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Por Um Núcleo de Atendimento Clínico a Pessoas em Risco de Suicídio:

Uma Análise Fenomenológica do Ato de Decidir Pôr Fim à Vida

PROJETO DE PESQUISA - BOLSA PRODUTIVIDADE - CNPQ

AUTORA: ANA MARIA LOPEZ CALVO DE FEIJOO

I - Descrição Resumida do Projeto

Uma reportagem no Psi-Jornal do Conselho Regional de São Paulo, bimestre setembro e outubro de 2011, na sessão Conversando com o(a) Psicólogo(a), com o tema Suicídio: de quem é o problema?, podemos ver o alerta de que no Brasil o número de suicídios vem crescendo de maneira assustadora. E a seguir, a reportagem pergunta sobre como poderia se dar uma política pública voltada para a questão do suicídio e, por fim, continua informando que o Ministério da Justiça divulgou um estudo do Instituto Sangari sobre o Mapa da Violência de 2011 que mostra o alto índice de suicídio em jovens entre 15 e 24 anos.

Ainda, no Psi-Jornal do Conselho Regional de São Paulo, nesta mesma publicação, constam algumas informações que merecem ser pensadas. Uma delas é que o Ministério da Saúde criou, em 2005, a Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio, estimulando algumas ações locais destinadas a prevenção, assinala, no entanto, que não há iniciativas de maior alcance nesse campo. Na tentativa de mobilizar a prevenção do ato de por fim a vida, o Ministério estimulou a iniciativa de realização de Projetos com o propósito de acolher as pessoas que pensam em finalizar as suas vidas. Daí surgiram alguns projetos como ComViver, no Rio de Janeiro e Programa de Prevenção de suicídio implantado no Hospital Ouro Verde, em Campinas, sob coordenação de Davisson Vianna Dantas dos Santos. Esse estudioso do tema, nessa mesma reportagem, embora confirme a importância da criação de projetos e núcleos de atendimento, acredita que há uma insuficiência da qualificação do pessoal envolvido na lida com a situação de suicídio. Ele ainda se refere à importância do implemento de “políticas de recheio”, ou seja, uma maior preocupação com a qualificação técnica, sem abandonar a humanização dos profissionais envolvidos com a temática.

E, por fim, nessa publicação, também, aparece à preocupação dessa instituição com a falta de maiores discussões dos psicólogos sobre a lida desses profissionais com aqueles que querem pôr fim à vida.

Com base nas noticias, observações e reivindicações presentes nessa reportagem é que nos certificamos da urgência e emergência da criação de um Núcleo de Atendimento Clínico a Pessoas em Risco de Suicídio. Para implantar esse núcleo tentaremos atender as reinvindicações acima relacionadas. Primeiramente, com fins ao domínio do tema suicídio, discutiremos as diferentes interpretações acerca do fenômeno suicídio, no que diz respeito à ênfase na culpabalização da sociedade, do indivíduo, ou ainda, na ausência de culpado, em que o suicídio é tomado como possibilidade existencial. Após tais discussões, apresentaremos os argumentos controversos sobre a necessidade de formação de redes de ajuda para assim podermos estabelecer os aspectos imprescindíveis à formação do Núcleo, no que diz respeito aos aspectos físicos, materiais e à formação dos profissionais. A posição que sustentaremos tem como base a fenomenologia e a hermenêutica em que o fenômeno de pôr fim à vida é tomado em seu caráter mais originário. Para tanto, esclareceremos como historicamente passamos da ideia de pôr fim à vida ao suicídio e como esse ato ganha o estatuto de coragem ou covardia, por meio a uma discussão sobre biopolítica. Após a apresentação das diferentes lidas do profissional de Psicologia com o suicídio, nós passaremos a pensar o ato de dar fim à vida em seu caráter de desespero e desmedida para, então, poder argumentar a favor de uma interpretação existencial, considerando a indissociabilidade da teoria e da prática.

II - Objetivos

2.1. Objetivo geral:

As questões levantadas pela referida reportagem suscitaram a necessidade de elaborar um projeto que vise criar um núcleo de atendimento clínico a pessoas em risco de suicídio, atendendo assim a solicitação do Ministério da Saúde de que se criem ações locais destinadas a assistência de pessoas que pensam em dar fim às suas vidas. Esse núcleo se estabeleceria no SPA/UERJ e trabalharia em parceria com um Núcleo já consagrado, denominado UERJ Pela Vida. Assim, a equipe UERJ pela Vida continuaria na recepção ou triagem daqueles que procuram ou são encaminhados por outros departamentos da Universidade para esse Núcleo. E as pessoas, que forem avaliadas como em risco ou aquelas que quiserem dar continuidade aos encontros com profissionais e estudantes preparados para esse fim, seriam atendidas pelo Núcleo de Atendimento Clínico.

2.2. Objetivos específicos:

Para atender a reivindicação do Conselho de São Paulo no que se refere a uma maior preparação do profissional de Psicologia para a lida com pessoas que pensam em suicidar-se, faz-se necessário investir no aprendizado dessa atividade clínica, para tanto, primeiramente teremos que:

2.2.1.coordenar estudos sobre o atendimento clínico em uma perspectiva existencial em psicologia e preparar, por meio de supervisões, os estagiários para esse fim;

2.2.2.compreender o que está em jogo quando uma pessoa quer pôr fim à sua vida, para tanto, realizaremos atendimentos que serão devidamente registrados e, posteriormente, analisados;

2.2.3.realizar estudos sobre a ação de pôr fim à vida desde os gregos antigos, passando pelos hebreus, Idade Média até a modernidade para, dessa forma, poder verificar como em cada época histórica o suicídio ganha modulações próprias ao horizonte histórico em que cada homem se encontra;

2.3.4.obter informações e aprendizados sobre aquilo que os estudiosos do tema suicídio bem como os núcleos de atendimento têm estudado e concluído.

