Técnicas do Psicodrama aplicadas à Ludoterapia na Abordagem Fenomenológico-Existencial

 

 

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa*

 

PEQUENO HISTÓRICO DE JACOB LEVY MORENO E A PROPOSTA DO PSICODRAMA

O berço de Jacob L. Moreno foi uma família de origem judaica da Península Ibérica. Nasceu em Bucareste, Romênia, no dia 20 de maio, não havendo, portanto, consenso na literatura sobre o ano, variando de 1889, 1890 e 1892.

Contudo, havia para Moreno uma outra visão de seu nascimento – seu nascimento psicodramático. Ocorrera em um navio sem bandeira que rumava para um porto da Romênia.

Aos 4 anos imigrou para Viena onde viveu sua infância, adolescência e sua formação acadêmica em medicina com especialização em psiquiatria. Foi também palco de seus primeiros ensaios psicodramáticos. O primeiro ato psicodramático particular ocorreu aos 5 anos, quando, liderando a gurizada, propõe que todos estivessem no céu e ele seria Deus, tendo a sua volta os anjos. A cena foi montada com várias cadeiras empilhadas umas sobre as outras, sobre uma mesa, e este seria o lugar de Deus, que de lá do alto voaria. O desfecho da cena se deu com a fratura do braço direito do protagonista. O faz-de-conta que faz parte do mundo virtual, vivenciado na ação, pôde promover à criança Moreno a constatação de seus limites e possibilidades, em seu mundo do real, onde se encontra concretamente inserido.

Estudioso de mitologia e grande conhecedor das antigas tradições religiosas da idade média, Moreno escolhia desvelar- se ao mundo recorrendo ao simbólico, que muitas vezes é por onde se percorre o trabalho terapêutico na ludoterapia. Tanto na mitologia, o nascimento dos príncipes era na maioria das vezes, lançados ao mar, e aureolados por grande magia, como nas antigas civilizações que glorificavam seus heróis, envolvendo os em lendas. Neste mundo poético e religioso, a travessia do mar sugere que o homem, ao nascer, está lançado às contingências da vida, onde alguns poderão escolher a paixão e a emoção em detrimento da razão com a quebra do membro direito e a preservação da força do esquerdo.

Foi dentro de um contexto lúdico, dinâmico e apaixonado que Moreno traçou o projeto de sua existência.

Presenciou as duas Grandes Guerras, sofrendo, portanto, conseqüências de tal contingência histórica.

Assim como os principais expoentes existencialistas, vivenciou uma época conturbada cheio de questionamentos acerca de sua própria existência e da forma como a ciência explicava o fenômeno de ser. Desenvolveu suas idéias sob a influência da psicanálise e o marxismo, apesar de refutá-los, e dos moldes de uma ciência clássica e determinista.

Nos EUA teve uma ligação com o pragmatismo e o behaviorismo. Filosoficamente sua obra sofreu influência do Existencialismo e também é bastante presente a influência das idéias de um movimento judaico do século XVIII, chamado Hassidismo.

Buscava compreender a existência humana na sua concretude e inserida em seu contexto, não podendo, assim, ser vista como objeto, essencialmente opunha-se a uma filosofia pautada no racional.

A proposta teórica de Moreno parte do pressuposto que o homem é um ser espontâneo por natureza (a priori), capaz de atuar criativamente diante das contingências da vida. Portanto, o núcleo fundamental teórico do Psicodrama é a criatividade e a espontaneidade. Tem como foco central “o homem em relação”, onde este é visto como um ser social porque nasce em sociedade e precisa do outro para reconhecer-se como tal, desenvolver sua singularidade e assim poder sobreviver.

Desenvolveu seu projeto de saúde mental preventiva através da utilização de técnicas psicodramáticas que objetivam estimular a ação criativa e espontânea nas relações interpessoais dentro de pequenos grupos, daí multiplicando-se até atingir a humanidade.

