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Existência & Psicoterapia:

Da Psicologia Sem Objeto Ao Saber-Fazer Na Clínica Psicológica Existencial

PROJETO PRO CIÊNCIA UERJ

AUTORA: ANA MARIA LOPEZ CALVO DE FEIJOO

I - Descrição Resumida do Projeto

A Psicologia, como área de saber científico e como campo de práticas, desde muito, vem sendo problematizada tanto pelos filósofos como pelos próprios psicólogos com relação aos seus pressupostos. A psicologia fenomenológica existencial, no que diz respeito tanto ao seu saber quanto ao seu fazer tem, ainda mais, sua viabilidade questionada na medida em que toma como referência, em seus estudos, a Filosofia. Essa situação, no que se refere à Psicologia em geral se agrava pela própria dispersão dessa área de saber. Com relação à psicologia fenomenológica existencial, as críticas ganham mais força pela falta de uma maior unidade em suas concepções, por parte dos estudiosos dessa perspectiva. Até mesmo o termo existencial ganha sentidos diferentes e, muitas vezes, contraditórios, colocando ainda mais essa perspectiva em questão.

Em virtude da ampla e indiscriminada utilização que o termo análise existencial conquistou, na psicologia clínica, foi que Ludwig Binswanger (1973) acabou optando pelo termo daseinsanálise. E, ainda, mais tarde, mediante a crítica de Heidegger (2001) à inadequação da proposta ôntica de Binswanger, este passou a denominar a sua prática de fenomenologia antropológica. Essas considerações somam-se aos motivos pelos quais o saber-fazer em uma psicologia fenomenológica existencial é algo que merece e precisa ser pensado.

Embora predominem aqueles que criticam tanto o saber como o fazer em Psicologia de um modo geral (Canguilhem, 1958/1999; Japiassú, 1995), há aqueles que defendem a possibilidade desse saber-fazer, como o fenomenólogo Michel Henry (Henry, 2007) e o psicólogo Luís Cláudio Figueiredo (Figueiredo, 1995). Henry, com a sua máxima da maestria de vida, afirma que uma íntima articulação entre saber, fazer e ética, pode ser alcançada por meio da fenomenologia, que ele mesmo denomina, da vida. Figueiredo (1996) propõe a dimensão ética em Psicologia como alternativa às perspectivas epistemológicas. Ressaltamos que a ética, no sentido tomado por Henry e Figueiredo, pode ser uma forma de pensar a ruptura com a clássica dicotomia teoria e prática. O próprio Heidegger (1947 /1987) ao pensar o éthos em sua relação com o ser supera a clássica relação entre causa e efeito, que orienta, tradicionalmente, o binômio: teoria e prática.

A investigação que propomos, neste projeto, diz respeito a elencar os argumentos que sustentam a possibilidade de uma Psicologia que se constitua sem a dicotomia entre teoria e prática. Para poder pensar a Psicologia para além dessa dicotomização, iniciamos colocando em questão o pressuposto da obrigatoriedade de que haja um objeto de estudo na Psicologia, posicionado pela subjetividade, para que essa área de saber alcance legitimidade teórica e prática. Neste caso, a prática seria uma teoria aplicada. Assim, cabe, então, questionar o próprio horizonte técnico-científico onde essa legitimidade é exigida.

Prescindindo da presença obrigatória de um objeto de estudo posicionado pela subjetividade, tentaremos alcançar um espaço anterior à dicotomia sujeito e objeto, ou seja, a existência. Nessa mesma linha de pensamento, tentaremos defender a unidade do saber- fazer na Psicologia, sem, com isso, retirarmos dessa área de estudo o seu rigor e a possibilidade de um campo de prática devidamente reconhecido.

A questão da exigência da determinação do objeto pelo sujeito para que uma específica área de estudo seja considerada científica é motivo de debate entre os estudiosos do tema. Após acompanhar, em parte, esse debate, iremos junto à Filosofia, que pretende encontrar algo da ordem do mais originário do que a relação sujeito e objeto, buscar a originalidade a partir da qual aparece o psiquismo. Assim, acompanhando ao largo esses argumentos, pretendemos encontrar um caminho de reflexão que nos permita colocar os estudos e campo de práticas em psicologia fenomenológico existencial em um espaço, também, mais originário, ou seja, a existência.

É, justamente, o mais originário que a fenomenologia de Husserl (1910/2007a) vai privilegiar como um tema que merece ser pensado. E, ainda, afirma o fenomenólogo que a Psicologia deveria se ater ao estudo da intencionalidade para, assim, retirar toda e qualquer necessidade de se constituir como área de saber que estabeleça posicionalmente, o seu objeto. Heidegger (1927/2013), com a radicalização da intencionalidade até o espaço historicamente constituído, é que vai apontar um caminho para poder pensar um saber em Psicologia em que se torna totalmente desnecessário encontrar um objeto posicionado, delimitado e substancializado.