III- Relevância do Estudo

Uma reportagem na UOL Notícias do dia 03/06/2015 informa que a Coréia do Sul é a campeã mundial em número de suicídios. No Japão, os suicídios vêm aumentando vertiginosamente. No ano passado 25 mil pessoas cometeram suicídio e a maioria era de jovens entre 20 e 40 anos. O professor da Universidade de Temple, Wataru Nishandi, elenca os motivos pelos quais o número de suicídios em seu país é tão elevado. Diz ele que os japoneses por não terem uma tradição cristã não moralizam o suicídio, ou seja, esse ato não é pecado, daí que o suicídio não é uma prática moralmente criticada. Assim sendo, não é necessário estabelecer uma relação direta e causal entre doenças psíquicas e suicídio. Logo, o cientista Waratu (2015) refere-se aos motivos pelos quais, no Japão, as pessoas decidem pôr fim à vida. Dentre os motivos alegados para o suicídio estão: a solidão, já que a população vem se tornando cada vez mais solitária, principalmente os idosos; a honra, em nome da honra, muitos japoneses se suicidam, principalmente, para protegerem a família da desonra; pressão financeira, com a alta taxa de desemprego e a perda do status econômico, devido às crises pelas quais o país vem passando; isolamento tecnológico e precariedade do sistema de saúde.

Na reportagem que encontramos no Psi-Jornal do Conselho Regional de São Paulo do bimestre setembro e outubro de 2011, na sessão Conversando com o(a) Psicólogo(a) com o tema Suicídio: de quem é o problema?, nos chama a atenção o alerta do Conselho para a necessidade de introduzir os psicólogos no interior da questão do suicídio e, ainda, a preocupação com a formação do profissional de psicologia para a lida com as situações em que aparece a decisão de pôr fim à vida.

Dessas reportagens apresentadas anteriormente, destacaremos algumas informações para pensar sobre elas. A primeira delas é sobre o que vem acontecendo para o aumento vertiginoso do ato de por fim à vida, para tanto é preciso abrir a possibilidade de pensar a decisão de finalizar a vida como motivo e não como consequência de uma causa seja ela orgânica, seja psíquica ou social. A segunda diz respeito a não reduzir a decisão de suicídio

à ordem de uma responsabilidade pessoal. A terceira questão consiste em poder pensar o ato de por fim à vida saindo de uma perspectiva moralizante. E por fim, encontrar um caminho para pensar a questão sem recair em um manual, que opera no como agir para não deixar que aconteça, aproximando-se de algo policialesco, nem recair no polo oposto, ou seja, na indiferença em que se pensa o suicídio como algo de uma ordem do desejo ou da escolha estritamente pessoal.

IV - Problematizações

Como pensar em uma atuação clínica em psicologia que não se incline frente a uma perspectiva moralizante seja ela de uma ordem médica, jurídica ou sacerdotal? O que pensar sobre a culpabilização do suicídio pela insuficiência de espaços de acolhimento ou pelo despreparo dos profissionais? E, por fim, o que está em jogo na decisão de por um fim a vida?

Acerca do que os profissionais pensam e o modo como atuam nessas situações, deparamo-nos com múltiplas e variadas formas de articular as questões sobre as iniciativas de atuação, a prevenção e o preparo dos profissionais com relação ao suicídio. Dessas variadas formas, duas perspectivas são totalmente antagônicas. Uma delas inclina-se sobre o caráter individual da decisão de suicidar-se. A outra defende a perspectiva da responsabilização do social.

Na perspectiva que diz respeito à responsabilização individual, temos duas vertentes antagônicas. Por um lado, há aqueles que assumem uma ordem disciplinar com o objetivo de prevenção, seguindo manuais com normas e procedimentos de como se deve atuar, nesta direção encontramos Botega (2010) e Glaucio Ary Dillon (2009). Esses estudiosos defendem que o suicídio, na maioria das vezes, tem um componente psicopatológico, predominando o distúrbio bipolar do humor e a depressão. Dos Santos (CRP/SP, 2011) alega que o suicídio se sustenta em diversos fatores como a inexistência de um estado de bem-estar, o consumo de álcool e outras drogas e, ainda, em consequência das pressões no ambiente de trabalho.

Dillon (2009) argumenta, ainda, que devem se formar redes de ajuda devidamente preparadas, para assim evitar o Complexo de Agar. Por outro lado, há aqueles, como, por exemplo, Pedro Cattapan (2012), em Moralização do Suicídio?, que defende que cabe apenas a cada um decidir sobre a sua vida, não responsabilizando com tanta ênfase a atuação dos profissionais envolvidos com a questão e, portanto, não defendendo a necessidade de criação de redes de atendimento com fins a prevenção.

Aqueles que responsabilizam o social, tal como Berenchtein (2013), tem como base o modo como o suicídio é moralmente interpretado de forma a atender o sistema político e econômico. Berenchtein nos esclarece que o suicídio passa a ser visto como pecado na Idade Média e como patologia na Idade Moderna, de acordo com o poder dominante. Na Idade Média o poder era sacerdotal e na Idade Moderna o poder passa a ser da ciência, no entanto, todos têm em comum a questão econômica. Esse autor conclui que é preciso tomar uma posição crítica com relação às políticas públicas para que essa situação possa se transformar. Na mesma direção de Berenchtein, encontramos Freitas et al ( 2013), que em uma revisão bibliográfica de 762 produções acadêmicas sobre suicídio entre 2002 e 2011, concluíram que essas produções apontam para a necessidade de que mais trabalhos se inclinem para a construção de políticas públicas de prevenção.

