Um estudo de caso: do psicodiagnóstico à psicoterapia infantil: Ludoterapia
Claudia Guimarães*
As sessões terapêuticas reunidas neste artigo representam os passos fundamentais da atuação do psicólogo fenomenólogo-existencial. São apenas uma pequena parte do que ocorreu no setting terapêutico, contudo a explanação se dá no sentido de concentrar os temas centrais, na visão da fenomenologia existencial na psicoterapia infantil.
A fenomenologia como método neste trabalho aborda a dinâmica da criança tal como se apresenta, possibilitando como ponto de partida a compreensão da vivência daquele ser que se revela imediatamente na relação.
Para encaminhar-se na direção do ser particular e concreto desta criança, fez-se importante ir de encontro a sua totalidade como ser e assim juntar todos os pedaços de sua experiência. Foi assim que teve início o trabalho de psicodiagnóstico de João. Neste trabalho, foram abordados os seguintes aspectos: inteligência, cognição, desenvolvimento psicomotor, dinâmica e estrutura familiar, relacionamento interpessoal, aspectos da personalidade e vivências afetivas e emocionais.
“O essencial não é aquilo que se fez do homem, mas aquilo que ele fez daquilo que fizeram dele”. Sartre
A HISTÓRIA DE JOÃO1
João chega ao consultório com a queixa de chupar e morder a língua até criar feridas, auto-mutilação, nervosismo e agressividade. O psicodiagnóstico foi solicitado pelo
neuropediatra com o parecer de transtorno hipercinético de conduta, tiques e fobia.
João, segundo relato da mãe, foi criado muito preso. Queixa-se ainda de que João apanha muito na rua e apresenta um comportamento “estranho”, isto é, afeminado. A mãe revela conceitos rígidos, fazendo uma separação entre “coisas de mulher e coisas de homem”. A figura materna reage a esta situação de forma agressiva e o pai, de maneira omissa.
O PSICODIAGNÓSTICO
1.DADOS DE IDENTIFICAÇÃO:
Nome: JOÃO
Idade: 6 anos
Escolaridade: C.A – Alfabetização
2.INSTRUMENTOS UTILIZADOS:
3. MOTIVO DA CONSULTA:
A partir de diagnóstico médico, a criança apresenta transtorno hipercinético. Os pais relatam comportamento agressivo e auto-mutilação.
4. SÍNTESE DIAGNÓSTICA:
João apresenta bom desempenho escolar, não revelando dificuldade nessa área. Sua idade cronológica apresenta-se compatível com a idade viso-motora.
Mostra dispersão, desatenção, apresentando dificuldade de concentração. Revela boa memória.
A dinâmica familiar revela-se desarmoniosa e com vínculos afetivos conflituosos. Demonstra uma estrutura de relação tensa e confusa, predominando a hostilidade, onde há acusações e desqualificações mútuas e diretas. Não há denominador comum sobre o controle das situações, gerando sofrimento e indefinição de papéis, principalmente da figura de autoridade.
A disciplina familiar se dá através da agressividade e da punição. João sente-se oprimido em relação à dinâmica familiar, respondendo de forma agressiva e através de comportamento egocêntrico, objetivando chamar a atenção. João revela dificuldade de respeitar as normas e a disciplina familiar.
Apresenta sentimento de rejeição e necessidade de proteção, estimando a aceitação da família. Demonstra conflito afetivo em relação à família, ora desejando a reestruturação, ora desejando a destruição da mesma. Quanto ao relacionamento interpessoal, este parece não ter sido prejudicado pelo aspecto emocional. João revela harmonia com os muitos amigos que mantém em geral. Em relação à área afetiva, João apresenta ansiedade, insegurança, agressividade e instabilidade emocional. Revela-se uma criança emocionalmente desestruturada. Frente às dificuldades e situações de conflito fica paralisado, não encontrando possibilidades para superálas. A partir de tanta tensão emocional, a criança somatiza e auto-mutila-se.
5. RESPOSTA AO MOTIVO DA CONSULTA:
Sua agitação, auto-mutilação e o comportamento agressivoparecem estar diretamente relacionados a uma resposta em relação à dinâmica familiar tensa e conflitiva.
6. CONCLUSÃO:
João apresentou-se como o paciente psicoterapêutico que foi facilmente identificado. Contudo, a família como um todo demonstra desestruturação emocional.
7. INDICAÇÃO:
Tendo em vista a instabilidade e perturbação emocional da criança e a desestruturação da dinâmica familiar, indica-se PSICOTERAPIA INFANTIL: LUDOTERAPIA e TERAPIA FAMILIAR.
Na devolução do laudo do psicodiagnóstico o casal concorda com o tratamento psicoterapêutico para João, contudo alegam dificuldade financeira para iniciarem a terapia familiar.
O PROCESSO PSICOTERAPÊUTICO – A LUDOTERAPIA
Sessão A
João chega ao consultório em sua primeira sessão de psicoterapia e escolhe.
J: Vamos jogar basquete.
T: Ok, vamos jogar basquete.
Revelava ansiedade, quando a terapeuta não acertava dizia: deixa que eu acerto para você.
T: Você quer jogar por mim.
J: É, você não acerta, deixa que eu acerto para você.1
T: Então você quer acertar por mim.
Depois decide brincar de pintura a dedo. João faz uma casa toda preta, depois um sol amarelo e uma mulher de vermelho.
T: Você gostaria de falar do seu desenho para mim?
J: Esta vai ser a minha casa no futuro.
T: Esta será a sua casa no futuro.
J: É, e essa daqui é a minha mãe bem velhinha de cabelos brancos.
T: Esta é a sua mãe no futuro.
J: É, ela está indo me visitar, mas só que eu não estou em casa.
Este desenho de João apresenta- se expansivo, não respeitando os limites da folha.
Neste relato, João parece possibilitar uma projeção do futuro, onde se vê com uma
vida independente da mãe.
Sessão B
Nesta sessão, João chega ao consultório extremamente agitado. Psicoterapeuta e cliente trabalham com pintura a dedo.
J: Vou desenhar os Power Rangers.