Acompanhando a fenomenologia e a ontologia fundamental, em, respectivamente, Husserl (1900/2007b) e Heidegger (1927/2013), iniciaremos a trilhar um caminho possível para propor um saber em Psicologia que prescinda totalmente de um objeto posicionado. Cabe ressaltar que não pretendemos dispor dessas filosofias como uma aplicação direta para a Psicologia. Se assim fosse, estaríamos apenas substituindo as bases teóricas. Pretendemos apenas seguir à margem (Campos, 2014) do caminho tomado por essas filosofias, para nos apropriarmos de modo autônomo de uma Psicologia que busca suas bases no ato mesmo de existir. Trata-se, portanto, de seguir os passos argumentativos dessas filosofias para conquistarmos nossos objetivos. Assim, não só suspenderemos as verdades estabelecidas pelas vigentes teorias em Psicologia, que partem de visadas que pressupõem uma natureza humana, tomadas como objeto posicionado pela subjetividade e assentado em uma substancialidade, mas, também, consideraremos que a não substancialidade torna possível uma reconfiguração historicamente constituída. Com as pistas indicadas pela fenomenologia e pela ontologia fundamental, retiramo-nos da necessidade de manter um objeto posicionado subjetivamente para os estudos em Psicologia, e passamos a referir-nos aos campos intencionais, que aparecem não só temporalmente, mas também como espaços hermeneuticamente condicionados.

Por fim, para tomarmos um caminho de acesso ao fenômeno, procederemos hermeneuticamente na apropriação do elemento originário da Psicologia, ou seja, a existência. Seguiremos a trilha para a qual Heidegger (1929/2006) nos acena em sua fenomenologia hermenêutica. Para tanto, trataremos de relembrar e refletir sobre a atmosfera de críticas e de ceticismo que envolve o saber-fazer em Psicologia.

Além dos questionamentos dirigidos à Psicologia em seus pressupostos teóricos, seu campo de práticas também é colocado em questão. Às vezes, o seu fazer torna-se alvo de crítica uma vez que por não garantir a definição e o posicionamento de um objeto, não pode elencar os elementos que viabilizem uma prática (Canguilhem, 1999). Outras vezes, a crítica aponta para o fato de que seu objeto é algo da ordem do arbitrário. Logo, é a prática da psicologia, que ao tomar seu objeto de modo arbitrário, seja ele o psiquismo, o self ou o comportamento, torna-se alvo de questionamentos. Nessas críticas, fica claro que é exigido da Psicologia algo como a dicotomia entre a teoria e a prática, tal como determina o modelo das ciências pragmáticas. Novamente, é em Heidegger (1927/2013) que vamos buscar o caminho que nos traz elementos que irão permitir o rompimento com a necessidade de que se estabeleça uma dicotomia entre teoria e prática. Ainda, é esse filósofo, ao apontar para algo mais originário, que nos esclarece sobre as bases que dão sustentação para o aparecimento dessa dicotomia.

Com base na discussão de Heidegger (1927/2013) sobre o primado da prática e da prescindibilidade de posicionamento de seu objeto, é que vamos defender que, para pensarmos em um saber em Psicologia na unidade com seu campo de práticas, prescindimos de qualquer modelo teórico anterior à prática. É por esse caminho que pensaremos o saber-fazer da psicologia existencial e mais especificamente, da psicologia clínica.

Cabe esclarecer, portanto, que a questão que tentaremos responder, neste estudo, é em que medida se torna possível articular um saber e um fazer em Psicologia, prescindindo da necessidade de se estabelecer para essa área de saber um objeto posicionado, definido e delimitado espacial e temporalmente pela subjetividade? E, ainda, dando continuidade a essa questão, esclarecer, também, como é possível sustentar um campo de práticas na clínica psicológica, uma vez que se prescinde de um objeto posicionado pelo sujeito do conhecimento? Na tentativa de preparar um espaço de investigação para o desdobramento das questões propostas, procederemos por meio de uma revisão da literatura em que estudiosos do tema se posicionam criticamente, como Canguilhem (1999), Garcia Roza (1977) e Figueiredo (1995; 1996). Mostraremos, primeiramente, as diferentes posições críticas com relação à Psicologia tanto nas suas formulações teóricas quanto ao seu campo de práticas, no que se refere à prescindibilidade ou imprescindibilidade de um objeto de estudo posicionado pelo sujeito.

Por meio de uma revisão da literatura das obras dos filósofos Edmund Husserl (1900/2007a; 1910/2007b; 1913/2006, 1936/1989) e Martin Heidegger (1920/2010; 1927/2013; 1929/2006; 2001; 1947/1987; 1957/ 1991; 1959; 1958) acompanharemos seus argumentos ao prescindirem da noção de sujeito substancializado, portanto, de um objeto definido em sua materialidade para seus estudos filosóficos sobre, respectivamente, a consciência e a existência. Esses mesmos argumentos serão tomados como o caminho que deveremos trilhar para poder, em Psicologia, também pensar a possibilidade de desenvolver, com rigor, um saber e um fazer que prescindam de um objeto posicionado.