A questão que agora se impõe diz respeito não só a pensar o ato de pôr fim à vida, mas também aquilo que se refere à política de abertura de espaços de acolhimento para aquele que se encontra aflito para ser acolhido. A Organização Mundial da Saúde considera que 90% das pessoas que pensam em dar fim à vida, se tivessem à oportunidade de serem acolhidas, não consumariam o ato. Isso pode ser constatado no documentário A Ponte, em que fica evidente a hesitação daquele que pretende suicidar-se, parecendo que a aproximação de um dos transeuntes poderia reverter à decisão (OMS, 2015).

Com relação ao desafio da lida com o suicídio para à Psicologia, iniciaremos por tematizar duas posições de certo modo opostas, com relação à inserção do pensamento psicológico nessa problemática. Tanto o professor Nilson Berenchtein Neto (UFMS) como Soraya Carvalho (Bahia) referem-se ao suicídio como uma questão de saúde pública e um desafio para a psicologia clínica. Berenchtein (2013) analisa o fenômeno do suicídio por um viés social e, portanto, em grande parte, como consequência da ordem social vigente. Ele sugere como postura preventiva uma ação do profissional de saúde, no sentido de “promover ou valorizar a questão da vida” (p.21).

Alguns estudiosos do tema, como Botega (2010) e Dos Santos (2011), tendem a posicionar o suicídio como sofrimento psíquico ou como transtornos psicológicos e psiquiátricos. Nesse sentido, acabam por reduzir o ato de por fim à vida a algo de uma ordem individual, ou seja, é o transtorno ou o sofrimento particular a causa do ato.

Cattapan (2012) critica a proposta de criação de uma rede de controle com fins à prevenção e defende o abandono de uma atitude moralizante com base em uma psicopatologização da vida e da biopolítica, que quer o controle da vida e da morte. Afirma que a lida com o suicídio é uma questão de tolerância. “O suicida não tolera a vida e a sociedade biopolítica não tolera o suicídio” (p.183).

Com as posições acima dispostas, concluímos que ora a questão do suicídio culpabiliza a organização social, ora aponta para a responsabilização individual. No primeiro caso, faz-se necessário a construção de uma nova sociedade com uma política de valorização da qualidade de vida. No segundo, faz-se necessária a criação de núcleos de assistência ao indivíduo que se encontra na decisão de pôr fim à vida. O terceiro posicionamento se mantém em uma perspectiva crítica as duas primeiras, em que o autor se coloca em uma posição não moralizante, da qual resulta a aceitação da decisão pessoal seja ela qual for.

Das considerações acima estabelecidas, surgem as seguintes questões: o quanto, ainda, precisamos aproximar-nos da experiência mesma daquele que quer pôr fim à vida para poder deixar aparecer o fenômeno em sua originalidade? Acompanhando as diferentes interpretações sobre o suicídio, podemos ver o quanto são díspares. Essas discrepâncias nas interpretações, de algum modo, podem estar nos mostrando que não alcançamos, ainda, o sentido da decisão de por fim à vida?

V- Metodologia

Para investigar os sentidos que estão em jogo na decisão de pôr fim à vida, estabeleceremos a nossa investigação por meio de três procedimentos.

5.1.Revisão narrativa da literatura: com base em uma revisão narrativa da literatura, procedemos a uma localização, análise, síntese e interpretação das investigações críticas sobre o modo como a Psicologia, em específico, e as Ciências Humanas, em geral, têm pensado o fenômeno suicídio e como estão se desenvolvendo os programas de assistência e prevenção às pessoas que pensam em dar fim à vida. Para tanto, realizamos uma consulta às bases de dados e bibliotecas virtuais, tais como Google Scholar, Lilacs, Scielo, Mendeley, utilizando as seguintes palavras-chave: suicídio, morte voluntária, redes de atendimento, tragédias. Localizamos os artigos publicados sobre o tema no período de 2000 a 2015 que discutiam, mesmo que de forma indireta, a mesma problemática com relação ao suicídio. Uma das fontes primárias a ser utilizada, nesta investigação, será a obra de Georges Minois intitulada História do Suicídio: A sociedade ocidental perante a morte.

5.2. Investigação hermenêutica: em uma perspectiva fenomenológica e hermenêutica, 7

consideramos que o modo de ser dos homens se constitui por meio ao espírito de sua época. Por esse motivo é que precisamos saber como cada época tomou o sentido de pôr fim à vida para podermos compreender aquilo que estava em jogo nessa decisão. As reações sociais e legais, frente àqueles que decidiam pôr fim à vida, diferem e oscilam desde a valorização, passando pela aceitação até a punição do ato, em diferentes momentos históricos. Com esse esclarecimento, poderemos estudar o tema de modo a não tomar a perspectiva moderna, que afirma, veemente, que o suicídio se encontra na contramão da natureza humana como a única e definitiva verdade. E, assim, poder abrir um espaço de investigação para alcançar aquilo que está em jogo na decisão pessoal de por fim à vida, podendo, então, essa decisão aparecer em seu caráter fenomenal. Para cumprir essa etapa de investigação, procederemos à análise dos suicídios em seus diferentes momentos históricos.

5.3.Acompanhamento fenomenológico das experiências concretas daquele que decide pôr fim à vida e vai à busca de atendimento no SPA/UERJ: para podermos acompanhar o fenômeno do suicídio procederemos a nossa investigação fenomenologicamente, ou seja, acompanhando a experiência daquele que decidiu finalizar o curso de sua vida e assim ver o que ele tem a nos dizer.

Ao acompanhar fenomenologicamente o sentido que se encontra no âmbito da decisão de pôr fim à vida, precisamos, em um primeiro momento, recuar frente às interpretações correntes sobre o suicídio, subtraindo a conotação moralizante que circunscreve esse comportamento. Após essa postura metodológica, precisamos acompanhar os vetores internos mobilizadores da decisão para, por fim, alcançarmos à dinâmica e a estrutura do próprio fenômeno, ou seja, a decisão de pôr fim à vida.

Para poder colocar em discussão as questões acima propostas, vamos, em um estudo piloto, apresentar duas situações em épocas distintas em que o desfecho é o suicídio e que, no entanto, se inserem em condições diferentes quanto ao acolhimento, à proximidade dos familiares e ao caráter intimista do ato.