T: Ah, você vai desenhar os Power Rangers.
J: Vou, a que eu mais gosto é a de rosa.
Procura a tinta rosa e se dá conta de que não há esta cor na caixa.
J: Não tem tinta rosa.
T: É, não tem tinta rosa.
A terapeuta trabalha com João as suas possibilidades e a sua paralisação diante delas.
T: E agora?
J: Deixa para lá.
T: Você não vai mais desenhar porque não tem a tinta rosa?
J: Sei lá, vou desistir.
T: De que outras maneiras você poderia fazer o desenho ou então conseguir a tinta rosa?
J: Não sei.
Diante da sua dificuldade em enxergar outro modo de realizar o trabalho, a psicóloga amplia o seu leque de possibilidades.
T: Você já pensou que misturando as cores você conseguiria chegar à cor rosa ou então em usar outro material para fazer o que você quer?
J: Misturar as tintas?
T: Seria uma forma.
J: É, mas que cores?
T: Não sei, só tentando para ver. Você quer tentar?
J: Você tem certeza?
T: Não, não tenho, você quer experimentar?
J: Quero.
Então se diverte na mistura das cores, João e a terapeuta fazem várias tentativas e misturam as tintas. Até que na mistura do branco com o vermelho saiu a cor rosa.
J: Ah, tia Claudia, você é o máximo.
T: Eu não, você conseguiu o rosa com as misturas que você fez, eu só dei a idéia.
A terapeuta trabalha a responsabilidade de João pela sua própria construção, isto é, faz com que João reflita sobre ser autor do seu projeto, tornando ele mesmo consciente do leque de possibilidades à sua frente e dono de uma consciência intencional.
A terapeuta só o ajudou a ampliar esta consciência.
Sessão C
Hoje João decide jogar o jogo da memória. Então montam o tabuleiro.
J: Eu vou começar.
T: Você vai começar.
João começa e quando a terapeuta vai jogar João não a espera e começa a jogar. Na terceira vez, a terapeuta atua como o cliente, e não o espera.
J: Ah, tia Claudia espera, você não está me esperando terminar de jogar.
T: É, eu não estou esperando você jogar e você não me esperou jogar.
J: Então agora eu vou esperar você jogar e você me espera.
T: Você vai me esperar jogar e quer que eu espere você.
O objetivo da terapeuta com esta intervenção foi fazer com que João percebesse a sua maneira de atuar e se sentisse responsável por isso, bem como livre para atuar desde que consciente das suas possíveis conseqüências. Depois, João decide brincar com os carrinhos.
J: Esses carrinhos são meus e esses são os seus.
T: Esses são meus e esses são os seus.
J: Você vai estacionar os seus carrinhos aqui e vai sair com esse.
T: Você quer que eu estacione os meus carrinhos aqui e saia com este.
J: É, tem que ser assim.
T: Parece que tudo tem que ser do seu jeito. Você escolhe os meus carrinhos e diz o que eu devo fazer com eles. É assim também com os seus amiguinhos?
A partir da situação que se apresenta no consultório, a terapeuta investiga a maneira de João atuar fora do setting terapêutico, verificando em que outras situações isto ocorre. O objetivo é fazer com que João reflita sobre o seu modo de ser e as conseqüências que isto pode lhe trazer em suas relações interpessoais. Viabilizando o seu auto-conhecimento, tornar-se-á possível mais uma vez trabalhar a responsabilidade pelas suas próprias escolhas.
J: É, eu que começo nas brincadeiras e decido tudo, só não começo quando é pique-esconde, porque aí tem que contar e procurar.
T: Você começa nas brincadeiras e decide tudo, mas quando é pique-esconde que você tem que contar e procurar você não quer. E se os seus amiguinhos não aceitarem?
J: Aí eu saio da brincadeira.
T: Quando não é do seu jeito você sai da brincadeira.
J: É, eu falo que não quero mais brincar.
T: E então fica sem brincar com os seus amiguinhos.
Sessão D
Hoje João escolhe brincar de pega-varetas. Começa ganhando. J: Vou colocar um zero aqui para você.
T: Você vai colocar um zero para mim, mas o jogo ainda não acabou.
Logo depois, João mexe algumas varetas e passa a vez para a terapeuta. A psicóloga pega várias varetas, porém de pontos mais baixos.
J: Quantas varetas você tem?
T: Dez, e você?
J: Nove, desisto não quero mais jogar.
João mostra-se paralisado frente à primeira dificuldade. O jogo ainda não havia acabado, contudo a ansiedade de João o impede de chegar ao final do jogo.
T: Você não quer mais jogar porque eu estou com dez varetas e você com nove, só que o jogo ainda não acabou, por que não jogamos até o final, para ver quem vence?
J: Está bem.
O jogo continua e vale ressaltar que, embora a terapeuta tivesse mais varetas, João tinha mais pontos. João então joga até o final e depois conta os pontos com a terapeuta.
J: Tia Claudia eu ganhei.
T: É você ganhou, mas se não tivesse jogado até o fim e tivesse desistido no início, você
não saberia.
J: É verdade.
A ansiedade de João o impossibilita de vivenciar o tempo presente. João estava ansioso por viver o resultado do jogo, sem tentar chegar ao final do mesmo. Desta forma, a terapeuta o traz para a vivência do presente, mostrando que é na vivência do presente que João poderia agir e modificar o seu projeto. Além disso, a terapeuta trabalha a conscientização das possíveis perdas que vivencia quando se paralisa frente às dificuldades. Com isto, impulsiona João a arriscar-se em sua ação no mundo, ao invés de evitar a frustração ou evitação da mesma frente aos obstáculos.
Sessão E
J: Vamos brincar de carrinho.
T: Ok, vamos brincar de carrinho.
João pega a caixa de carrinhos.
J: Esses são os meus e esse são os seus.
T: Você escolhe os meus carrinhos e os seus.
J: É, você vai passar por aqui e estacionar ali.
T: Você escolhe o que eu devo fazer com eles.
J: É assim que tem que ser.