Assim, com esta investigação, pretendemos dar continuidade a pesquisas realizadas anteriormente (Feijoo, 2000; 2009; 2011; 2012) e continuar a esclarecer o porquê e o como a psicologia existencial pode se estabelecer como um campo de saber e de fazer sem ter que, necessariamente, corresponder aos critérios de objetividade substancializada e posicionada que lhe são, a todo o momento, reivindicados. E, ainda, que na fenomenologia de Husserl e na ontologia fundamental de Heidegger podemos encontrar um caminho de pensamento mais originário, caminho esse que em diálogo como as determinações do mundo moderno (Era da técnica), poderá contribuir para outro posicionamento em psicologia clínica, diferente dos que se articulam dedutivamente ou empiricamente. A esse caminho denominaremos aqui existencial, tal como fizemos nas pesquisas anteriores mencionadas acima.

II – Objetivos

2.1. Objetivo geral:

Pretendemos, com este projeto, apontar para outra possibilidade mais originária de elaborar uma Psicologia prescindindo da necessidade de estabelecer um objeto posicionado, definido e delimitado espacialmente. Assim, deslocando-nos da necessidade de posicionamento de um objeto de estudo, tentaremos alcançar, primeiramente, o campo intencional em sua objetividade, no qual acontece a dinâmica existencial, anterior a qualquer perspectiva dicotômica - consciência e objeto - por isso mais originária. Em segundo lugar, tomaremos o campo existencial em sua reconfiguração historicamente constituída, para alcançar o espaço mais originário da existência, anterior a qualquer dicotomia homem e mundo, teoria e prática. Uma vez estabelecida essa outra configuração para a Psicologia, ou seja, a prescindibilidade de um objeto posicionado pelo sujeito, o primado da prática e a historicidade, pretendemos esclarecer sobre a possibilidade de uma perspectiva clínica em Psicologia que, sem perder o rigor, aponte para uma clínica psicológica em que o saber-fazer possa prescindir de um objeto posicionado e substancializado, de uma teoria que sustente a sua prática e, ainda, considere a situação do homem em sua historicidade.

2.2. Objetivos específicos:

1- Reconstruiremos as críticas dirigidas à psicologia, tanto por parte dos filósofos quanto dos próprios psicólogos, que apontam para a impossibilidade dessa área de estudo se constituir como ciência e suas aplicações, uma vez que não oferece de modo posicionado e definido o seu objeto. Ao mesmo tempo, apresentaremos os argumentos de filósofos e psicólogos em defesa da não necessidade de posicionamento de um objeto para que a Psicologia se estabeleça como ciência de rigor; 2- acompanharemos o percurso de Husserl no que diz respeito ao seu método fenomenológico e ao modo como ele retira a consciência de uma substancialidade interiorizada e passa a pensá-la não mais como objeto posicionado, mas como algo que se dá em um campo espacial e temporalmente constituído; 3- em Heidegger, buscaremos a radicalização da consciência intencional de Husserl, para chegarmos à existência que, não se constituindo mais como objeto posicionado, poderá ser alcançada em sua reconfiguração histórica; 4- acompanhando, lado a lado, o percurso de pensamento de Heidegger, sobre a configuração da existência em sua historicidade, discutiremos aquilo que Heidegger(1958) denomina de Era da técnica. Assim, poderemos recuar frente à determinação hegemônica da psicologia clínica em seu caráter tecnocrata, abrindo espaço para propor e exemplificar uma psicologia clínica que atue em uma perspectiva do cuidado de si (Mattar, 2014). Assim, abre-se a oportunidade de pensar a clínica que escuta a possibilidade de configurações existenciais dissonantes, ou seja, escuta a diferença. Clínica esta que resguarda o espaço do pensamento que medita e que não tem pretensões de chegar a um lugar determinado, apenas resiste, sabendo que a resistência é uma tarefa contínua; 5- por fim, pretendemos, no período de três anos, com os resultados das pesquisas realizadas, elaborar textos próprios do qual resultarão quatro artigos (as sinopses se encontram nos itens 6.1; 6.2; 6.3;6.4) em revistas indexadas e um livro (sinopse 6.5) que será submetido à Qualis livros.

III - Relevância do estudo

Sabemos que a psicopatologia, em meados do século passado, tomou a fenomenologia de Husserl e a ontologia fundamental de Heidegger para pensar outras bases de sustentação da psiquiatria e da psicoterapia. Os estudiosos que se dedicaram ao tema, acompanhando as obras dos filósofos e considerando as suas práticas clínicas, foram, principalmente, Ludwig Binswanger (1971; 1973) e Medard Boss, (1959; 1976; 1988). No entanto, esses estudos acabaram se limitando, por muito tempo, a grupos restritos. Estudos e pesquisas em Psicologia que tomam as obras de Husserl e/ou de Heidegger, aliados à prática clínica têm sido, no Brasil, foco de atenção nesses últimos anos, como podemos constatar em Cancello (1991), Feijoo (2000; 2009; 2011; 2012); Sá (2007; 2008; 2009), Gotto (2008), Holanda (2012), Tatossian e Moreira (2012), Mattar (2008; 2014), Evangelista (2013), Brito, Morato e Caldas (2013). Dentre os estudiosos do tema na América Latina, temos no México, Robles (2012), na Argentina, Signorelli (2011) e Correa e Chacón, na Colômbia (2011). E, ainda, nos Estados Unidos, podemos conferir essa relação nos trabalhos de Starolow e Atwood (1992). Na França, essa discussão foi tematizada com Henry (2007). Frente ao exposto, poderíamos até questionar a pertinência de se desenvolver mais um estudo a esse respeito. No entanto, dada a situação dispersa em que os estudos em psicologia existencial se encontram e, ainda observando as datas recentes das publicações sobre o tema, constatamos que se trata de um campo de estudos disperso e de investigação recente. Por tais motivos, acreditamos manter-se, ainda, a necessidade de debater, ampliar e aprofundar os estudos nessa área, principalmente, no que diz respeito à clínica.