Há mais ou menos seis meses atrás, um fato chamou a atenção, um rapaz de 23 anos, que vamos chamar de Ryan, encontrava-se perambulando pelos corredores de uma Universidade, trajando terno e gravata. Essa não é uma imagem comum nas universidades brasileiras, principalmente, quando se trata de um jovem. O fato provocava estranheza, no 8

entanto, as pessoas passavam por ele, dirigiam-lhe um olhar furtivo e seguiam adiante. Contam algumas pessoas que por ele passaram que em algum momento ele perguntara onde poderia encontrar um profissional de Psicologia. Talvez não tenha encontrado ninguém, talvez não tenha procurado, o fato é que nunca se soube o que aconteceu.

O que sabemos é que esse tipo de coisa pode acontecer uma vez que nas Universidades, mesmo que haja o curso de psicologia, pode ser que não haja um espaço para esse tipo de atendimento, ou seja, de prontidão para a ocorrência dessas urgências. No entanto, para que esse espaço possa existir, muitas condições são necessárias, primeiramente que aqueles que recebem pessoas necessitadas de ajuda ou de escuta estejam preparados para esse tipo de atendimento. Depois, temos que ter um espaço disponível e conhecido pela maioria daqueles que frequentam a Instituição. Ocorre que na situação desse rapaz, não havia nem o espaço para esse atendimento, muito menos pessoas destinadas a esse fim. Esse rapaz atirou-se de um andar muito elevado, chegando a óbito.

Depois desse acontecimento, as pessoas que se encontravam próximas à situação e assistiram toda a cena, contaram que os pais e familiares do rapaz chegaram imediatamente após o jovem ter se atirado e encontraram seu filho estirado no chão, morto. Nesse dia e nessa hora, aconteceria a cerimônia de formatura do jovem e, por isso, os pais e familiares ali estavam presentes. Contam que o jovem, estudante de engenharia, embora estivesse na listagem dos que se formariam, não iria de fato se formar, pois obtivera reprovação em algumas disciplinas. Contaram seus amigos, que ele vinha inquieto com o fato de ter que falar a verdade aos pais e que temia decepcioná-los. Ele mesmo, por vezes, criticava-se pela forma como conduzia seus estudos, no entanto, nunca havia falado de suicídio.

Há, no entanto, uma história que mostra justo ao contrário, trata-se da situação clínica acompanha da por Ludwig Binswanger nos idos de 1950. Ellen West para Binswanger carregava com ela questões que faziam referência à hereditariedade, à biografia e ao percurso da enfermidade em que reiteradamente apareciam as tentativas de suicídio. Ellen queria evitar o fluxo da vida e tudo que dizia respeito ao caráter finito, transitório e precário de sua existência. Ellen, na tentativa de controlar a sua temporalidade, utiliza-se de toda forma de controle, inclusive da alimentação. Ela não queria envelhecer, engordar, enfim, não queria se entregar ao curso da vida. Até que, provavelmente vendo seu projeto fracassar apenas o que passa a querer é morrer, Ellen diz: “A cada dia que passa, vou ficando mais gorda, mais velha e mais feia, Se minha grande amiga a morte me fizer esperar muito mais, então sairei em sua busca” (1977, p.294). Ellen era, muitas vezes, tomada pela angústia, e dizia; “Este é o aspecto terrível de minha vida: está saturada de angústia de terror. Terror de comer, terror da fome, terror do terror. Somente a morte pode libertar-me dessa angústia” (Binswanger, 1977, p. 308). Ellen relata que “desde muito pequena teve dias em que tudo lhe parecia vazio, e sofria uma opressão que ela mesma não compreendia” (Binswanger, 1977, p.290). Ela se descrevia como que aprisionada a si mesma e só pedia a morte. A finitude era a esperança da eternidade. “Em uma manhã, em um momento de agitação e ainda meio adormecida fala dos mortos que gozam de eterno repouso, enquanto que ela continua atormentada; fala de seu enterro” (Binswanger, 1977 d, p.318). Ellen durante quase toda a vida era tomada por uma grande dor até que quando volta do sanatório, parecendo totalmente curada, chega a sua casa com uma alegria contagiante, prepara um farto jantar para seus familiares, come bastante e todos ficam tranquilos. Os familiares estavam certos de que Ellen havia, definitivamente, se curado. No dia seguinte, ao amanhecer, ela se demorara a juntar-se aos seus pelo café da manhã. Quando, a família foi procurá-la, encontraram-na no seu leito de morte. Ellen, finalmente, concretizara seu projeto, dera fim a sua vida.

Écerto, que tanto Ryan quanto Ellen vivem em um mundo em que ser bem sucedido tanto profissionalmente como na aparência física é extremamente bem visto. A cadência do mundo se dá pelo dever ser aquilo que nos é solicitado, sob o risco de uma vez não atendendo tais prescrições, ser excluído. Sem dúvida, a maioria de nós se deixa tomar por esses anúncios da publicidade. Enfim, nós trememos e tememos em não corresponder. Ellen temia envelhecer e engordar. Ryan parecia se intranquilizar por não corresponder às expectativas. Embora, não envelhecer, não engordar e ser bem sucedido sejam modulações presentes no nosso mundo, que nos convoca, incessantemente, ainda podemos decidir, tanto corresponder como resistir a tais solicitações. Ryan e Ellen decidiram pôr fim às suas vidas e assim o fizeram. Ellen estava sendo acompanhada, porém, Ryan não tivera acompanhamento, mas ambos conquistaram o mesmo destino. Com isso, queremos ressaltar que, sem dúvida, há lugar para repensar em transformações sociais, há lugar para a criação de programas que acolham aqueles que solicitam ajuda, mas devemos resistir às convocações que manipulam pela culpa e não embarcar na culpabilização engendrada na acusação dos profissionais que não tem êxito no sentido de não deixar que o suicídio aconteça. Na conversa de Foucault (1981) com Schroeder, este se refere àquilo que ele vê como doença do homem moderno, acusando a psicologia de perpetuar tal doença: “Vivemos num sistema que funciona sobre a culpabilidade. Olhem a doença (p.8)”.