Nesta situação que se repete, a terapeuta atua de uma outra forma. Transgride as regras e observa a reação de João. Desta vez, trabalha a liberdade de escolha de João em conflito com a liberdade de escolha do outro.
T: É assim que eu vou fazer (a terapeuta não obedece os padrões impostos por João).
J: Tia Claudia, eu já não falei que não é assim?
Pega os carrinhos da terapeuta com raiva e começa a bater neles.
T: Você está batendo nos carrinhos, parece estar com raiva.
J: Estou sim.
Então pára e conversa com os carrinhos.
J: Está tudo bem? (pergunta aos carrinhos)
J: Então toma! (dá mais pancadas nos carrinhos)
T: Você está com raiva mesmo. João então se acalma como se nada tivesse acontecido e
diz: vamos brincar de outra coisa.
Parece claro, nesta situação, que quando os sentimentos e atitudes da criança são expressos através das palavras, dos brinquedos e das atitudes, a experiência pode ser encarada objetivamente e desta forma trabalhada no aqui-e-agora.
A experiência terapêutica é uma experiência de descoberta e portanto de crescimento, que permite que a criança evidencie o seu modo de ser no mundo e com os outros. Nesta situação, foi dada a João a oportunidade de experimentar no setting terapêutico a vivência dos seus sentimentos e por assim dizer de se libertar de suas tensões, se desfazendo por conseqüência dos seus sentimentos perturbadores e, assim fazendo, de
ganhar uma compreensão mais ampla de si mesmo em suas relações. Através desta experiência na ludoterapia, João vai descobrindo a si mesmo como uma pessoa livre e responsável por sua liberdade. Além disso, tirará o véu de novos caminhos que lhe permitam uma nova possibilidade de ser no mundo e em seus relacionamentos interpessoais.
Na mesma sessão ocorre uma situação similar. Escolhe jogar pega-varetas.
J: Eu começo.
T: Você sempre que começa.
J: Eu gosto de começar.
T: Você gosta de começar. Eu gostaria de começar desta vez.
J: Não, eu vou começar.
T: Você gosta de começar, eu gostaria de começar e você vai começar.
Então João começa.
Durante o jogo, João pega a vareta preta.
J: A vareta preta vale mil pontos, ganhei o jogo.
T: Você pegou a vareta preta e agora ela passou a valer mil pontos.
J: É.
Na outra partida eu pego a vareta preta.
T: Já tenho mil pontos, ganhei o jogo.
J: Ah tia Claudia não vale, devolve aqui.
T: Valeu para você e não vai valer para mim.
J: É, essa daí agora só vale cem pontos.
T: Então as regras são diferentes para nós dois. Para você a vareta preta vale mil pontos e para mim cem pontos.
J: Eu não quero mais brincar disso não, devolve aqui, vamos guardar.
Então, em outra situação a mesma dinâmica se repete e a terapeuta novamente trabalha o modo de ser de João na relação, isto é, a sua postura egocêntrica.
Sessão F
Nesta sessão João decide fazer trabalhos com recortes e colagens. O mais interessante é que João conseguiu ficar a sessão inteira fazendo uma mesma atividade, o que é surpreendente.
J: Tia Claudia, eu vou te ensinar a fazer envelope.
T: Ah, você vai me ensinar a fazer envelope.
J: É (mostrou como se faz).
T: Ficou um barato esse envelope. Sabe, existem outros tipos de envelope, que tal se nós tentássemos fazer outros modelos de envelope?
J: Essa idéia é legal.
Assim, terapeuta e cliente constróem juntos outros envelopes. João até aquele momento só enxergava uma possibilidade de construir envelope e a terapeuta amplia mais uma vez o seu leque de possibilidades, criando com a criança vários outros tipos de envelope. João demonstrava fascinação em descobrir coisas novas.
Com a experiência terapêutica, espera-se que João não só consiga ver novas possibilidades na sala de brinquedos com a terapeuta, como também perceba outras formas de ser e de agir em sua vida cotidiana. Durante este trabalho, a terapeuta dá uma sugestão à João.
T: Que tal se nós enchêssemos cada envelope com recortes e desenhos e déssemos para
alguém?
J: Eu vou dar o meu para a pessoa que eu mais gosto.
T: Você gostaria de falar dessa pessoa.
J: É você tia Claudia.
T: Ah, para mim.
J: É para você, e você tia Claudia, vai dar o seu para quem?
T: Eu vou dar o meu para uma pessoa que eu gosto muito.
J: Quem?
T: No final você vai saber.
Então João enche o seu envelope de coisas: foto de praia, comida, flores, carros, aviões etc..
J: E você tia Claudia, não vai encher o seu envelope?
T: Você quer que eu encha o meu envelope como o seu?
J: Não, eu só queria saber.
T: No final, quando eu terminar eu te digo.
João fica intrigado, mas continua a encher o seu envelope.
J: Vamos tirar par ou ímpar para ver quem fala do envelope primeiro.
T: Você quer tirar par ou ímpar para ver quem começa.
J: É.
A terapeuta começa.
T: O meu envelope eu vou dar para uma pessoa que eu gosto muito e essa pessoa é você.
Aqui tem um coração em branco e uma foto com as quatro estações do ano. O coração em branco é para você preencher com as coisas que você mais gosta, que mais te agradam e só você poderá preencher. As quatro estações são as diferenças, as mudanças e o quanto é difícil diante de tantas coisas diferentes saber qual você iria gostar mais, então eu coloquei todas as estações: primavera, verão, outono e inverno. Qual a que você gosta mais?
J: Outono.
T: Está vendo, diante de tantas estações é muito difícil saber a que você iria gostar mais, só você poderia saber, então eu recortei todas para você.
A atuação da terapeuta mostra que ela não pode escolher por João, trabalha assim a
liberdade e responsabilidade por suas escolhas e por si próprio.
Além disso, João poderá construir diante do nada (representado pelo coração vazio) e
das possibilidades (as estações do ano) o seu próprio referencial e seu modo de viver, que é acima de tudo singular.
João pega o envelope feliz.
J: Obrigado tia Claudia, eu adorei, em casa eu vou colocar coisas no meu envelope que eu gosto.