Um terceiro motivo para que continuemos as investigações em psicologia clínica diz respeito ao fato de que se a Psicologia, como área de saber, há muito vem sendo problematizada, com os seus campos de atuação não vem acontecendo de forma diferente, principalmente, no que diz respeito ao fazer clínico. Holanda (2012) afirma: “Como se percebe, não se está falando de um ‘campo marginal’. O campo das psicoterapias é constitutivo do fazer psicológico” (p.73). O autor nos chama a atenção para a necessidade urgente de pesquisas e debates sobre a psicoterapia ou psicologia clínica (Inclusive, esse autor nos alerta sobre a utilização desses dois termos de forma indiscriminada). Diz, ainda, que embora a clínica seja uma área de atuação muito praticada, em termos de reflexões e pesquisas deixa muito a desejar.

Dada a escassez de reflexões e pesquisas no campo da psicologia clínica, como afirma Holanda (2012): “Mesmo sendo central na determinação e constituição da própria profissão, foi um dos campos que menos conheceu ações concretas de debate, pesquisas e discussão no seio da categoria” (p.73), pretendemos, nesta pesquisa, buscar as condições de possibilidades que sustentam a psicologia clínica como área de saber-fazer em Psicologia. Para tanto, iniciaremos a discutir de que modo poderemos prescindir de um objeto posicionado e definido para dar base e sustentação àquilo que pretendemos estudar, ou seja, a unidade do saber-fazer em Psicologia.

Por fim, o que estamos tentando defender, neste projeto, é outra possibilidade de um saber-fazer em Psicologia que possa prescindir da exigência da presença de um objeto posicionado pelo sujeito ao qual um determinado saber possa se dirigir. Assim, poder legitimar um saber e um fazer que, mesmo não seguindo os critérios das ciências positivistas, possa se fazer valer como um saber rigoroso. E, ainda, poder sustentar um fazer em Psicologia, especificamente, em psicologia clínica existencial, que, mesmo não se constituindo como um meio para atingir um fim determinado, possa mostrar-se como um espaço de ação que sustenta a possibilidade de transformações.

IV – Problematizações

As questões que se apresentam com a proposta de um saber-fazer em Psicologia que leve em consideração as determinações historicamente constituídas, portanto, prescindindo de um objeto posicionado pela subjetividade, são: 1- Como é possível apropriar-se da Filosofia, tal como desenvolvida por Husserl e Heidegger, para assim encontrar outro espaço para tecer argumentos a favor de uma Psicologia anterior a toda a epistemologia? 2- Até que ponto estaria garantido um rigor nessas formulações? 3- Como sustentar uma prática clínica em que o saber-fazer prescinda totalmente de um objeto posicionado e substancializado e de uma teoria que sustente essa prática? 4 - Como esse saber-fazer se apresenta em sua concretude existencial, ou seja, no espaço destinado à clínica psicológica propriamente dita? 5- Dado que não pretendemos resultados efetivos e, sim, rearticulações existenciais, nas quais cada um possa ficar frente a frente com o caráter trágico, vulnerável e finito da existência, cabe perguntar como poderemos sustentar esse fazer: o que fazer frente à situação em que uma pessoa traz um problema que a impossibilita, por exemplo, de levar a cabo sua vida profissional, pois, encontra-se, totalmente, tomada por um medo que a imobiliza? Ou, ainda, como o clínico se coloca frente a uma pessoa que chega totalmente tristonha, desinteressada, querendo desistir da vida pelo fato de ter sofrido toda a sorte de situações que não permitiram que suas idealizações fossem conquistadas? O que fazer quando a pessoa em desespero, não vendo saídas para a situação em que se encontra, pede ao clínico que lhe dê saídas? Será para essas questões que pretendemos, primeiramente, tecer argumentos e, em seguida, por meio de apresentações de situações concretas na clínica, podermos encaminhar esclarecimentos outros que não sejam da ordem de um saber moralizante, mas ao contrário, da ordem da libertação das determinações historicamente constituídas que nos aprisionam em um modelo de comportamento que vige.