Épreciso que nós enquanto profissionais envolvidos na arte de estar junto ao outro, seja por meio das ações sócio-políticas, seja no âmbito da intimidade, possamos conhecer a nossa medida, em que querer e poder possam se dar de forma compassada. De outro modo, corremos o risco de ser abocanhados por aquilo que Soares (2009) denominou Síndrome de Agar, ou seja, na ânsia de buscar salvar o outro, acabemos como Agar dando fim a própria vida.

VI – Revisão narrativa da literatura

Para, no entanto, discutir o suicídio, vamos, primeiramente, esclarecer os seguintes temas que se mostraram presentes em nossos estudos e, consequente, discussões: do pôr fim à vida ao suicídio, as interpretações sociais do ato de pôr fim à vida, pôr fim à vida e desespero, pôr fim à vida e desmedida.

6.1. Do por fim à vida ao suicídio

Qual é o sentido subjacente à expressão por fim a vida? Primeiramente, cabe esclarecer que a palavra suicídio etimologicamente significa sui (de si) e caedes (morte voluntária, imolação, ação de matar), aparecendo no Século XVIII com o teólogo Camaruel. Anteriormente, nos gregos antigos, a vontade de pôr fim à vida aparecia como hekousios thanatos. Para dar o sentido de afastamento consciente da vida, a palavra utilizada era afhistamai tou biou e, por fim, com a ideia de razão axagoge eulogos. Na latinização dos termos, temos na mesma sequência mors voluntaria, mortem sibi consciere, excessus e vita rationallis. Assim, tanto no grego quanto no latim a ideia de pôr fim à vida aparece na seguinte sequência: morte voluntária, morte em consciência e morte racional. (Guimarães, 2011).

Guimarães (2011) esclarece que na ilíada e na odisseia, na tragédia e no lirismo da Grécia antiga encontramos os motivos pelos quais os homens decidiam pôr fim à vida. Lembremos que os gregos dessa época (desde o século IV a C) não operavam com a dicotomia homem e mundo, tudo se dava na inseparabilidade indivíduo – estirpe –polis- família – destino e nem operavam com a noção de causalidade, por isso aparecem, em suas descrições, motivos e não causas para o ato (Snell, 1975). Desistir da vida, no mundo hebraico entre 1750aC e 539aC, no Antigo Testamento, aparece de forma estrita e neutra, denotando atos de coragem em Saul, Sansão, Eleazar, Razis, Aitofel, Ptolomeu Makron. No cristianismo arcaico, podemos citar o Apóstolo Paulo entre 5d C e 10d C, que considera o sair da vida terrena como um caminho para um mundo melhor. Os filósofos latinos Cícero (106aC- 43aC), Virgílio (70aC – 10aC), Séneca (4aC – 65dC) e Tácito ( 55dC – 120dC) referiam-se ao ato de decidir por não viver como uma partida precipitada, saída tranquila e marcha calma. Eles compreendiam esse ato como mais tranquilo do que morrer, querendo continuar a viver. Também, não aparece nesses filósofos o caráter de estigma que ganha corpo quando a palavra suicídio passa a ser utilizada nos casos em que alguém voluntariamente decide terminar com sua vida. Em 374, uma lei do Império proíbe o ato de terminar com a própria vida, segundo Minois (1995): “A pressão da situação econômica- social e política impõe-se a própria moral para fazer do suicídio um crime contra Deus, contra a natureza, contra a sociedade” (p.42).

Cabe, também, perguntar acerca daquilo que está em jogo quando alguém decide pôr fim à sua vida. Modernamente, pensamos que tal decisão, na maioria das vezes, se dá por uma causa subjacente, seja ela de uma ordem biológica ou psíquica, por alterações físico-químicas ou da dinâmica do psiquismo; seja por conta de situações sociais de privação, humilhação, injustiça. No primeiro caso, o suicídio é considerado uma consequência de um desiquilíbrio no funcionamento orgânico ou psíquico. No segundo, a causa passa a ser o modo de organização social e econômica de uma sociedade. Nesse modo determinista causal de pensar o suicídio, a tese é de que uma vez, descobrindo as causas podemos prevenir e controlar os efeitos. Por esse motivo, proliferam as teorias acerca das causas do suicídio e ao mesmo tempo as estratégias de prevenção. No entanto, a estatística acerca da frequência em que esse ato acontece aumenta a cada ano, tornando-se, atualmente, a terceira causa mortis no ranking mundial. Na maioria das vezes, tentamos explicar esse fato, afirmando que ainda são insuficientes as medidas tomadas no sentido de prevenir o ato de pôr fim à vida, que é preciso que o governo invista mais recursos com a prevenção, etc. Todas essas explicações, argumentos e medidas aqui expostos estão corretos, no entanto, será que alcançamos o que, verdadeiramente, acontece para que as pessoas se decidam dar um ponto final a sua existência?

Camus (2008) em o Mito de Sísifo, diz que o suicídio é o verdadeiro problema sobre o qual a filosofia deveria se inclinar com seriedade. A filosofia pretende saber sobre a existência, tenta fazer isso procurando as categorias que a sustenta. No entanto, ao fazer isso, acaba por se afastar mais daquilo que afinal constitui o sentido do existir. Camus nos diz que o ato de querer pôr fim à vida, remete-nos, imediatamente, a vida e a morte, ou seja, os dois limites intransponíveis da existência do homem. Querer por fim à vida traz em seu cerne pensar se a vida merece ou não ser vivida. Esse mérito diz respeito ao compromisso que alguém estabelece com a sua própria vida. Grandes homens como, por exemplo, Jesus e Sócrates julgaram que deveriam não fugir da morte, mesmo certos de que morreriam se não retrocedessem. Havia nos dois um sentido de vida que os encaminhavam pelo deixar-se morrer. Ambos morrendo se eternizaram, deixando aos seus descendentes legados tanto para o mundo cristão quanto para o grego.