T: Eu gostaria de ver, se você quiser traga-o para mim, assim vou te conhecer cada vez mais.
J: Eu trago sim. Agora eu vou dar o seu. Eu coloquei muitas coisas, eu não sei se você vai gostar. Então começa a falar das fotos: praia etc..
T: Ah eu gostei muito do envelope que você me deu e das coisas que estão dentro dele.
Sessão G
Uma nota importante sobre uma das orientações feita com os pais.
Mãe: João está mais calmo, só fica agressivo quando a gente bate nele ou quando os amigos o provocam.
T: Nessas situações a resposta de João parece adequada, pois há motivo para reagir de forma agressiva.
Pai: É, ele melhorou bastante.
Mãe: Quanto a isso tudo bem, o problema são essas manias dele, esse jeito estranho que eu não gosto.
T: Que manias, que jeito estranho?
Mãe: Dançar funk, dançar rebolando na boquinha da garrafa, brincar de boneca com a
Michele. Agora eu estou cortando tudo isso, não quero mais ele andando com menina, se não ele fica com essa manias. Vai acabar virando bicha. Você acha que é a melhor solução?
T: Isolar João do seu convívio social, como dançar, brincar com meninas, só vai prejudicá-lo na sua troca com o meio. Hoje você o isola da companhia feminina, amanhã não poderá isolá-lo da companhia masculina, nem impedi-lo de fazer
escolhas. Futuramente João decidirá sobre a sua opção sexual. Você não acha cedo para
rotular como homossexualismo a conduta de João?
Pai: Eu concordo com a Claudia, você dá uma dimensão grande a esse assunto.
Mãe: Eu chamo a atenção dele porque eu me preocupo com a vizinhança, o que as pessoas vão falar desse jeito de bichinha.
T: Você está preocupada com a crítica dos outros?
Mãe: É, eu me preocupo, eu estou muito nervosa, de qualquer forma eu vou pensar nas
coisas que você me falou.
Esta sessão com os pais merece comentário especial, pela função que exerce nos padrões de masculino e de feminino da criança. João sofre pressões da mãe, que revela uma postura machista, em conflito com as transformações sociais. Um dos membros do grupo que dança a música da boquinha da garrafa é um homem e João fica perdido mediante referenciais tão distintos. Mais tarde isso aparecerá em sua fala, marcada pelo preconceito até de cores, como por exemplo, cores de mulher: rosa, vermelho, entre outras; e cores de homem: azul, verde e outras. A terapeuta de qualquer forma tenta conscientizar a mãe quanto ao rótulo que ela mesma dá ao filho.
Sessão H
Na sessão seguinte, João leva o envelope que a terapeuta lhe deu, preenchido com as
coisas de que mais gostava.
J: Tia Claudia, eu trouxe o envelope para você ver as coisas que eu mais gosto. Eu
gosto dos Power Rangers, da Barbie, de flor, de desenho, de boneco etc..
T: Ah, que legal, agora eu sei realmente das coisas que você mais gosta.
Foi interessante perceber o interesse de João em falar dele, das coisas de que mais gostava para a sua terapeuta. Pareceu extremamente importante para João compartilhar esta vivência, falar das próprias escolhas e do seu referencial. Ele mostra que de fato quer cada vez mais dar a mão a sua terapeuta nesse trilhar e levá-la para conhecer o
seu mundo. Mostrava confiança e segurança ao fazer isto.
J: Vamos jogar dama.
T: Ok, vamos jogar dama.
Na última partida, a terapeuta perde.
J: Vou te dar mais uma chance.
T: Você quer me dar mais uma chance.
J: É.
T: Quando você perdeu eu não te dei chance.
J: Mas eu vou te dar.
É interessante perceber que João começa a vivenciar a sua singularidade quando deixa entendido: você não me deu, mas eu vou te dar uma chance.
Começa a se dar conta da sua vivência concreta e particular, emergindo das coisas que estão aí, saindo da generalização, do impessoal e buscando sua própria singularidade no mundo. Assim inicia uma busca pela autenticidade.
J: Eu trouxe para você essas figurinhas da Barbie que eu coleciono. Você gosta?
T: Ah, sim, são lindas.
J: Aonde você vai colar?
T: Na minha agenda.
J: Então pega a agenda que eu colo para você.
T: Você gostaria de colar para mim?
J: É, posso colar para você?
Nessa pergunta, percebe-seque João começa a se relacionar de forma a se posicionar, e ao mesmo tempo, respeitando a liberdade do outro, o que pode trazer benefícios em seus relacionamentos.
T: Sim, pode, deixa eu escolher um lugar. Pode colar aqui. Então João cola as figurinhas.
Cabe comentar sobre o feedback dos pais durante as orientações, onde relatam que João tem melhorado sensivelmente em relação a sua ansiedade, a sua auto-mutilação e a sua agressividade.
Sessão I
Nesta sessão, João escolhe desenhar.
J: Vamos desenhar.
T: Vamos. E já que você quer desenhar eu tenho uma sugestão. O que você acha de a
gente desenhar o que gostaríamos de ser como bicho, por exemplo, se eu fosse um animal, que animal eu seria? Se eu fosse um carro que carro eu seria? Então a gente vai desenhando e falando dos nossos desenhos. O que você acha?
J: Legal tia Claudia. Vamos desenhar.
T: Vamos. Qual que a gente vai fazer primeiro?
J: Um animal.
João desenha um esquilo.
T: O que no esquilo faz lembrar você?
J: Porque eu adoro subir em árvore, do jeito dele brincar e ele gosta do que ele come.
T: Então você seria um esquilo porque gosta de subir em árvore como ele, gosta do jeito
dele brincar e você também gosta do que você come.
J: É, e o esquilo é divertido e eu também o gosto.
Depois desenha um carro.
T: Ah, você seria uma carro quadriculado, preto e vermelho.
J: É, porque eu adoro andar pela rua, passear de noite, ver corrida, correr. Eu gosto de quadriculado de preto e vermelho.
T: Você, como carro, gostaria de ser um carro quadriculado de preto e vermelho e passear e correr pela rua.