V – Método

Fogel (1998) esclarece, acerca do método da Filosofia: “O ‘metá’ contido em ‘método’ (metà-hodós’) diz ‘de acordo com’ ou ‘junto de’ o caminho” (p.29). Acompanhando os passos da filosofia na conquista de um método, seguiremos tomando o método como um lugar no qual o caminho da investigação co-pertence ao tema investigado. Para conquistarmos o espaço que denominamos mais originário, ou seja, anterior a qualquer compreensão teórica, no qual a existência se dá, iremos acompanhar os passos seguidos pelos filósofos Husserl e Heidegger, que empreenderam essa mesma tarefa, ao procederem em suas investigações acerca, respectivamente, das temáticas: da consciência e da existência em sua facticidade. O método com o qual prosseguiremos a investigação sobre o saber em Psicologia com a sua modalidade prática será o fenomenológico, tal como idealizado por Husserl, e hermenêutico, do modo como foi apropriado por Heidegger. Para tanto, ao acompanhar Husserl, teremos que primeiramente suspender toda e qualquer perspectiva em Psicologia que tome para seus estudos um objeto definido em suas propriedades e limitado espacialmente. Após tal procedimento, deixaremos que aquilo que constitui o espaço de estudo da Psicologia apareça em seu campo de aparição.

Ao acompanhar Heidegger (Stein, 1983), partimos da ideia de que, para investigar um fenômeno, temos que ter em mente que não é possível promover uma diferenciação entre caminho de pensamento (método), o que se pretende pensar (tema) e o próprio ato de pensar (pensamento). Cabe ressaltar que essa tríade na investigação constitui-se em uma unidade indissociável, sem nenhuma mediação. E é tendo em mente essa tríade que iremos percorrer um caminho rigoroso de investigação para poder defender a unidade do saber- fazer em Psicologia.

5.1. Metodologia

A partir da leitura detalhada dos autores que tecem considerações críticas à Psicologia, das obras de Husserl e Heidegger relacionadas ao tema, bem como da literatura que versa sobre as propostas de psicologia clínica na perspectiva existencial, iremos construir uma explanação de uma psicologia que prescindindo de um objeto posicionado pelo sujeito possa se constituir como um saber-fazer em Psicologia:

5.1.1.Leitura/releitura e estudos dos textos que elaboram uma posição crítica à

Psicologia;

5.1.2.Ampla pesquisa bibliográfica e leitura crítica de bibliografia secundária que já contemple as elaborações de uma clínica psicológica existencial.

VI – Revisão da Literatura

6.1. A constituição de um saber em psicologia

Para avançar na discussão acerca das condições de possibilidade da clínica na unidade do saber-fazer em Psicologia, primeiramente, temos que elencar as críticas favoráveis e desfavoráveis à Psicologia frente ao modo como este saber põe seu objeto. Cabe então perguntar: É possível a constituição de uma ciência psicológica que prescinda de um objeto posicionado pelo sujeito?

6.1.1. A impossibilidade da constituição da Psicologia como saber

Os filósofos voltados para a filosofia da ciência, como Immanuel Kant (1724-1804) e August Comte (1798-1857) já se referiam à impossibilidade de constituição dessa disciplina. Kant constrói uma epistemologia de base transcendental; por isso não pergunta pelo objeto, mas pela possibilidade de conhecimento do objeto. Os argumentos de Kant (1781/2001) com relação à insustentabilidade dessa área de saber, como disciplina científica, dirigiam-se ao fato de que o objeto temático dessa disciplina, a saber, a alma, poderia ser postulado, no âmbito prático, mas não poderia objetivamente ser cognoscível. Desse modo, a alma não poderia ser tomada como objeto científico. O conceito de alma que sustentava a psicologia racional e empírica não possuía fenomenalidade. Logo, não poderia ser acessado fenomenicamente, concluiu o filósofo que o objeto de estudo dessa área de saber não seria passível de alcance. August Comte (1830/1991) construiu uma epistemologia positiva, perguntando pelo modo como se devem descrever as positividades do objeto empírico. Com a sua exigência da positividade inerente ao objeto de estudo, descartou totalmente a possibilidade da construção de uma teoria voltada para o estudo do psiquismo. Defendeu o positivista que, se o objeto da Psicologia tivesse sua base na Fisiologia, essa área de estudo seria desnecessária uma vez que a Biologia a ela já se dedicava. Se o seu objeto fosse o social, essa área de estudo já estava sendo contemplada pela Sociologia.

Logo, considerando os argumentos de Kant e Comte (ambos oriundos da epistemologia) desde a fundação das disciplinas científicas, a Psicologia não poderia se constituir como ciência, uma vez que apresentava ou o problema do acesso por via da dedução do seu objeto específico, ou não possuía um objeto para o qual dirigir empiricamente os seus estudos. O primeiro elaborou uma epistemologia transcendental, preocupado com a condição de possibilidade de conhecimento do objeto. O segundo construiu uma epistemologia positiva voltada para o dado empírico. Assim, de acordo com esses dois filósofos, a Psicologia como área de saber ficaria totalmente inviabilizada.