As primeiras constatações sobre suas idéias se deram com grupos de crianças nos parques de Viena. Moreno, através de histórias que contava, estimulava as crianças a vivenciarem ativamente as dramatizações e a escolherem o curso e o desfecho do conto. Tanto suas idéias, como suas escolhas eram respeitadas, permitindo então que a imaginação e a criatividade fluíssem. O lúdico ganha nova dimensão. O jogo, o brincar é visto como mais uma possibilidade de estímulo para a manutenção ou também para a restauração da saúde mental do homem. Moreno atuava como agente facilitador de auto conhecimento, favorecendo a ampliação do leque de possibilidades do grupo, dentro de suas próprias demandas existenciais, através da ação dramática.

“Psicodrama pode ser definido como a vivência que explora a ‘verdade’ através de métodos dramáticos. Trata de relações interpessoais e de mundos particulares.”
(J. L. Moreno)

Contendo um rico repertório de recursos técnicos, o psicodrama pode ser aplicado diversificadamente, como nas escolas, nas empresas, nas instituições religiosas e até nas militares, dependendo do objetivo que se queria alcançar, que pode ser de integração, de desenvolvimento das relações interpessoais, formação de equipes e autoconhecimento, como tantos outros.

Alguns pontos da teoria moreniana devem ser conhecidos para que suas técnicas possam ser utilizadas de forma correta e mais segura. Seus pontos são o método psicodramático e os momentos que constituem a vivência ou ato psicodramático. O Método psicodramático utiliza-se de cinco instrumentos: cenário, protagonista, ego auxiliar, diretor e público.

O Palco ou Cenário constitui o campo terapêutico do psicodrama ou sociodrama. É onde se constrói o contexto dramático e se opera com técnicas especiais. É o lugar da ação psicodramática onde o sujeito ou o grupo, vão ao encontro do desvelamento dos significados de suas vivências ampliando assim seu nível de consciência. Protagonista, ator ou sujeito é o nome dado à pessoa cuja vida, ou aspecto dela, está sendo investigada através de uma vivência psicodramática. Emerge tanto escolhido pelo grupo como também pelo terapeuta, tendo a aprovação do grupo.

O grupo também pode ocupar o lugar de protagonista, sendo que o tema será a relação grupal ou questões que aflijam todo o grupo.

O  psicoterapeuta é chamado de diretor e vai coordenar toda a sessão psicodramática, tanto nos seus aspectos verbais, dramáticos como também psicológicos. O ego-auxiliar atua como ator, e representa papéis, é o interlocutor do protagonista. Público são os demais participantes da sessão psicodramática. Tem a função de dar respaldo afetivo ao protagonista.

Pode-se observar alguns momentos específicos na Ação psicodramática: o aquecimento,a dramatização e o compartilhar.

O Aquecimento consiste num conjunto de procedimentos que objetivam relaxar o grupo (incluindo o diretor), diminuindo o estado de tensão e ansiedade, facilitando assim a interação grupal para a vivência dramática. Tem importância primordial no processo.

É o momento em que emerge o protagonista e este se prepara para dramatizar. Auxiliado pelo diretor vai escolher a cena a ser dramatizada, construindo o contexto dramático, escolha de personagens que irão intervir1. A dramatização é a etapa em que ocorre a ação dramática propriamente dita. O protagonista devidamente aquecido começa a representar, no contexto dramático. É constituído pela realidade dramática no “como se”, pelo tempo fenomenológico, subjetivo, virtual construído sobre o espaço concreto devidamente marcado.

O processo terapêutico se dá em muitas situações nas quais o diretor realiza suas intervenções terapêuticas, objetivando alcançar o insight dramático ou catarse de integração, facilitando o elucidamento e encaminhamento ou resolução do conflito exposto.

Após o desfecho da dramatização, volta-se para o grupo a fim de elaborar todos os aspectos do processo vivenciado, não só pelo protagonista como também por todos os membros do grupo. É o momento em que as vivências e as lembranças de cada um são expostas e elaboradas. Tanto protagonista como público são cúmplices de uma vivência que a partir deste compartilhar pertence não só ao protagonista que se expôs ao vivenciá-la, mas a todos, que de formas diferentes foram mobilizados como um todo; o diretor permanece atento, acompanhando e intervindo, quando necessário, a todo esse processo vivencial do grupo. Este momento no psicodrama é chamado de Shering ou compartilhar, sem o qual o processo psicodramático não se completa.

