As Psicoterapias Fenomenológico – Existenciais e as Psicoterapias da Subjetividade: aproximações e divergências

 
Introdução:

A fenomenologia de Husserl, a filosofia da existência de Kierkegaard, a ontologia fenomenológico–existencial de Heidegger e Sartre serão os fundamentos dos quais vamos lançar mão para se repensar uma proposta em psicologia (fenomenológico-existencial) que respectivamente, considerem desde a intencionalidade como o objeto da psicologia até a de uma psicologia sem psiquismo, pressupondo outras modalidades para se pensar o eu do homem e, consequentemente, uma clínica psicológica.

Inicia-se por ressaltar que no que se altera a concepção de eu e conseqüentemente a atitude frente ao fenômeno, passa-se a estabelecer uma outra articulação para a psicoterapia, partindo-se do pressuposto de que toda e qualquer teoria acerca da existência humana deve ser suspensa. E assim poder aproximar-se do fenômeno, no caso, a temática trazida pelo paciente, atendo-se a todo o detalhamento de como se dá o acontecimento em questão. E que o psicoterapeuta mantendo em questão a temática trazida pelo analisando, bem como as suas interpretações possa alcançar uma compreensão daquilo que está em jogo na descrição do analisando, tentando quebrar ou destruir os comportamentos sedimentados presentes nas suas descrições, de modo que este ganhe liberdade e flexibilidade.

Objetivo Geral:

Este estudo tem como objetivo principal discutir como fundamentos da metafísica, tais como a exigência de substancialização dos objetos da ciência, bem como a dicotomização interioridade e totalidade foram hegemônicos na constituição das teorias e práticas psicológicas, pautadas na premissa da existência da subjetividade espaço e temporalmente determinadas e mais, da pressuposição da dicotomia ser e aparência, sob diferentes denominações: latência e aparência, eu real e eu ideal, consciente e inconsciente entre inúmeras outras.

A substancialização da subjetividade e a dicotomização da totalidade como fundamentos das psicologias estão presentes desde a psicanálise Freudiana e o Behaviorismo, denominadas respectivamente de primeira e segunda força em psicologia até às psicologias que se edificaram a partir das críticas as duas primeiras, e que acabaram por incidir nos mesmos pontos que haviam criticado.

A fim de apontar para as contradições e consequente esvaziamento que a premissa da subjetividade, bem como da dicotomização da totalidade impôs à psicologia, pretende-se iniciar a edificação de uma psicologia fenomenológico-existencial e de uma prática psicoterápica com bases na fenomenologia e na filosofia da existência, e assim poder romper com a posição substancialista e dicotômica assumida pelos diferentes modelos em psicologia. Para tanto, tomar-se-á a proposta fenomenológica, inaugurada por Husserl para pensar o eu, como fluxo de vivências na imanência da consciência, bem como o desdobramento desta proposta em Heidegger, que em Ser e Tempo acena para a possibilidade de uma psicologia que trabalhe com as bases ontológico-existenciais, a partir do poder-ser do ser-ai, em uma tentativa de responder a premissa metafísica de cisão entre aparência e ser, ser e devir, coisa em si e fenômeno. Convém esclarecer que a articulação da ontologia de Heidegger com a clínica psicológica e com a psiquiatria vem acontecendo desde 1941 quando o psiquiatra suíço, Ludwig Binswanger, utilizou o termo “Daseinsanalyse” para designar uma abordagem que baseada no filósofo alemão se diferencia de duas referências essenciais nas ciências naturais: o determinismo causal aplicado à existência humana e a suposição de que forças e complexos psíquicos agem de modo oculto nas expressões aparentes do homem. Ocorre que por reconhecer que sua perspectiva ainda se mantinha na idéia de uma subjetividade fechada em si mesma e dotada da possibilidade de se relacionar eticamente com os outros a partir da empatia, acaba por constituir uma psicologia com base no amor. Heidegger acusa Binswanger de uma ênfase em psicologia que se aproximava mais da posição husseliana. Este, então, passa a nomear a sua abordagem de “fenomenologia antropológica”.