6.1.2 A proposta de um saber em Psicologia sem objeto posicionado pela subjetividade

Por outro lado, alguns filósofos defenderam e argumentaram a favor de uma Psicologia por acreditarem que essa área de estudo continha um especial e rico alcance, justamente, pelo fato de prescindir de um objeto constituído de modo posicionado e delimitado. Sören Kierkegaard (1813-1855), primeiramente, em O conceito de angústia (1844/2010), teceu considerações críticas sobre o modo como a Psicologia tomava seu objeto, bem como ao modo como esta ciência observava o seu fenômeno. Segundo Kierkegaard (2010), os psicólogos de sua época tentavam estabelecer seu objeto por meio de algo da ordem do concreto. E foi exatamente essa tentativa que inviabilizou que esse saber se tornasse uma ciência. Afirmou, ainda, que essa ciência tinha o direito, mais do qualquer outra, de se “embriagar com a variedade esfuziante da existência” (Kierkegaard, 1849/2008, p. 27) e, por meio disso, estabelecer-se como saber. Como método, dizia o filósofo dinamarquês, a Psicologia dedicava-se a descrever, exaustivamente, o seu objeto e, depois, entregava-o à dogmática – ciência explicativa. Nessa mesma obra, defendeu a tese de que o objeto da Psicologia é a angústia como possibilidade para a possibilidade, portanto, não se constituiu como objeto substancializado nem passível de delimitação, pois dele só poderíamos alcançar as suas expressões.

Edmund Husserl (1849-1936), em A filosofia como ciência de rigor (1910/2007b), criticava a psicologia empírica que vinha se estabelecendo desde o início do século XVIII, e tinha como modelo o método científico-natural a reboque do método físico-químico. Husserl (2007a) se perguntava como os dados da experiência poderiam alcançar uma caracterização objetivadora do fenômeno. Assim, Husserl retirou o objeto da Psicologia do campo das epistemologias e defendeu a intencionalidade como o espaço a que o psicólogo deveria se ater. Para Husserl (2007b), a lida com o fenômeno possui o caráter apodítico de qualquer proposição objetiva pensada, tradicionalmente, pela Filosofia. Por isso, as proposições fenomenológicas não são aleatórias, nem destituídas de assertividade. Seu objeto não é posicionado pela subjetividade, porém os campos intencionais possuem sua objetividade. Disto é que advém o caráter apodítico das descrições fenomenológicas. E é por esse viés que podemos pensar em uma Psicologia com bases fenomenológicas.

6.2. A Psicologia e seus objetos de estudo

Embora encontremos posições que avaliam como desnecessárias uma definição da Psicologia e do posicionamento de seu objeto, por outro lado, predominam os estudiosos que saíram em defesa da possibilidade teórico-prática da Psicologia. Eles tentaram, de todas as formas, mostrar sua viabilidade. Na tentativa de corresponder à exigência da ciência de que toda disciplina científica, para que fosse considerada como tal, tivesse seu objeto posicionado e definido, os estudiosos da Psicologia procuraram seu próprio objeto com suas determinações. Ora eles caminharam na direção da manutenção de um substrato biológico que desse sustentação ao psicológico, ora apontavam para sua gênese em um substrato ambiental ou social ou, ainda, pela conquista da autonomia do seu objeto, criando ou descobrindo o psiquismo com suas determinações e propriedades.

Nesse esforço despendido pelos estudiosos da Psicologia para constituir sua área de saber e assim poder sustentar suas práticas, surgiu uma multiplicidade ilimitada de sistemas, correntes e teorias em Psicologia. Para defender a viabilidade de uma ciência psi, esses estudiosos, oriundos de diferentes áreas do saber (entre elas, Medicina, Biologia, Sociologia e Filosofia), articulavam axiomas e corolários. Surgiu, assim, uma verdadeira polissemia com relação a essa área de estudo, abrindo um espaço para que esse saber estivesse sempre sob suspeita (Mattar, 2011). E, ao mesmo tempo, surgiram muitos estudiosos tentando esclarecer o lugar e viabilidade dessa área de estudos. Dessa forma, para citar as perspectivas que mais se fizeram reconhecidas nos estudos da Psicologia, surgiram a psicanálise, o behaviorismo e o humanismo. As três, ao seu modo, mantiveram sua especificidade no que diz respeito ao seu objeto de estudo, permanecendo, assim, diretamente de acordo com as vertentes epistemológicas que sustentavam em seu cerne a dicotomia sujeito e objeto; teoria e prática.

Em 1956, quando a psicologia já acreditava que havia estabelecido sua área de saber e as diferentes vertentes haviam se estabelecido com seu objeto posicionado e seu método, George Canguilhem novamente pôs essa disciplina em questão, ao proferir uma conferência no Collège Philosophique, publicada em 1958, na Revue de Métaphifique et de Morale, referindo-se à indefinição dessa área de estudo e também pondo em dúvida a eficácia do psicólogo. (Canguilhem, 1999). Canguilhem pressupõe a dicotomia entre a teoria e a prática e avalia que a psicologia por sua indefinição, mantém uma eficácia, totalmente, infundada. Sobre isso, defendeu (1999): “De fato, de muitos trabalhos da Psicologia, se tem a impressão de que misturam uma filosofia sem rigor, uma ética sem exigência e uma medicina sem controle” (p.104). Portanto, em Canguilhem, para que a Psicologia pudesse conquistar um espaço de reconhecimento, seria imprescindível que ela se constituísse com rigor, no entanto, superando um “certo empirismo compositório, literalmente codificado para fins de ensino” (Japiassú, 1995, p.17).