J: É, mas eu não faria isso porque as pessoas iam rir de mim.
T: Então você não andaria como esse carro na rua porque as pessoas iam rir de você.
J: É.
T: Você deixaria de fazer o que gosta para as pessoas não rirem de você. O que te faz achar que elas vão rir?
J: Porque ninguém tem um carro assim.
T: Então se ninguém tem, você também não pode ser diferente.
J: Eu ia ficar com vergonha.
T: Com vergonha de passear com o carro de que gosta.
J: Das pessoas falarem que eu sou ridículo.
T: Então você ficaria preocupado em ser chamado de ridículo.
J: É, mas eu não ia ligar não.
João mostra a ambivalência, caracterizando a inautenticidade, em que o seu sentimento, linguagem e ação não se mostram articulados.
Neste discurso, João se perde no anônimo, no impessoal, preocupado em fazer o que todo mundo faz. A terapeuta trabalha a sua autenticidade, em busca do seu próprio referencial.
T: E se você fosse um móvel de casa?
J: Isso eu não seria porque móvel é estátua e eu não gosto de ficar parado.
Vale lembrar que João veio com o parecer do neuropediatra de transtorno hipercinético. Em sua fala, mostra autoconhecimento.
T: Você não gosta de ficar parado.
J: É, e se eu fosse um boneco (ele mesmo pergunta e responde)? Eu seria o He man.
T: Ah, você seria o He man.
J: É, eu adoro lutar, ficar de sunga, de bota, de colete, metralhadora, ficar sem camisa,
gosto de cabelo grande.
E você tia Claudia, que boneca você seria?
T: Ah, eu seria a Lu Patinadora.
A terapeuta participa da brincadeira a partir da solicitação de João, reforçando o vínculo e contribuindo para que João se revele cada vez mais.
J: Ah, vamos fazer agora com o fundo do mar?
T: Se fosse algo do fundo do mar?
J: É.
T: Está bem. João faz o seu desenho.
T: Você gostaria de falar sobre o que você seria do fundo do mar?
J: Eu seria o pai da Ariel. Ele faz festas no fundo do mar, lá tem lugar gelado, camarão
(João é proibido de comer camarão, pois é alérgico), ele nada e manda no mundo
inteiro, faz chover, faz sol, ele manda no mar inteiro.
T: Então você gostaria de ser ele para mandar no mundo inteiro, fazer chover, fazer sol,
fazer festas.
J: Ah, eu queria.
T: Mas, já que você não é o pai da Ariel, o que você pode fazer sendo você mesmo?
J: Eu posso fazer festas, posso nadar, posso me fantasiar de sereia.
A terapeuta trabalha com João as suas possibilidades concretas, e portanto o limite das situações. Na realidade as coisas que coloca não estão dentro das suas possibilidades de realização, mas o que poderia estar ao seu alcance.
Sessão J
Nesta sessão cabe ressaltar que João tem obtido progresso, mostrando-se calmo, tranqüilo e com grande diminuição de sua carga de ansiedade. Jogamos dama e foi importante poder perceber que João parava para raciocinar a cada jogada,observando e se concentrando, o que parecia impossível nos nossos primeiros encontros.
J: Eu brinco com o meu irmão de dama, mas ele não sabe direito.
T: Ah, você brinca com ele de dama, mas ele não sabe direito.
J: Às vezes ele me enche o saco, mas eu gosto dele.
Ao final da sessão escreve no quadro João e Tadeu. João começa a recriar significados do seu relacionamento com o irmão; o que antes parecia inviável, hoje é possível: sentar para brincar junto.
Depois faz referência ao sentido que dá às cores, de mulher e de homem, diferenciando-as.
J: Massinha vermelha nas suas peças e verde nas minhas.
T: É verdade, as minhas peças estão com massinha vermelha e as suas com massinha verde.
J: É porque vermelho é cor de mulher e verde é cor de homem.
T: Então existem cores de mulher e cores de homem.
J: É.
T: Então homem não pode usar vermelho e mulher não pode usar verde.
J: Vamos jogar tia Claudia.
João não revelava disposição em mexer nesta questão, portanto o seu momento, bem como a sua escolha foram respeitados pela terapeuta.
Sessão L – outra orientação de pais
Desta vez a mãe traz um fato novo: a presença de Michele, a prima de João no mesmo turno e aula, contudo em turma diferente. Conta que João tem sentido ciúme exagerado da prima.
T: O que o leva a sentir ciúme da Michele?
Mãe: Ele tem estado desorganizado com os cadernos, sua leitura piorou e ela só tira dez,
lê muito bem. A verdade tem que ser dita.
T: De que forma você se comporta em relação a isso?
Pai: Ela elogia a Michele o tempo todo na frente de João, agora diz para Claudia o que
você diz ao João.
Mãe: Às vezes eu fico nervosa com ele.
Pai: E diz que ele é burro, que não sabe ler.
T: Parece então, Valéria, que você tem contribuído para o ciúme de João com as suas atitudes.
Mãe: É, eu sei que eu tenho que ter mais calma com ele, eu vou pensar nisso, talvez eu esteja mesmo reforçando esse ciúme.
A mãe sempre quis uma filha menina, quando João nasceu, num primeiro momento, apresentou sentimentos de rejeição, alegando que a criança estava trocada no hospital. Mesmo em sua segunda gravidez não conseguiu uma menina.
Os pais têm apresentado divergências em relação à educação de João. Trabalho a questão da comunicação entre eles. A mãe acha que o pai protege o João. O pai acha que João não pode bater no irmão porque é menor.
De forma geral, os pais relatam que João tem apresentado melhoras em casa e em seus relacionamentos mostra-se mais flexível. A sua relação com o irmão melhorou. Os pais, juntamente com João, também vêm crescendo. O crucial é o esforço que vem sendo feito a no comprometimento com a psicoterapia e com a orientação de pais.
Sessão M
Nesta sessão, mãe pede para falar comigo antes de João entrar. Peço autorização a ele. João permite.