 

AS TÉCNICAS DO PSICODRAMA APLICADAS À LUDOTERAPIA

A práxis psicoterapêutica na abordagem Fenomenalógico-Existencial tem como ferramenta básica de trabalho a linguagem, que é por onde todo o processo terapêutico vai se articular. Entretanto, o psicólogo que trilha este caminho fenomenológico e iluminado pelo existencialismo pode dispor de recursos técnicos advindos de outras abordagens da psicologia, desde que tais recursos não se oponham aos princípios teórico-filosóficos que o fundamentam.

O Psicodrama é uma proposta teórica que possui um rico repertório de técnicas e apresenta pontos em comum com os conceitos existencialistas.

A práxis psicodramática é basicamente vivencial, levando o sujeito à ação, saindo do mundo da experiência, onde se dá a dicotomia sujeito-objeto, para um mergulho no mundo vivencial, onde a relação se faz única entre EU e TU. Assim, a possibilidade da utilização das técnicas do Psicodrama aplicadas à Ludoterapia poderá contribuir otimizando o que se tem de mais rico e abundante no processo terapêutico com crianças, que é o brincar, o jogo.

O convite à ação, a partir de dramatizações de histórias clássicas, inventadas ou situações do seu cotidiano, possibilitará ao psicólogo detectar e intervir nas vivências inautênticas que a criança apresenta, adotando a postura de facilitador na busca da autenticidade, onde a linguagem também é expressada pela ação e o sentimento pelo entendimento se articula no processo vivido.

Outro aspecto importante que deve ser considerado é a alternativa que se dá à criança de explorar formas diferentes de experimentar situações de seu cotidiano estimulando a utilização de todos os recursos disponíveis em seu meio, aumentando assim seu leque de possibilidades e reconhecendo seu próprio horizonte.

Portanto, esta proposta deve ser vista como mais um recurso no processo de ludoterapia que objetiva facilitar a revelação do ser, que vai através da ação dramática estimular a expressividade e criatividade da criança na sua forma de perceber e relacionar-se com o mundo.

No desenrolar de uma vivência em que se utilizam técnicas psicodramáticas pode-se identificar alguns conceitos teóricos comuns à teoria moreniana e à fenomenológico-existencial.

Com relação à ação, tanto Moreno quanto Sartre posicionaram- se da seguinte forma: o homem se faz na ação. A partir desta constatação, Moreno formula a teoria da ação, na qual enfatiza o sentido da ação pela criação e pela espontaneidade com que, uma vez correspondendo aos verdadeiros anseios do sujeito, este possivelmente vislumbrará melhores condições do existir.

Para Sartre, o existencialismo é a filosofia da ação. “É na ação, no existir que se torna possível compreender a vivência humana. O homem não se constitui em potência mas simem ato.” (Aristóteles).  A psicologia fenomenológico-existencial parte da crença de que o homem só toma consciência de si próprio a partir da relação que estabelece com o
outro, da intersubjetividade. O foco central da obra de Moreno é o “Homem em relação”, e este é um ser social que nasce em sociedade e precisa do outro para sobreviver e se reconhecer enquanto homem social.

M. Merleau Ponty afirma:

“O sentido do outro não tem o mesmo sentido para ele e para mim. Para ele são situações vividas, para mim situações apresentadas”.

Husserl descreve o método fenomenológico em dois movimentos, e ao primeiro denominou captação intuitiva, que é o primeiro sentimento que se dá na relação, antes de qualquer pensamento ou reflexão, enquanto que Moreno definiu tele como a capacidade de se perceber de forma objetiva o que ocorre nas situações e o que se passa entre as pessoas. Acrescenta também que é a percepção interna mútua entre dois indivíduos.

A criança, ao brincar, expressa seus sentimentos e o entendimento que dá às situações vivenciadas. É a partir dessa articulação que o terapeuta poderá avaliar se existe ou não harmonia entre as condições do existir, propostas por Heidegger.