6.3. A Psicologia na pluralidade de seu saber-fazer

A partir da problemática levantada por Canguilhem, proliferaram os posicionamentos contra e a favor da tentativa de posicionamento e definição do objeto da Psicologia, bem como da necessidade de uma teoria cientifica que sustentasse sua prática. No Brasil, dentre os muitos textos a esse respeito, a publicação de Garcia Roza (1977) ganhou notoriedade. Ele polemizou a pretensão da Psicologia na conquista de uma unidade como campo de saber científico e conclui seu pensamento, defendendo a manutenção da pluralidade desse campo de saber que se faz presente em seu fazer.

Atualmente, de modo diverso, Rauter (1995) compartilha da tese de Garcia Roza (1977), defendendo que a Psicologia para resguardar o espaço paradoxal de sua função, não devendo ter pretensões em estabelecer uma identidade fixa para essa área de saber. Cecília Coimbra (1995) coloca-se radicalmente contra ao movimento da Psicologia como área de especialização, bem como do psicólogo em seu fazer de especialista. Figueiredo (1995; 1996), frente à crise do modelo epistemológico, questiona se a Psicologia poderia, sem esse modelo, justificar-se teórica e praticamente. Ele aponta, então, para a dimensão ética como uma nova via de sustentação para o saber-fazer em Psicologia.

Primeiramente, pensaremos o saber-fazer em uma perspectiva não dicotômica que, para tanto, teria que prescindir de um objeto posicionado e delimitado de estudo. Cabe esclarecer o que é esse saber-fazer na prática clínica? Saber-fazer é uma tentativa de tradução daquilo que os gregos chamam de techné, ou seja, é aquilo que o marceneiro faz quando produz uma mesa, porque é de posse da episteme da verdade do que é a mesa que ele sabe fazer a mesa. Trata-se de uma prática condicionada por um conhecimento que requer prudência, no sentido de quanto mais experiência, maior a conquista de seu saber. Não há uma medida definida nem aquém, nem além desse fazer. Tratar-se-ia de um saber específico que se conquista no próprio fazer–ofício? Para responder a tais questões, precisamos primeiramente esclarecer como aconteceu o emergir da subjetividade como objeto da Psicologia, como faremos a seguir.

6.4.A crise das filosofias da subjetividade e o emergir da fenomenologia e da hermenêutica na Filosofia e na Psicologia

Todas as tentativas de circunscrever a subjetividade, seja no âmbito da Filosofia, seja no âmbito da Psicologia, são alvo de críticas dirigidas a essa forma de propor o problema. No século XIX, as filosofias da subjetividade entram em crise. A questão passa a ser sobre como, uma vez estabelecida a cisão sujeito e objeto, poderemos sair do âmbito de uma interioridade - sujeito, para acessar, verdadeiramente, o objeto que se encontra na exterioridade. Nesse percurso, pode acabar por acontecer uma falsificação do objeto. O mesmo equívoco com relação ao acesso pode estabelecer-se, no caminho contrário, com o objeto empiricamente dado para dar-se a conhecer pelo sujeito. Com esse impasse, urge a necessidade de discernimento do que ocorre com relação ao acesso.

6.4.1. A fenomenologia de Husserl como resposta à crise e a psicologia fenomenológica

O embate entre o idealismo e o realismo, na busca do espaço onde podemos encontrar as verdades universais já é encontrado na Grécia Antiga. É no momento em que o realismo e o idealismo entram em crise, por não resolverem o problema do acesso ao conhecimento, que se abre um espaço propício ao surgimento da fenomenologia tal como pensada por Husserl (1936/1989; 1913/ 2006; 1901/2007). E, assim, Husserl nos oferece a fenomenologia como método, afastando-se de qualquer perspectiva idealista ou realista. Esquivando-se das aporias das coisas empiricamente ou dedutivamente, propõe a intuição, anterior a qualquer dicotomização, como fonte do verdadeiro conhecimento. Em síntese, Husserl propõe fazermos uma ciência de rigor, prescindindo totalmente da ideia de objeto posicionado pela subjetividade, logo, da dicotomia que se estabeleceu nas aporias realistas e idealistas.

Dado o vínculo que o saber em Psicologia tinha estabelecido com as filosofias da subjetividade, a busca de um maior discernimento com relação ao problema do acesso que se instaura no interior da Filosofia resvala para o interior dos saberes em Psicologia. Por esse motivo é que proliferam os debates deste saber. E, neste projeto, tentaremos apontar para outra possibilidade de se articular o saber e o fazer psi que opere, primeiramente, pelo caminho traçado por Husserl. Da mesma forma, que Husserl, com sua fenomenologia, responde à crise dos universais, que se instaura tanto no realismo quanto no idealismo, trataremos, paralelamente, aos argumentos de Husserl, de encontrar as possibilidades de saída da crise em que se encontram as teorias em Psicologia.