Ainda a “Daseinsanalyse” foi discutida nos encontros de Medard Boss com Heidegger, médicos e psicoterapeutas, que se acham reunidos na obra publicada com o titulo de “Seminários de Zollikon”. Nesses seminários que aconteceram durante dez anos (1959 a 1969) abriram-se outras possibilidades de discussão e de reflexão sobre a clínica psicológica, qual seja: a psicoterapia existencial daseinsanalytica consiste em “deixar que os pacientes recuperem inicialmente a experiência que lhes faltou, mas que no fundo é indispensável, da dedicação protetora e inabalável do cuidado e do amor na medida correspondente à essência singular dos pacientes” (Boss, 1988, p.43). Embora Heidegger tenha abalizado à proposta da daseinsanalyse de Boss, esta não foi incluída no contexto da psicologia, de forma ampla, mantendo-se apenas em grupos muito restritos. Um dos principais objetivos do presente projeto é justamente corrigir esse fato, explorando possibilidades intrínsecas a essência de uma “Daseinsanalyse.”.

E em Sartre, que em Ser e o Nada, dedica um capítulo à Psicanálise Existencial, marcando uma oposição a análise psicológica de G. Flaubert em Ensaios de Psicologia Contemporânea de Paul Bourget.Diz Sartre que Bourget analisa psicologicamente Flaubert tendo como referência leis abstratas e universais. Parte da descrição do adolescente em geral para então, inferir acerca da tendência literária do jovem Flaubert. Flaubert era descrito como um adolescente com uma ambição desmedida e todos os seus desejos eram explicados por esta ambição original.Para Sartre, a verdade humana de cada pessoa só pode ser revelada por uma fenomenologia ontológica. Importa o sujeito da experiência. De nada vale fazer uma listagem das condutas, tendências e inclinações, o importante é decifrá-las, sabendo interrogá-las.O objetivo da investigação da psicanálise existencial é alcançar a descoberta de uma escolha, cabendo ao psicólogo reivindicar como decisiva a intuição final do sujeito.

Objetivamos também buscar no pensamento de Soren Kierkegaard uma fundamentação para a prática clínica consiste em acreditar que a filosofia da existência fornece elementos que possibilitam a clínica por excelência. Aliás, o próprio projeto de vida deste pensador dinamarquês voltou-se muito mais para mobilizar cada homem em particular no sentido de que este se desse conta de que vivia na ilusão, do que propriamente elaborar uma filosofia contemplativa. Em seus post-scriptum este autor esclarece com riqueza de detalhes o seu principal projeto.

O seu projeto de escritor consistia principalmente em alertar o seu leitor com relação às chamadas da multidão, levando-o a esquecer-se de si mesmo, de seus referenciais e escolhas. Esse homem, esquecido de seus critérios, esquecido de si mesmo, deixava-se levar pelo todo mundo e desta forma acabava se colocando numa posição de não-liberdade, atribuindo ao outro a responsabilidade pelas suas escolhas. Esse homem queria para si todas as possibilidades, já que perdera seus referenciais de escolha. Atraído pelas demandas estéticas queria para si todo o prazer que o mundo poderia lhe oferecer. Nesta ciranda, em que consistia a sua própria vida, não se apropriava mais de suas escolhas, e não se apropriando delas, tornava-se um joguete das sensações.

Outras vezes, na tentativa de não se deixar perder nas tentações disponibilizadas por este mundo onde predomina os valores hedonistas, acaba por aprisionar-se às normas, à ética, a verdades incontestáveis e indiscutíveis, conduzindo sua vida como um fardo de intensa monotonia. Este homem, agora aprisionado pelas regras e pelas convenções, também encontra no mundo justificativas para seu modo de existir, não se apropriando de suas escolhas.

Do mesmo modo que Kierkegaard preocupava-se com essa perda do homem em relação a si mesmo, o psicólogo clínico tem como tarefa fazer este alerta àquele que o procura angustiado e desesperado com o rumo de sua vida e que busca na relação terapêutica encontrar a sua singularidade.