O homem é livre para fazer suas escolhas, portanto é responsável pela construção de sua própria existência. E, à medida que ousa vivenciar novas possibilidades, amplia seu campo de atuação no mundo.Para Moreno, Encontro

“exprime que duas pessoas não somente estão juntas, mas que elas se vivem, se apreendem,  cada uma com todo o seu ser. Significa estar junto, unir se estar em contato corporal, ver e observar, tocar, sentirpartilhar e amar, compreender se,conhecer intuitivamente através do silêncio ou do movimento, da palavra ou dogesto, tornar-se ‘um’”.

Na teoria Moreniana, o termo Criatividade é indissociável da espontaneidade. A espontaneidade é um fator que permite ao potencial criativo atualizar-se e manifestar-se. Criatividade é a possibilidade de modificar ou estabelecer uma nova situação.

A revolução criadora que Moreno propõe é a de recuperação da espontaneidade e da criatividade através do rompimento com padrões de comportamentos estereotipados, com valores e formas de participação na vida social que acarretam a automatização do ser humano e o obscurecimento de sua consciência.

Na teoria de Moreno, Espontaneidade é definida como a capacidade de agir de modo “adequado” diante de situações novas, criando uma resposta inédita ou renovadora ou, ainda, transformadora de situações preestabelecidas.

Para Moreno, o 1º ato espontâneo do homem é o de nascer. Moreno formula a hipótese de que a ansiedade é função da espontaneidade, onde quanto maior for o nível de ansiedade apresentado na conduta do sujeito, menor será a presença de espontaneidade.

Num sentido mais amplo, a espontaneidade faz parte de um autêntico encontro existencial do ser.

 

TÉCNICAS BÁSICAS DO PSICODRAMA

As Técnicas Básicas do Psicodrama fundamentam-se no que Moreno chamou de Matriz de Identidade, que está relacionada com o nascimento e desenvolvimento da criança.

1ª Fase:
A criança ainda não se distingue do mundo que a circunda, é totalmente dependente da mãe para sobreviver.

Técnica do Duplo

Descrição:
O terapeuta se expressa, clarificando para a criança os sentimentos que naquele momento ela não consegue expressar ou até mesmo identificar.

O terapeuta deve posicionar-se ao lado do cliente, e com a mão em seu ombro usa o pronome pessoal EU, ao fazer a intervenção clarificadora de vivência emocional. Deve adotar a postura corporal, o tom de voz, a forma peculiar de o cliente falar e se expressar, objetivando expressar ao máximo a sintonia emocional.

O DUPLO pode fazer perguntas, questionar sobre tais sentimentos e idéias a fim de que ocorra uma identificação por parte do cliente com o “seu duplo”.

Objetivos:

 Quando usar:
Esta técnica pode ser utilizada tanto individualmente como em grupo, e em qualquer etapa do processo terapêutico.

2ª Fase:
Nesta fase a criança começa a se separar do mundo e também a distinguir os objetos e pessoas. Estranha-se ao ver sua imagem refletida no espelho. Experimenta então reconhecer-se fazendo caretas...

Técnica do Espelho
Descrição:
O terapeuta toma o papel do cliente e atua, e este o observa fora da cena. A performance do terapeuta é a mesma do cliente no falar e na expressão. Logo a seguir, averigua-se com o cliente como este se sentiu ao ver como atua no mundo ou naquela situação.

Pode-se também atuar junto com o cliente, tendo atitudes ou fazendo gestos, ou até mesmo conduzindo-se da mesma forma nas situações, sem que seja revelada para o cliente a intenção do terapeuta.

Outra forma de se começar a usar esta técnica é apenas deflagrando expressões como: balançar de pé, pés contidos e muito juntos, mãos fechadas, testa franzida, forma de sentar-se, bocejos constantes etc., fazendo-se a seguinte pergunta: se este... falasse o que você imagina que estaria dizendo? ou o que você imagina que ele teria a lhe dizer ?

Outra possibilidade é utilizar as mesmas estratégias que a criança usa em determinadas situações: para se sair bem, no jogo de memória, por exemplo, levanta rapidamente a peça sem pegá-la realmente, escolhendo outra. Na eminência da perda, estraga o jogo, desmanchando-o ou arranjando qualquer justificativa para parar.

Objetivo:

Quando usar:
É necessário que o vínculo entre cliente e terapeuta já esteja estabelecido e esta técnica deve ser seguida de intervenções compreensivas. Pode ocorrer que o cliente se irrite sentindo-se perseguido.