Vale também trazer a debate a decisão de Galilei, que frente ao confirmar as suas teses acerca do lugar da Terra no universo e pagar como tributo a sua própria vida, recua e diz que suas teses eram falsas. Assim, ele se livra da Santa Inquisição. Para Galilei a vida valia à pena ser vivida, independente, da perpetuação de suas teorias.

Essas questões sobre se vale a pena ou não viver remonta as idades clássicas. Podemos encontrá-las nos gregos da Ilíada, da Tragédia, do Lirismo, da Antiguidade. Assim como podemos ver essas mesmas questões no Mundo Cristão bem como no Moderno. Indo ao encontro daquilo que nos diz Camus, o suicídio é uma séria questão que merece que pensemos sobre ela. Pensar significa não ter pressa no sentido de encontrar as causas. Apressadamente, as causas são postas, não deixando mais ver o que está em questão.

O tema desta apresentação trata daquilo que está em jogo quando se pensa em pôr fim à vida. Ainda, propomo-nos a pensar sobre a decisão que se pauta no desespero, na coragem e na desmedida. Sabemos que trabalhar apenas com esses três temas ainda é insuficiente frente à complexidade das decisões humanas, que são da ordem do ilimitado e do indefinido. No entanto, acreditamos que o esclarecimento desses elementos podem sustentam argumentos daquilo que queremos defender, ou seja, o caráter existencial presente na decisão de pôr fim à vida. Agora a questão que merece ser esclarecida é: por que coragem, desespero e desmedida?

6.2. As interpretações sociais do ato de por fim à vida

A interpretação ambígua de que o suicídio é um ato de coragem e de covardia só faz sentido em uma sociedade que se organiza por meio a uma biopolítica, que afirma a vida como uma produção que deve se dar em sua docilidade, utilidade e moralidade (Foucault, 1976). Trata-se da ética moderna, que preconiza que a vida vale a pena a qualquer custo. A coragem é interpretada a partir do projeto moderno de manutenção da vida, independente das condições em que se vive. Sobressai, assim, a ideia tecnocrata de que a vida merece ser vivida e que todos devem agir de modo a prolongá-la. Logo aquele que quer dar fim a um valor tão supremo, tem coragem. Esse ato pode ser interpretado, também, como covardia, quando se interpreta que a pessoa não tem força suficiente para arcar com as intempéries da vida.

No entanto, a vida nem sempre foi interpretada como bem supremo. No cristianismo arcaico dar fim à vida era interpretado como um modo de alcançar uma vida melhor. O apóstolo Paulo (Bíblia Sagrada, 1980), em Epístola de Paulo aos Filipenses 1, diz “Porque para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro!” No Filipenses 22, continua: “Caso continue vivendo no corpo, certamente apreciarei o fruto do meu labor. Mas já não sei o que escolher”. E no Filipenses 23, conclui: “Sinto-me conclamado pelos dois lados: desejo partir e estar com Cristo, o que é infinitamente melhor” (p. 245) A ideia de que a morte levava o homem ao reino dos céus, conduzia os camponeses que levavam uma vida de trabalho árduo a dar fim à vida para alcançar, assim, um mundo melhor. Essa forma de pensar e agir tem reflexos imediatos na economia da época, diminuindo, significativamente, a força de trabalho. Assim, se institui a interdição do suicídio, entre 354 a 430, com Santo Agostinho. O suicídio passa a se constituir como pecado, segundo a Doutrina da Igreja, ninguém tem o direito a acabar com a vida para alcançar uma vida melhor, ao contrário, àquele que se mata não irá para o mundo de Deus, irá para o inferno. Essa situação é retratada na Divina comédia, publicamente conhecida com o Inferno de Dante (Dante, 1321/ 1999) como lugar daquele que inflige o quinto mandamento “Não matarás”. No ano 967, na Inglaterra o suicídio passa a ser crime. E hoje o que vige? Esquirol, em 1827, passa a considerar o suicídio como problema de caráter psiquiátrico e, em 1976, fica consagrado como algo de uma ordem biológica (Minois, 1995).

Foucault (1999) discute toda essa modificação na interpretação do suicídio como algo de uma ordem biopolítica. Por que em uma perspectiva da biopolítica não se pode morrer? Também hoje, como nos medievais, a questão de base é a econômica. Atualmente, há uma grande movimentação da economia na direção da conquista da boa vida. O capitalismo prolifera em torno do consumo desenfreado visando à eternização da juventude, da saúde, enfim do prolongamento infinito da vida. E essa é a ordem vigente que se impõe por um poder invisível. Em síntese, coragem ou covardia frente ao ato de pôr fim à vida consiste em diagnósticos que visam à manutenção dos corpos dóceis e úteis que prescrevem modos de pensar, sentir e ser. Trata-se daquilo que Foucault denominou de Biopolítica que nada mais é que um legado do mundo cristão. Por isso a interpretação moderna acerca do ato de pôr fim à vida, assim como a política de prevenção do ato aparecem em Durkheim (1987), Cassorla (1986), Botega (2010) como uma política de promoção e valorização da vida. Com a ideia de que a vida deve se dar em uma lógica de superação é que se fortalece o homem desesperado do homem, como nós veremos a seguir.