Objetivos Específicos:

I. Apresentar as elaborações acerca da subjetividade no âmbito da filosofia moderna (Descartes, Spinoza e Kant) e como as psicologias modernas vão estabelecer uma teoria e prática a partir da concepção de subjetividade e conseqüentemente do eu oriundos da tradição moderna;
II. Discutir a noção de subjetividade no âmbito da metafísica e, consequentemente, da psicologia que traz no seu bojo estes legados;
III. Descrever a dupla posição das teorias psicológicas que ou bem posicionam a subjetividade no âmbito totalmente do singular, recaindo em um relativismo e subjetivismo extremo, ou em uma objetivação da subjetividade, na qual o psiquismo é tomado em sua empiria como constituído de leis gerais;
IV. Analisar criticamente a pioneira tentativa da perspectiva existencial-humanista de se estabelecer em um âmbito não metafísico, opondo-se ao determinismo e mecanicismo do psiquismo, mostrando como ela acaba recaindo naquilo que ela mesma criticou;
V. Apresentar a posição critica de Husserl ao eu substancializado e dicotomização da totalidade na estrutura sujeito e objeto tal como assumidos pela Psicologia Moderna;
VI. Buscar na ontologia heideggeriana elementos para se pensar em uma psicologia sem psiquismo;
VII. Elaborar uma proposta clínica a partir da fenomenologia-hermenêutica, que responda ao problema da cisão ser e aparência das psicoterapias e da substancialidade do eu que estão presentes na maioria das teorias psicológicas e psicoterapêuticas.

Justificativa:

É muito comum encontrar em meio aos profissionais de psicologia, sejam docentes, pesquisadores e mesmo clínicos indagações acerca do que é Psicologia fenomenológico-existencial. Muitos acreditam que por se tratar de algo relacionado à filosofia torna-se inviável qualquer atuação que tenha como pano de fundo tal perspectiva. Alegam muitas vezes, que pelo fato de não haver um objeto definido, toda e qualquer atuação fica perdida na abstração. Outros apontam para uma contradição, por acreditarem que a atuação do psicólogo é regida pela razão técnica, logo a critica de Heidegger a técnica tornaria este modo de proceder contraditório em si mesmo. Além destas indagações, há os que confundem a perspectiva fenomenológico-existencial com a existencial-humanista. Acreditam e até defendem muitas vezes que se trata da mesma fundamentação. Este trabalho justifica-se por pretender trazer a discussão tais equívocos e, então, apontar para a possibilidade de apresentar uma clínica psicológica a partir dos pressupostos da filosofia da existência.

A elaboração de psicologias científicas ocorreu a partir da filosofia da subjetividade, considerando as categorias da metafísica acerca da verdade representativa, da dicotomia homem-mundo e da essência universal e atemporal. A crise que ocorre no interior das filosofias da subjetividade a partir do esvaziamento das categorias da metafísica, acabou por levantar um questionamento acerca das teorias em psicologia. Na medida em que as teorias das psicologias modernas também tomaram o psiquismo como substância essencial, atemporal e em dicotomia com o mundo, tornando-se uma verdadeira egologia. Tanto a psicanálise quanto o behaviorismo partem de teorias que mapeiam a subjetividade, encontrando assim os elementos psíquicos que a compõem bem como sua lógica de funcionamento. Cabe ao especialista psi dominá-la, e assim saberá como fazer para adaptar o homem ou reduzir suas tensões. Ainda, a terceira força (existencial-humanista) em psicologia, mesmo pretendendo-se crítica com relação aos pressupostos modernos da filosofia da subjetividade, continuam mantendo o pressuposto metafísico de sujeito nuclear, mesmo que o denominando “pessoa” e a dicotomia homem – mundo, perpetuando consequentemente alguns dos paradigmas que pretendia combater.

O especialista psi acaba por construir um modelo teórico seja dedutivo ou empírico que retrata todo o funcionamento psíquico nas suas referências de normalidade e desvio. A partir destas elaborações complexas constroem teorias e técnicas em psicoterapia, que vão garantir não só o domínio do funcionamento psíquico, mas também o manejo clínico para obtenção de resultados “positivos”. E é nesta construção mirabolante que a psicologia perde completamente o contato com os fenômenos, caindo, consequentemente, sob a suspeita de não ser senão uma concepção dogmática.

O modelo de subjetividade bem como o predomínio do pensamento técnico-calculante das psicoterapias modernas, conduziram a falência e a dispersão teórica das psicologias. Tornando-se urgente elaborar uma proposta em psicologia que não se estabeleça a partir das pressuposições de uma subjetividade determinada espaço-temporalmente, portanto, substancializada e de um psiquismo dicotomizado em ser e aparência, interioridade e exterioridade, autenticidade e inautenticidade, dentre outros.