Pode ser usado individualmente e em grupo.

3ª Fase:
Reconhecimento do outro É o momento em que se começa a jogar com esses objetos e pessoas e a aprender a desempenhar um papel com eles. No desenvolvimento desse papel, há um momento em que a criança consegue inverter o papel, ou seja, brinca com a boneca como sendo mãe desta e a trata como sua filha. Primeiro joga com objetos e depois inverte papéis com pessoas, como quando pega a chupeta ou a mamadeira e oferece à mãe; e mostra-se bastante feliz quando esta aceita.

Técnica da Inversão de Papéis

Descrição:
Esta técnica consiste em a criança (ou protagonista) tomar o papel do outro e este tomar  
seu papel. Desta forma só há uma verdadeira inversão de papéis quando as duas pessoas
estão presentes.

Objetivos:

Quando usar:
Pode ser usado tanto no processo de terapia individual como também no de grupo.

Outras técnicas:
O Psicodrama utiliza-se de vários recursos que poderão permitir à criança um maior desenvolvimento de suas capacidades, principalmente expressando-se através da ação de forma espontânea e criativa.

Solilóquio

Descrição:
Consiste em se pedir à criança que pense alto (como se fosse possível haver um altofalante em sua cabeça), diante de situações que possa estar dramatizando ou descrevendo. É um “monólogo em situação”. A criança reflete em voz alta e associa livremente em torno da ação ou da representação dramática, onde ele se enriquece de pensamentos e sentimentos que não expressou no diálogo ou durante a dramatização.

Quando usar:
Esta técnica é mais indicada para crianças mais velhas.

Maximização

Descrição:
A proposta é pedir ao cliente que maximize um gesto, uma forma verbal, uma postura corporal que se apresente durante a expressão de seu conflito. Exemplo de um caso:
Menina de 9 anos apresentava movimento estereotipado de enrolar um chumaço do seu cabelo com os dedos e levá-lo ao nariz e logo em seguida à boca, de forma muito rápida. Numa dada sessão, ao constatar que havia sido deflagrada, promete não fazer mais. Ao contrário, é pedido que faça bastante vezes, e o mais rápido que puder.

A princípio fica desconfiada com o pedido, já que todos a recriminam pelo fato, mas logo depois atende. Faz repetidas vezes, velozmente. Quando é perguntado o que vem à sua cabeça, alguma lembrança, fica em silêncio e depois de algum tempo, lembra-se de suas chupetas que foi obrigada a largar...

Concretização

Descrição:
Consiste na materialização de objetos inanimados, emoções e conflitos, partes corporais e outros através de imagens, movimentos ou falas dramáticas.

O terapeuta pede que o cliente lhe mostre concretamente o que estas coisas fazem com ele e como fazem. Em grupo, os outros membros fazem o papel da concretização, na individual pede-se que o cliente tome o papel do concretizado e escolha algo para ficar em seu lugar simbolicamente.

Objetivos desta técnica:

Trabalho com Imagens ou Esculturas

Descrição:
Consiste na produção de uma escultura ou imagem pela criança com qualquer material apropriado e disponível tendo como objetivo simbolizar o sentimento desencadeado pela situação vivida através da escultura.

À partir dela, pode-se trabalhar de várias formas: invertendo papéis, fazendo solilóquio etc.. Pode ser usado como forma de facilitar o amadurecimento de sentimentos ou situações que estão confusos ou difíceis para a criança. Pode ser usada também como fechamento de uma sessão onde foram trabalhados conteúdos bastante significativos para o cliente.

Quando usar:
Esta técnica é mais apropriada para crianças mais velhas. Exemplo de caso: Menino com 10 anos em regime de internação semanal em clínica psiquiátrica. Apresentava problemas neurológicos, que acarretavam distúrbios de linguagem e aprendizagem. Sua expressão verbal era de difícil compreensão. De um modo geral, era cooperativo, amistoso, não apresentando comportamentos agressivos desde de que não fosse estimulado agressivamente.

O trabalho desenvolvido no lugar de onde esta sessão foi retirada era de Socialização, e o espaço reservado para esses encontros era o quintal da clínica, local bastante agradável e arborizado.