6.3. Por fim à vida e desespero

A decisão por tematizar o desespero diz respeito ao fato de acreditar que essa é a questão por excelência que abate o homem moderno. Esse homem acreditou que seu querer, seu desejo e sua vontade eram soberanos e que tudo se daria de acordo com aquilo que ele quisesse. A frase de ordem do homem moderno passou a ser “Poder é querer”. Assim basta que eu queira para que algo aconteça no sentido do esperado. Se não acontecer, a explicação é a insuficiência de seu querer. Se acontecer, confirma-se a tese. Triste engodo, o querer do homem mostrou-se, pouco a pouco, insuficiente. O sujeito não é o produtor absoluto da ação como acreditavam os modernos. Ao contrário, o homem é que pertence à vida e encontra-se sempre perpassado pelo espírito de sua época. A vida reserva surpresas, mistérios e descaminhos. Essa é a doença do homem moderno, ou seja, querer dar conta do inalcançável de seu desejo. Esse é o desespero da vontade. Kierkegaard (1948/2008) diz que essa é a doença até a morte, porque dela não se morre, por isso ela nos acompanha até que se morra. Fogel (2008) diz que essa doença é a cadência do descompasso entre o querer e o poder. Por esses motivos é que entendemos que já que as coisas não acontecem sempre consoantes à vontade e, que esse querer ilimitado é doença que não mata, o homem, ainda pleno de querer, quer morrer já que seu desejo não se realiza. Decide por isso, seja por mimo, seja por vaidade, seja por mostrar potência, dar fim a sua vida. Fogel denomina a essa posição assumida frente à vida de o homem doente dele mesmo, já que vida, existência é dor. E a vida que se rebela contra a dor que a vida é, faz- se enferma.

O homem que quer a qualquer preço o infinito e o ilimitado é o homem revoltado, já que existir se dá em uma ordem do finito e do limitado. Querer o impossível é presunção e orgulho, enfim, é desespero. Camus (2008) diz que só é desesperado o homem que não se deu conta do absurdo. E ainda, acredita o escritor que apenas esse homem é capaz de no desespero pôr fim à sua vida. Esse homem acredita que a existência tem um sentido inerente à própria vida, algo de uma ordem naturalmente dada. O homem absurdo é aquele que sempre soube que a vida não tem sentido, por isso não se surpreende quando o sem sentido da vida se mostra como tal. Kierkegaard (2008), no entanto, completa tal afirmativa, com a seguinte passagem, o homem, que não se projeta para o infinito e o ilimitado, também cai no desespero de não querer o caráter aberto de sua existência, assim sendo, esse homem nada mais seria que um animal, ou seja, ele estaria em uma mera repetição do mesmo, com total ausência de tempo. Kierkegaard diz que é nessa tensão que se encontra a fé, que é algo que ninguém pode dar ou tirar de outrem. Eis aquilo que Kierkegaard chama do homem perplexo por sua capacidade de sempre se surpreender com o mistério da vida. Mistério que, a todo o momento, o homem moderno quer desmistificar, por isso para manter a vida na ordem do mistério é necessário que, a cada vez, nos voltemos a ela com a mesma perplexidade do início.

É, justamente, aquilo que é da ordem do mistério que os modernos querem resolver, por meio a teorias e o posicionamento das causas e seus consequentes efeitos. Assim, acontece com o suicídio, ou seja, trata-se do mistério que a ciência tenta explicar e prevenir para resolver, ou seja, extirpar esse mal. A ciência se esquece do caráter do incontornável que toda a vida em seus carácteres existenciais comporta. Por isso o fenômeno do suicídio sustenta uma incontornabilidade e quando tentamos dar-lhe contornos, o fenômeno se retrai e, então, não podemos mais ver o como do acontecer do fenômeno de dar fim à vida.

6.4. Por fim à vida e desmedida

Foucault (1982) na entrevista a Schoroeder esclarece:

Nos foi ensinado que a partir do século XX não se pode fazer a si mesmo e não se conhece nada de si. A verdade sobre si é uma condição de existência, enquanto que há sociedades onde se poderia perfeitamente imaginar que não se tenta de modo algum regular a questão disto que se é, onde isso não tem sentido, enquanto que o importante é: qual é a arte a ser utilizada para fazer o que se faz, para ser o que se é. Uma arte de si que seria totalmente o contrário de si mesmo. Fazer do seu ser um objeto de arte. É o que vale a pena (p.8).

Desmedida, hybris é desconhecimento da medida, que se conquista na própria existência em curso. Existência é o espaço de constituição de sentidos sempre na co- originalidade com o mundo. Como nos diz Heidegger (2010), referindo-se a Hörlderlin, no mundo não há medida que possa ser dada ao indivíduo. Assim sendo, cabe ao homem encontrar a medida existencial, ou seja, a medida só pode ser conquistada em sua própria existência. Essa é a arte do existir.

Heidegger (2012) refere-se ao mundo moderno como um mundo da desmedida, pois impera, nesse mundo, a lógica da produtividade, que por desconhecer limites, nunca cessa, e, assim, torna-se a marca de um tempo compulsivo. Em um mundo em que a medida da existência se obscurece, torna-se difícil que cada um conquiste a sua própria medida, os limites do que se pode e não se pode, do que se deve e não se deve passam a ser referidos por normas e critérios externos. O esquecimento do homem com relação àquilo que faz sentido em sua existência constitui-se no motivo pelo qual proliferam os manuais de autoajuda. E cada vez que dizemos ao outro como proceder e afinal o que ele deve fazer, mais esse homem esquece-se da possibilidade existencial de saber o que afinal ele quer e ele pode. A Psicologia, então, em um modelo disciplinar vai passar a dizer como o outro deve proceder e o que ele é. Assim, rouba do homem a possibilidade dele mesmo se encontrar em seu sentido.

Para Foucault (1987), a modernidade vige com os modelos explicativos do funcionamento da vida e pelo dispositivo de saber-poder. A verdade das teorias passa a dar voz ao empreendimento de práticas corretivas. Na antiguidade grega, a ética estava fundada no cuidado de si e na estética da existência, passando, nos modernos, a se fundar no saber de si. E esse saber é dado pelas disciplinas científicas como normas e condutas que devem ser seguidas. No mundo grego prevalecia o cuidado de si, o homem cuidava de sua existência com a sua própria tutela, medida e referências, sem perder a perspectiva da alteridade.