A fenomenologia de Husserl luta incessantemente contra o logicismo das teorias como o empiricismo do positivismo. Na psicologia estas duas vertentes vão ser encontradas, respectivamente, na Psicanálise e no Behaviorismo. A primeira elabora uma complexa teoria acerca do psiquismo humano, no entanto, torna-se incapaz de fundamentar os seus pressupostos. Já as psicologias científicas acabam por reduzir o homem a uma máquina orgânica sem nenhuma dimensão transcendente. Ocorre que se tem uma psicologia científica, que empiricamente confirma suas verdades, mas que se configura em uma absoluta redução da existência que acaba por entificá-la.

Em conclusão, ocorre um verdadeiro cepticismo oriundo da falência das duas vertentes imediatas: a psicanálise e o behaviorismo. Há então uma terceira vertente, que se pretende humanista. Esta se estrutura em uma franca oposição com relação às duas primeiras, no entanto, na tentativa de não recair nem na redução do behaviorismo nem na complexidade psíquica edificada pela psicanálise, acaba por utilizar um vocabulário há algo imediatamente compreensível e simplista. Husserl refere-se a este modo de construção do saber como carente de rigor, já que a terminologia torna-se um tanto quanto indefinida, que pretendendo dizer tudo, acaba por não dizer nada.

A tese de Husserl é que a psicologia tradicional procurava trabalhar, incessantemente, com o conceito de alma: suas disposições e seus afetos. E que partindo deste apriori, acabava por desconsiderar totalmente a natureza dos fenômenos psíquicos. A psicologia moderna mantém-se nesta mesma posição, apenas substituindo a denominação alma por conceitos tais como subjetividade, atividade subjetiva, eu, self, personalidade entre outros, mantendo-se no naturalismo toma o psiquismo como fenômeno natural e como tal tem sempre um porquê de seu acontecer.

Husserl pretende remover as falhas da psicologia e elevá-la ao nível científico “mais alto” para assim ampliar extraordinariamente seu campo de trabalho. Com isto abandona-se a idéia que o Eu ou a consciência é dado a priori a partir de um aparato psíquico ou uma estrutura psicofísica e passa-se a tomar o eu como uma unidade produzida que sintetiza incessantemente vivências, ou seja, o Eu vivencial é constituído por uma pluralidade de vivências. Pretende então sair da visada própria da ciência e tomar uma atitude antinatural junto aos fenômenos.

Uma psicologia fenomenológica acaba por abandonar a idéia de um EU que tem determinações e sentidos dados a priori, ou seja, em psiquismo tal como posto pela psicologia moderna e assumir o Eu como uma pluralidade de vivências.

Em síntese, a psicologia clínica moderna herdou da metafísica a crença da dicotomia entre ser e aparência, homem e mundo e partindo daí elaborou estratégias psicoterápicas que abririam acesso ao ser essencial e atemporal do homem. Estes pressupostos emergiram como um problema incontornável, pela questão que se impõe: como acessar o em si a partir de uma aparência que esconde o ser puro? Cabe, então, buscar outras bases que respondam à questão. Quem sabe de um estudo que se deslocando da substancialidade do eu e de sua dicotomização, assuma a questão pela via dos modos de ser do homem, retornando assim à ligação originária do homem com o mundo. E assim, abrir um espaço de reflexão, para poder propor uma clínica psicológica com bases ontológico-existenciais, nas quais cabe a questão que foi totalmente esquecida pelas psicologias fundamentadas na metafísica: em que medida é possível uma psicologia para um ente dotado de caráter de poder-ser, ou seja, para um ente desprovido de algo assim como o psiquismo?

Metodologia:

A partir da leitura detalhada de algumas obras de Kierkegaard, Husserl, Heidegger e Sartre, bem como da literatura que versa sobre as psicologias modernas construir uma explanação de uma psicologia fenomenológica e uma clínica existencial.

I. Leitura/releitura e estudos dos textos de Kierkegaard, Husserl, Heidegger e Sartre que tratam dos temas: psicologia e subjetividade.
II. Ampla pesquisa bibliográfica e leitura crítica de bibliografia secundária que já contemple as elaborações de uma clínica psicológica fundamentada na ontologia-existencial.
III. Elaboração de um texto próprio sob a supervisão do orientador, do qual resultará a monografia.

Leituras Previstas:

I. KIERKEGAARD. S. A crise e uma crise na vida de uma atriz.
 

BIBLIOGRAFIA

 

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