Neste encontro todos os membros estavam presentes, em número de 8 meninos. Foi aproveitado pelos terapeutas o tema trazido pelo grupo, que era a possibilidade e a concretização de alguns freqüentarem a escola tradicional.

Pr. era um dos meninos que não vislumbrava tal possibilidade naquele momento.

Como seria a nova escola, o uniforme, material, os novos amigos, o que gostavam e o que não gostavam da situação foram questões levantadas, além de outras.

Pr. quase não se posicionou, apenas fazendo, vez ou outra, em virtude de sua desavença com o colega por causa de um brinquedo quebrado.

Pediu-se ao grupo que cada um, com os recursos de que dispúnhamos (caixa de sucata), montasse uma imagem de sua nova escola.

Pr. descreve sua obra como uma árvore que nasceu caída e por isso não daria frutos, e aí não servia para nada. Ao ser questionado pelos outros colegas sobre a escola, onde ela estava, respondeu que depois que arrancassem a árvore, iriam construir uma grande escola...

Átomo Social

Descrição:
Para Moreno o átomo social é o núcleo de todos os indivíduos com quem uma pessoa está relacionada emocionalmente ou que, ao mesmo tempo, estão relacionadas com ela.

Pede-se que a criança escolha um membro do grupo ou, caso seja individual, algo no ambiente que a simbolize e posicione no meio do palco.

Tendo sua posição como referência, deve-se escolher outros membros do grupo ou objetos que simbolizem os demais membros de sua família ou contexto em questão, localizando-os espacialmente de acordo com a distância afetiva que sente em relação a eles. Após colocadas todas as pessoas, animais ou coisas, pedir que à criança substitua a pessoa ou objeto que a simboliza e olhe em volta. Pedir que fale do sentimento ao se ver com estas pessoas à sua volta, o que sente particularmente por cada uma e imagine o que cada uma destas sente por ela e o que diria sobre ela se estivesse presente.

Caso a criança já consiga fazer a inversão de papéis, fazê-lo com todos os membros.
Para se manter o aquecimento da vivência o terapeuta deve fazer perguntas como se estivesse conversando com aquelas pessoas sobre a criança. Ao final pedir que a criança se afaste da cena montada e, junto com ela, buscar os sentimentos e pensamentos que surgem diante do que é vista.

Para facilitar o engajamento da criança a este processo, o terapeuta pode utilizar consignas de brincadeiras como “Mamãe Mandou”, onde a distância entre a criança e quem ela traz pode ser feita através de “passos” (– quantos passos? – Dez passos de formiguinha, – Cinco passos de elefante...).

Objetivos:

Imagem da Família ou Átomo Sócio-Familiar

Descrição:
Pedir à criança que construa uma imagem de sua família com o material disponível. Ao final da construção o terapeuta deve explorar os aspectos da imagem como: o nome da imagem, como foi construir, o que levou a escolhê-la, se cada membro está definido, o que pensa sobre esta imagem, o que gostaria de dizer a ela, o que gostaria de mudar etc..

Objetivo:

O Outro me Apresenta

Descrição:
Pedir à criança que tome o lugar de uma pessoa que a conheça bem ou que esteja presente em suas questões, podendo também ser objetos, brinquedos ou animais seus. Neste papel, o terapeuta pede que este se apresente e fale o que sabe e o que sente sobre a criança. Após finalizar a entrevista o terapeuta deve despedir-se da pessoa, agradecendo sua presença e então voltar a chamar a criança pelo seu nome iniciando assim a exploração da vivência com ela.

Objetivo:

Fotografia

Descrição:
Consiste em trabalhar com fotos que a criança traga espontaneamente ou por solicitação do terapeuta. A criança falará da forma que quiser sobre as fotos, sendo estimulada a contar as situações e o sentimento vivido em cada uma. Pode-se pedir que escolha a que mais lhe agrada ou a que menos agrada e explorar o critério utilizado para a escolha. Outra alternativa é pedir que ela escolha uma foto significativa para ela e convidá-la então a montar a cena, ou fazer solilóquio da situação: o que você acha que estava pensando ou sentindo nesta hora? E as outras pessoas? E agora? etc..

