, onde cada plano existencial guarda a possibilidade do outro, não definitivamente, mas como parte de um processo de sistematização de si.

Na tentativa de evitar tal posicionamento optamos neste trabalho por iniciar nossos estudos da consciência pelos planos estético e ético da existência, objetivando investigar as positividades e riscos no interior destes estádios. Compreendendo-se a complexidade e a amplitude desta temática no interior da obra deste autor, consideramos adequado restringir as investigações aos textos Os estádios eróticos imediatos ou o erotismo musical, Diário do sedutor e O equilíbrio entre o estético e o ético na formação da personalidade, contidos na obra Ou...Ou, de 1843. Com esta restrição pretendemos mostrar a possibilidade de uma positividade no plano estético e a incapacidade de o plano ético resolver por completo os dilemas do plano estético.

Acreditamos que uma psicologia pensada a partir destas reflexões oferece uma alternativa à compreensão corrente da consciência marcada por um idealismo que pressupõe um processo de desenvolvimento evolutivo. Ao nos aprofundarmos nas obras de Soren Kierkegaard, buscando nelas suas reflexões acerca da possibilidade de apropriação de si e da consciência enquanto movimento de singularização que se dá a partir de posicionamentos que emergem no cotidiano da existência, esperamos poder apresentar de forma fundamentada outra compreensão de homem e, conseqüentemente, vislumbrar uma prática clinica em que terapeuta e cliente caminhem verdadeiramente juntos, assumindo os riscos e ônus de suas situações existenciais.

Metodologia:

I. Leitura sistemática dos textos e discussão das temáticas pertinentes.
II. Fichamento dos textos de acordo com os sub-temas definidos pelos interesses de cada aluno, redação de, pelo menos, a introdução do trabalho.

Programação dos Trabalhos:

I. Apresentação e organização das temáticas de interesse de cada aluno e organização das ênfases a serem dadas no decorrer da leitura, a partir das temáticas específicas de cada um.
II. Tópicos:
    O estádio estético de Kierkegaard
         O sensível como disposição imediata e sua relação com a música.
         Sensível e desejo: da não consciência à articulação consciente com um objeto (a ditadura do sensível como desejo, desde suas configurações mais etéreas - a música - até a possibilidade de determinação de seu objeto).
         O sensível que conhece seu objeto e é mediado pela linguagem: a estratégia verborrágica.
         Ou – Ou, ganhar a si mesmo – perder a si mesmo, Singular - universal: Riscos e positividades no interior do estádio estético.
    O conflito estético-etico e o estádio ético da existência
         Ou – Ou: Como ganhar o universal sem perder o particular?
         O convite ao salto no universal e à apropriação da decisão, na voz do Juiz Wilhelm.
         A indecisão como fundamento do conflito estético-ético.
         A demanda pelo compromisso como fundamento do modo de existir ético.
         Riscos e possibilidades no interior deste momento.
         Considerações sobre o apelo ao ético-religioso surgido no interior do estádio ético.
    Considerações sobre a relação de ajuda
         Desejo e fragilidade da consciência.
         Compromisso e escravização.
         Apropriação de si, fortalecimento da consciencia e saúde.
         Limites e possibilidades do psicólogo.

Textos programados:

I. Os estádios eróticos imediatos ou o erotismo musical.
II. Diário do sedutor.
III. O equilíbrio entre o estético e ético na formação da personalidade.

 

BIBLIOGRAFIA

 

KIERKEGAARD, S.A. O lo uno o lo outro: um fragmento de vida II. Madrid, Editorial Trotta. (2006)

______. O lo uno o lo outro: um fragmento de vida II. Madrid, Editorial Trotta. (2007)

 

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