Mãe: João hoje está muito agressivo, bateu nos primos, no irmão e me desafiou e eu bati
nele. Isso é normal?
T: Interessante Valéria, quando você o trouxe aqui, uma das queixas era de que João apanhava de todo mundo e hoje ele bate.
Mãe: É, mas ele saiu de um extremo para o outro.
T: É normal que isso aconteça, assim como ele teve a possibilidade de sair de um extremo para o outro, ele também terá a possibilidade de encontrar para si uma situação de equilíbrio. Tudo isso, Valéria, faz parte de um processo de descobertas e transformações e é importante que nós possamos respeitar o ritmo de João. É como arrumar o armário, ele está tirando tudo de dentro do armário e arrumando ao seu modo. Então vamos permitir que ele faça isto no seu tempo.
Mãe: Obrigada Claudia, agora eu estou mais tranqüila, eu me questionei hoje se eu deveria trazê-lo, mas quando fui falar com ele, ele disse que viria de qualquer jeito, que ele gostava de vir aqui e eu não podia impedir.
Então João entra e dá uma figurinha da Barbie para a terapeuta e a abraça como de costume.
J: Vamos jogar este.
T: Você quer jogar Top letras.
J: É.
Com criatividade e perspicácia João constrói as palavras. Tenta criar palavras que não existem, troca letras, pede letras emprestadas.
T: Eu acho que essa palavra não existe.
J: Existe sim.
T: O que é que ela significa?
J: Ah não sei tia Claudia.
T: Mesmo não sabendo você quer montar esta palavra.
J: A gente pode inventar.
T: Ok, então a gente pode inventar palavra.
J: É.
A terapeuta pretendeu conscientizar João de que estava transgredindo as normas do jogo que ele mesmo se propôs a jogar. Quando ele argumenta com a terapeuta e revela o desejo de inventar, ele mesmo cria uma nova possibilidade no jogo.
Então decide jogar pega-varetas. Pega as varetas e joga.
J: Primeiro as damas.
T: Você quer que eu comece.
J: É.
J: Não valeu, elas estavam muito separadas, vou jogar de novo.
Pega as varetas e joga-as de novo da mesma maneira.
J: Agora eu vou começar.
T: Não vale, elas estão muito separadas.
J: Vale sim.
T: Não valeu para mim, só vale para você.
J: É.
T: Parece que tem que ser como você quer. É assim também com seus amiguinhos?
J: É, mas até que eu estou melhor, mas tenho fama de mandão.
T: E como é ter esta fama de mandão?
J: Às vezes é bom, às vezes não, sou assim também em casa com a minha família. Às vezes! Vamos jogar.
João não permite a continuidade da conversa. Contudo, o importante é que hoje João percebe a si mesmo e assume responsabilidade pela construção que faz de si mesmo. Cabe a ele a decisão de transformar isso ou não.
Sessão N
A terapeuta sugere hoje que João desenhe o seu próprio mundo, como ele é2.
J: Eu adoro desenhar, na escola eu fiz um desenho só assim (mostrou com formas geométricas) e ficou lindo. Os desenhos mais bonitos vão para o mural
da escola e o meu foi.
T: Como você se sentiu quando o seu desenho foi para o mural?
J: Ah, eu fiquei muito feliz. Enquanto desenhava, comentava sobre o desenho do
seu mundo.
J: O desenho está todo sujo, está feio.
T: Você acha que o seu desenho ficou sujo e feio.
J: É, está sujo, mas não tem problema, eu não vou mostrar para ninguém mesmo.
T: E se mostrasse, o que poderia acontecer?
A terapeuta trabalha com João então o risco de aventurar-se, de ser no mundo em sua totalidade.
J: As pessoas vão rir de mim, aí eu também vou ter que rir delas.
T: Por que você acha que elas vão rir de você?
J: Por causa do desenho sujo, vão me sacanear.
T: Você só mostra então os desenhos limpos e bonitos, se não vão te sacanear.
J: Nem sempre, mas eu gosto de mostrar os desenhos bonitos para não me sacanearem. Outro dia na escola, uma garota me sacaneou com uma resposta e eu respondi também, se me batem, eu bato também. Nem que seja o meu irmão pequeno com um tapinha na bunda, eu tenho que devolver.
João mostra preocupação com a crítica e o juízo do outro. A terapeuta vai trabalhando a sua preocupação com o outro e promovendo de certo modo o risco.
Nesse momento, João havia pedido a terapeuta que desenhasse um homem e uma mulher, olha para o desenho e diz: por que você não coloca um clima romântico, faz eles num lugar romântico.
T: Você quer que eu faça eles num lugar romântico.
J: É.
T: Que lugar?
J: Assim, olhando o mar.
T: Você quer que eu os desenhe olhando para o mar.
A terapeuta desenha, conforme a solicitação de João.
J: Ah, tia Claudia, agora pinta.
A terapeuta começa a pintar a calça do homem de azul.
J: Tia Claudia, por que é que você sempre pinta a roupa de homem de azul?
T: Na verdade João, eu nunca desenhei para você antes um homem de roupa azul, mas este eu estou desenhando.
Propositalmente, a terapeuta pinta a camisa do homem de rosa.
J: Não, homem não usa roupa rosa, vai ser chamado de bicha.
A terapeuta trabalha a situação na pessoalidade, na vivência particular e concreta de João.
T: Você não usa roupa rosa?
J: Não, só em casa, se não vão me chamar de bicha na rua.
T: Então, você só usa roupa rosa em casa, se não vão te chamar de bicha na rua.
J: É.
T: Ninguém nunca te viu de roupa rosa?
J: Só um amigo meu que foi lá em casa, mas ele não contou para ninguém.
T: E se ele contasse?
Terapeuta investe em trabalhar o risco com João.
J: Ele não vai contar.
T: Engraçado, eu conheço homens que usam roupa rosa e não são bichas, o meu marido
por exemplo usa camisa rosa; e conheço bicha que usa roupa azul.
Neste momento, terapeuta dá um auto-relato ao cliente visando trabalhar a singularidade frente à generalização.