Feijoo (2014) na contramão dessa perspectiva disciplinar em Psicologia, afirma que só podemos dar o que temos naquilo que diz respeito à realização dinâmica da vida. Isso porque desconhecemos a realização existencial particular. Por não termos uma posição antecipadora é que podemos dar a cada um a oportunidade de conquistá-la. “Dar, então, significa abrir um campo de possibilidades para que cada um possa conquistar a existência que é a sua”. (p. 226).

Assim, entendemos que, no mundo moderno, há uma total e absoluta perda da medida existencial, por esse motivo o homem passa a ser desconhecido de si mesmo. Ao mesmo tempo, proliferam as disciplinas que se esmeram em traçar mapas, perfis e diagnósticos a fim de dizer ao homem o que ele é e o que pretende e como deve agir, pensar e sentir. Em um círculo vicioso, cada vez mais, o homem se desconhece e, na mesma medida, cada vez mais, proliferam as tecnologias de si. Logo, diz-se ao homem qual é o risco que ele corre ao cometer suicídio, diz-se a ele se seu diagnóstico é de depressão, histeria ou psicose. Diz-se também como ele deve proceder. E, assim, damos o que não temos, roubando do homem aquilo que ele tem, ou seja, a possibilidade de conquistar a si mesmo.

Ao acompanharmos, em um primeiro momento, o fenômeno hermeneuticamente, poderemos apreender o fenômeno em seu caráter de unicidade e originalidade. O suicidar- se é um fenômeno que sempre esteve presente na existência humana e que envolve as determinações de uma época, bem como, uma decisão daquele que pretende pôr fim à vida. Pretendemos pensar a questão, tomando como referência, primeiramente, os elementos presentes em nosso horizonte histórico, que de algum modo sustentam a ideia da ação de suicidar-se como saída para alguma situação em que alguém se encontra e, depois, que a decisão de dar fim à sua vida se sustenta também em motivos e não só em causas. Ao nos orientarmos por meio da fenomenologia e da hermenêutica pretendemos sustentar um espaço que se mantenha, reflexivamente, na possibilidade de conquista de uma proposta existencial, que esteja presente junto à politicas sociais e, ao mesmo tempo, junto ao singular.

Considerações Finais

Para poder discutir a proliferação de medidas e programas com relação ao modo como o homem deve administrar a sua vida. Pensaremos de que modo podemos proceder para que o homem possa apropriar-se de si mesmo e abrir-se para seu caráter de poder ser de modo a não ficar aprisionado ao como deve ser. Para esclarecer esse jogo do dever e poder, apresentaremos o diálogo abaixo.

Nas conversas de Michael Foucault (1981) com Werner Schroeder, em dezembro de 1981, eles colocaram o que pensavam sobre a Psicologia, identidade e suicídio dentre outros temas. Vamos extrair alguns trechos dessa conversa para podermos concluir este trabalho. Sobre Psicologia, Schroeder, em um dado momento, diz: “A psicologia não me interessa. Não acredito”. Foucault responde referindo-se aos filmes que tentam traçar um perfil psicológico de seus personagens:

Perdeu-se, em sua vida, no que se escreveu, no filme que se fez quando precisamente se quer interrogar sobre a natureza da identidade de algo [ ...] Uma existência era uma obra perfeita e sublime e isso os Gregos o sabiam e, no entanto, nós o esquecemos completamente, sobretudo desde o Renascimento (p. 7).

Esse trecho deixa claro o modo como o cineasta e o filósofo dão um passo atrás frente às interpretações psicológicas (Psicologia em um caráter disciplinar ) que destroem a arte, não permitindo que estas se mostrem em seu caráter estético e sensível. Foucault ainda esclarece como o sensível presente nos Gregos foi totalmente obscurecido pelo caráter racional e moral que se solidifica no Renascimento.

Foucault ainda deixa transparecer como a Psicologia como disciplina destrói a criatividade quando interroga pela natureza de algo, ou seja, a identidade que essa disciplina atribui a todas as expressões do homem, por meio das classificações diagnósticas. E continua: “A arte de viver é matar a psicologia, criar consigo e com outras individualidades, seres, relações, qualidades que sejam inomináveis” (p.6).

E sobre a morte e o suicídio, Schroeder diz que “Olhar de frente a morte é um sentimento perigoso e anarquista contra a sociedade estabelecida. A sociedade joga com terror e o medo”. Foucault completa “Não somente se diz que não é bom se suicidar, mas se considera que se alguém se suicida é porque estava muito mal” (p.7). Esse diálogo chama à atenção para o modo como as determinações moralizantes e normativas de um determinado horizonte histórico, mundo, encobre totalmente a possibilidade de se pensar mais demoradamente sobre o fenômeno.

Sabemos que Foucault tentou suicidar-se em diferentes ocasiões, nessa entrevista ( 1981), ele deixa claro o sentido que ele articulava com relação ao dar fim à vida: “Sou verdadeiramente partidário de um combate cultural para re-ensinar às pessoas de que não há uma conduta que seja mais bela, que, por conseguinte, mereça ser refletida, com tanta atenção, quanto o suicídio” (p. 7-8).

Novamente, com essa declaração do filósofo, certificamo-nos que não há apenas um sentido para a decisão de pôr fim à vida e que tal decisão traz, obrigatoriamente, sofrimento. Por esses motivos, é que não queremos nos apressar em interpretações prematuras. O suicídio é um ato que guarda em seu interior tanta complexidade e mistério que tal decisão merece ser acompanhada no âmbito da própria experiência daquele que decide retirar-se da vida.

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03 Maio 2018
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