Objetivo:

Jogo do Fantoche

Descrição:
Consiste em um diálogo entre dois personagens antagônicos, produto dos conflitos ou situações vivenciadas pela criança. A criança deve ter claro aquilo que está evitando, e o terapeuta então marcará com imagens de fantoches escolhidas pela criança o que encarnará a situação temida e a outra, a situação desejada. A criança travará uma conversa entre as duas situações, ou com uma das situações de cada vez, e o terapeuta entrevistará tais personagens assim como a criança diante da situação vivenciada.

Objetivo:

Interpolação de Resistências

Descrição:
Consiste em montar a cena modificando radicalmente a atuação dos papéis complementares. Exemplo: uma criança constantemente se queixa da situação repetitiva e monótona na rotina familiar. A modificação do papel complementar é a oportunidade para que ela experencie sua capacidade para perceber, bem como para transformar, o que é decorrente de suas próprias atitudes, na interrelação da qual se queixa. É bastante utilizada, porque são freqüentes as brincadeiras que propiciam que o terapeuta faça o papel complementar.

Objetivo:

Psicograma
(REPRESENTAÇÃO DO PSIQUISMO ATRAVÉS DE IMAGENS GRÁFICAS – LUIZ DE MORAES A. SILVA FILHO)

Descrição:
Consiste na utilização do desenho combinado a outros recursos psicodramáticos em sessões de ludoterapia. É uma dramatização realizada com desenhos.

É uma técnica bastante aceita pois associa-se ao desenho, que é uma atividade corriqueira e fácil para a criança.

Objetivos:

Torna-se importante chamar a atenção para algumas considerações, partindo do ponto de vista de que a técnica deve ser encarada e conseqüentemente usada como um recurso e não como fim.

Um dos alicerces da relação terapêutica é o respeito pelo limite do outro, portanto, a criança ou o grupo devem ser convidados à ação e só a partir da aceitação por parte destes é que o trabalho deve ser iniciado. E para que isso ocorra, tanto cliente como terapeuta devem estar “aquecidos” para iniciarem a ação dramática, podendo assim caminharem juntos. É necessário que o terapeuta caminhe junto por toda a trajetória da sessão para que possa, quando necessário e possível, intervir, fazendo então, sucessivas reduções fenomenológicas (épochè) e assim chegar ao sentido que o cliente atribui a sua vivência.

Por último, o manejo adequado da utilização do tempo, por parte do terapeuta, é extremamente importante, impedindo assim que situações mobilizadoras não possam ser devidamente manejadas em função do limitado tempo que se dispõe para tal vivência.

 

NOTA

1  É o mesmo processo e tem a mesma importância quando ocorre apenas com uma pessoa.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Wilson Castelo. Moreno: encontro existencial com as psicoterapias. São Paulo: Ágora, 1990.

BUSTOS, Dalmiro M. O Psicodrama. São Paulo: Summus, 1982.

FONSECA, José S. Filho. Psicodrama da loucura. São Paulo: Ágora, 1980.

GONÇALVES, Camila Sales. Lições de Psicodrama. São Paulo: Ágora, 1988.

MORENO, J. Levy. Quem sobreviverá? Goiás: Dimensão, 1992.

______. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1991.

______. Fundamentos do Psicodrama. São Paulo: Summus,1983.

______. Psicoterapia de grupo e Psicodrama. Rio de Janeiro: Mestre Jou, 1974.

REVISTA DA SOCIEDADE DE PSICODRAMA DE SP. SOPSP, Ano IV, agosto 1992, nº 4. SCHUTZENBERGER.

Anne Ancelin. O teatro da vida - Psicodrama. São Paulo: Duas Cidades, 1970.

SOEIRO, Alfredo Correa. Psicodrama e Psicoterapia. São Paulo: Ágora, 1995.

WILLIANS, Antony. Psicodrama Estratégico. São Paulo: Ágora, 1994.

 

* Maria Bernardet Medeiros Fernandes Lessa é Psicoterapeuta em clínica particular na abordagem Fenomenológico- Existencial, membro fundadora do IFEN, tem formação em Psicodrama pelo CPRJFEBRAP, consultora autônoma em Recursos Humanos e professora universitária