J: Mas rosa é cor de mulher, existem cores de mulher e cores de homem, tem cores, cinza e preto, que os dois podem usar. Rosa é de mulher, azul e verde é de homem.
A terapeuta volta em sua intervenção.
T: Eu conheço bicha que usa azul e conheço homens que usam rosa.
J: Eu não uso.
T: Ah, então você não usa.
João quando diz isso, ele próprio sai da generalização e percebe-se singular, afinal é ele quem não quer usar. Olha para o desenho da terapeuta e percebe algo mais fora de seus padrões.
J: Ah, tia Claudia, você pintou o vestido dela de verde, tinha que ser rosa.
T: É eu pintei de verde, sabe que eu gosto de usar verde.
J: Tudo bem, o desenho é seu mesmo.
Então João percebe-se singular e começa a respeitar a singularidade do outro também, neste caso o referencial da terapeuta.
Sessão O
Hoje a terapeuta sugere a João a técnica da roseira3.
T: Eu tenho uma brincadeira que é de faz de conta. Você quer brincar?
J: Como é?
T: É assim, você fecha os olhos e imagina que é uma roseira (João fecha os olhos).
Então como é a sua roseira, grande, pequena, como ela é, quem cuida dela, onde ela mora... (continua a estimulação com as consignas) PAUSA. Agora desenhe a roseira que você imaginou que seria.
Com a roseira já desenhada, cliente e terapeuta conversam.
T: Então, você gostaria de falar de que tipo de roseira você é?
J: É uma planta, a minha planta é daquelas que vão crescendo, crescendo e sobem em tudo. Ela vive dentro de casa.
Interessante o comentário de João sobre a sua planta, que vai crescendo, crescendo.
T: E quem cuida dela?
J: A minha mãe e ela está indo para o outro lado, eu desenhei errado.
T: Ah, a sua mãe cuida de você, mas ela está indo para o outro lado, você desenhou errado.
J: É.
T: Mais alguém cuida de você?
J: Eu não desenhei, mas tem outras pessoas que vivem aqui, meu pai e meu irmão.
T: E a sua planta gosta de que tempo?
J: De chuva.
T: Ih, eu estou vendo um sol aqui.
J: Gosta dos dois. Agora vamos desenhar um animal.
T: Você quer desenhar um animal?
J: É, o que você acha?
T: Acho legal.
J: Então vamos.
João desenha um tigre.
T: Você quer falar do animal que desenhou?
J: Eu queria ser um tigre, porque ele é todo pintado.
T: Ah, você gostaria de ser um tigre porque ele é todo pintado. O que é isso? (a terapeuta pergunta apontando para as grades que parecem de uma jaula).
J: É uma jaula.
T: Você vive dentro da jaula?
J: Eu não gosto de ficar dentro da jaula, eu fujo dela. Vamos jogar, vamos jogar.
João não permite continuidade ao assunto. Lembrando do tigre inicial, quando revelava um desejo de destruição da família, agora o tigre tem outro significado.
Sessão P
Hoje, João chega, pega uma folha e diz: vamos desenhar?
T: Você quer desenhar?
J: Quero que você desenhe comigo também.
T: Você quer que eu desenhe com você também.
Então João faz vários rabiscos no papel, rabiscos coloridos.
João parecia extremamente satisfeito em rabiscar o papel, porém o fazia com agressividade.
A terapeuta arrisca:
T: Você parece estar com raiva.
J: É, sempre que eu fico com raiva eu gosto de desenhar.
T: E agora, você está com raiva?
J: Agora não, mas é muito bom fazer isso.
Então terapeuta e cliente fazem rabiscos em papel durante toda a sessão. Ao final, João pede à terapeuta:me dá o seu desenho?
T: Dou.
J: Então escreve uma mensagem atrás para mim.
T: Você quer que eu escreva uma mensagem atrás para você?
J: É, você escreve?
T: Escrevo sim.
A mensagem da terapeuta para João: “Com carinho para o meu cliente. Te gosto muito. Beijos da sua psicoterapeuta. Claudia.”
Enquanto isto João desenha uma caixa em formato de coração e dá à terapeuta junto com os seus rabiscos e uma mensagem.
J: Eu adorei o que você escreveu, eu te amo muito, obrigado.
T: De nada, você conquistou isto, fico feliz que você tenha gostado.
João abraça a sua terapeuta e vai embora, parecia feliz. O desenho, o rabisco, enfim todas as formas de expressão possibilitam à criança a revelação daquilo que sente.
Cada vez mais João revela segurança e menor carga de ansiedade.
O vínculo entre João e a sua terapeuta mostra-se tão fundamentado e delimitado, que foi possível sem receio que a terapeuta dissesse a ele o quanto ela gostava dele.
Sessão Q
João decide nesta sessão brincar com as sucatas.
J: Vamos brincar com essas coisas (pega o saco de sucatas). João pega a caixa de ovo de
isopor.
J: A gente pode fazer um computador, essa parte é de escrever (mostra referindo-se ao
teclado).
T: Você gostaria de montar um computador. Mexe no saco de material.
J: Tive uma idéia melhor, você faz um presente para mim e eu faço um para você.
T: Você quer que eu faça um presente para você e você vai fazer um para mim.
J: É.
T: Está bem.
Então, com o material disponível, terapeuta e cliente fazem em parceria, visto que João solicitava, pedia opiniões.
Então criam duas bonecas com cara de Barbie.
A terapeuta constrói a dela com vestido verde e azul e João faz a dele com vestido rosa.
João comenta: vestido verde, ficou bonita!
T: É, eu adoro verde, hoje estou vestida de verde.
J: Nem tinha reparado tia Claudia. A minha está de rosa, eu gosto de rosa.
T: Está muito bonita a sua boneca, mas você já pensou se todo mundo gostasse só de
rosa, ou só de verde?
J: É, tem gente que gosta, tem gente que não.
Depois faz um porta-retrato com as sucatas e diz que é um presente para a terapeuta.
T: Obrigada João, muito criativo o seu porta-retrato.
Assim, terapeuta e João continuaram o seu caminhar nesta relação. A terapeuta acompanhava cada cultivo e cada colheita de João, auxiliando-o a cada passo, a cada descoberta.
Cada vez mais João, assim como a sua planta, crescia e crescia. Em cada atitude ia se assumindo e se revelando. A cada escolha, uma nova conquista, novas possibilidades.
Passado o tempo, aproximadamente de um ano e meio, João chega ao consultório, enfim, com um novo desafio. Havia decidido, já em tempo, completado oito anos de idade, caminhar sozinho, sem o auxílio de sua terapeuta.
Neste dia sugere uma atividade artesanal.
J: Vamos brincar de artesanato?
T: Você gostaria de brincar de artesanato?
J: É, eu vou fazer uma coisa e você vai me copiando. Quero te ensinar a fazer uma coisa.
Enquanto fazem a dobradura de papel, conversam.
J: Tia Claudia, eu andei pensando, sabe eu gosto de vir aqui, mas acho que é cansativo para minha mãe me trazer aqui toda semana. Acho que eu não vou vir mais.
T: Você não quer vir mais porque é cansativo para a sua mãe.
J: Também, mas na verdade acho que eu não preciso mais da terapia.
T: E o que te faz acreditar que você não precisa mais da terapia?
J: Eu estou bem melhor.
T: De que forma você se sente melhor?
J: Está vendo (mostra a boca), eu não mordo mais a língua e a boca. Não sou mais nervoso como era antes. Agora já não tenho mais medo. Eu já me sinto bem.
T: Então você realmente já se sente bem.
J: É, agora se eu quiser voltar, eu posso?
T: Sim pode, mas eu espero que você não volte, prefiro que você não precise mais de mim, afinal não sei quem está mais cansado da cara do outro, se é você de mim, ou eu de você, afinal você toda semana aqui (a terapeuta dá um ar de brincadeira e de libertação à situação).
João rindo: É verdade.
Então João pergunta: gostou do gatinho que eu te ensinei?
T: Gostei muito. Ficaram lindos.
J: Vamos trocar.
T: Você quer trocar?
J: Quero.
T: Vamos colocar os dois para conversarem?
J: Vamos.
T (como gatinho): E então gatinho o que você gostaria de dizer antes de ir embora?
J: Que você me ajudou muito aqui e que eu vou sentir saudades, obrigado por tudo
que você fez por mim.
T: Na verdade foi você quem fez por você, eu só te dei uma mãozinha.
João desenha uma mala e cola no seu gatinho.
J: Eu vou levar comigo nesta mala tudo de bom que eu fiz aqui com você e aqui (pega um papel e anota um número de telefone) é o telefone da casa da minha tia, se você quiser pode ligar para mim.
T: Ah, sim quando você quiser pode ligar para mim também para me contar sobre você, eu realmente vou querer saber notícias suas.
J: Pode deixar que eu vou te ligar. Eu trouxe também uma foto minha para você guardar
de recordação, você pode botar se quiser naquele porta-retrato que eu fiz aqui e queria uma foto sua.
T: Você quer uma foto minha?
J: Quero.
T: Mas eu não tenho foto aqui.
J: Então você me manda pelo correio.
T: Está combinado.
Conforme combinado, três meses depois a terapeuta envia uma foto para João. Passado algum tempo, logo depois do último Natal, João liga e diz que está com saudades, mostra interesse e pergunta se pode ver a terapeuta. Então marcam um dia no consultório.
O encontro foi um sucesso, João mostrava-se muito bem em sua caminhada e não demonstrava nenhum desejo ou necessidade de voltar para terapia, contou que passou de ano na escola e falou das coisas novas que haviam acontecido. Vale ressaltar que, já há algum tempo, João não tomava mais medicação, pois com a sua melhora foi suspensa pelo próprio neuropediatra que o acompanhava.
Neste momento, cessa a vivência terapêutica, uma escolha do próprio agente deste processo, o cliente que, agora consciente das suas possibilidades, caminhará com os seus próprios pés como guia, o que nunca deixou de fazê-lo, porém agora assumindo a responsabilidade pela rédea do destino em suas próprias mãos. Inicia então o árduo caminho por vivenciar a sua própria verdade, antes velada pela coletividade, pelo anonimato, pela impessoalidade. O desvendamento do ser em si mesmo acontece como um processo com João, em sua singularidade, espacialidade e temporalidade, eis o objetivo da psicoterapia4.
“Produzir diante de si mesmo o mundo é para o homem projetar originariamente suas próprias possibilidades.” Martin Heidegger
NOTAS
1 A publicação das sessões com João foi autorizada pela mãe do próprio, sob a condição de que os nomes e os dados de identificação citados durante a explanação fossem fictícios, para que possamos manter a idoneidade e sigilo do cliente, portanto, qualquer semelhança é mera coincidência.
2 Técnica da Violet Oaklander do livro Descobrindo Crianças.
3 Do livro Descobrindo Crianças, de Violet Oaklander.
4 Agradecimentos especiais aos profissionais e amigos que contribuíram para o sucesso do tratamento de João, como Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo com as supervisões deste caso, e Dr. Jair Luiz de Moraes como neuropediatra de João, o responsável pela indicação e pelo tratamento medicamentoso. Agradecimento aos pais pelo comprometimento com as orientações, com o cumprimento das sessões e pela autorização da publicação.
A João por ter possibilitado a oportunidade de atendê-lo e me permitir entrar em seu mundo, enriquecendo cada vez mais o meu aprendizado profissional.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AXLINE, Virginia. Ludoterapia. Belo Horizonte: Interlivros, 1984.
FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. Apostilas do curso de formação do IFEN. Rio de
Janeiro: 1996.
FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. A psicologia fenomenológicoexistencial. Rio de Janeiro: Informativo USU do curso de psicologia, 1995.
OAKLANDER, Violet. Descobrindo crianças. São Paulo: Summus, 1980.
SATIR, Virginia. Terapia do grupo familiar. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.
* Claudia Guimarães é Psicoterapeuta, faz psicodiagnóstico e orientação vocacional, é aluna do curso de Formação do IFEN e trabalha com violência doméstica na ABRAPIA .