A tentativa de constituir um objeto posicionado e limitado é justamente o que coloca sob suspeita (Mattar, 2011) as psicologias. Husserl (1936/1989) nos chama a atenção para a necessidade de ir além da dicotomia sujeito e objeto pelo fato de que foi essa cisão o motivo pelo qual a crise da filosofia da subjetividade se instaurou. Seguindo em paralelo a trilha do caminho percorrido por Husserl para a superação da crise dos universais, é que defendemos que a Psicologia precisa discernir que o que ela vem instituindo como objeto não tem objetualidade nenhuma. Por esse motivo que, pensar em uma psicologia no caminho da fenomenologia consiste em, um primeiro momento, colocar em questão os discursos da psicologia com relação aos seus objetos. Considerando que a exigência de posicionamento do objeto é o que coloca em crise os discursos teóricos, bem como as práticas da psicologia, precisamos abandonar a necessidade ilusória de operar com objetos posicionados e substancializados. Só assim poderemos pensar em meio aos campos intencionais, logo, sem determinação atemporal e sem substancialidade espacialmente definida.

6.4.2. A Psicologia em um espaço hermeneuticamente configurado

Porém, o que estamos tentando defender como outra possibilidade de saber-fazer em Psicologia ainda não se esgota com Husserl e a sua proposta de fenomenologia, que ele mesmo denominou de psicologia fenomenológica. A nossa proposta não só suspende as verdades estabelecidas pelas teorias em Psicologia que partem de visadas que pressupõem uma natureza humana, tomadas como objeto assentados em uma substancialidade, como também considera que a não substancialidade torna possível uma reconfiguração historicamente constituída. Os campos intencionais aparecem não só temporalmente, mas também como espaços hermeneuticamente condicionados. Para tomar o caminho no sentido hermenêutico, seguiremos, na constituição de nossa psicologia, a trilha para a qual Heidegger nos acena em sua fenomenologia hermenêutica.

Cabe lembrar que a tentativa de pensar a clínica psicológica com as considerações heideggerianas não é privilégio deste trabalho. Storolow e Atwood (1992) pensaram essa relação com aquilo que eles mesmos denominaram de psicanálise moderna.

6.5. O caráter epocal da clínica psicológica

Para pensar em uma clínica psicológica com bases existenciais, teremos que trabalhar com campos intencionais historicamente constituídos, podendo, dessa forma, subtrair totalmente a necessidade de operarmos com um objeto próprio à Psicologia. Ou melhor, tomar seu objeto como totalmente destituído de realidade, ou seja, aquilo que aparece no campo hermenêutico: a existência. Consideramos que é preciso, para articular uma proposta em Psicologia nessas bases, descrever as concreções existenciais condicionadas pelos envios historiais. Nesse sentido, a Psicologia que queremos pensar não parte de objetividades categoriais, mas sim, como propõe Heidegger (1920/ 2010), de indicativos formais: "Na metodologia chamamos de indício formal (Formale Anzeige) o emprego de um sentido que guia a explicação fenomenológica. Aquilo que o sentido formalmente indicado traz constitui o horizonte no qual os fenômenos que se pretende distinguir serão vistos." (p.52). Isso, no entanto, sem emitir opiniões, nem nada que traga pressuposições ou preconceitos acerca daquilo que se pretende analisar.

Seguir os indicativos formais quer dizer partir de indícios, forma, que só ganha materialidade na existência ou na história. O acontecimento-apropriativo constitui a identidade–forma que vai conquistar a diferença com a materialidade historicamente constituída, para assim preencher o sentido, que será sempre epocal, ou seja, conquistado na existência. Para pensar o mundo que é o nosso ao qual Heidegger denomina Era da técnica, entendemos que é por meio da materialidade, ou seja, das determinações desse mundo, que acontece a cadência daquilo que conduz nosso modo de ser. Logo, são as determinações da técnica, tais como: efetivação, funcionalidade, correção, que preenchem existencialmente o acontecimento-apropriativo, que é o nosso. Assim, a clínica psicológica aparece como uma modalidade de atuação institucionalizada no mundo da técnica: Gestell. Nesta, a atuação clínica nasce com a ideia de interioridade, verdade, correção, poder pastoral, funcionalidade, superação. Em síntese, a clínica psicológica surge na Gestell – provocação - caráter histórico epocal que propicia seu aparecimento.

Considerando os esclarecimentos acima e, com base no saber que se instaura por meio da fenomenologia hermenêutica, cabe agora perguntar sobre o fazer clínico: como passar a fazer uma clínica em que, hegemonicamente somos interpelados a lidar com esse outro em uma ordem provocativa tomada como natural? Como essa experiência para a qual somos provocados pode se modificar para nessa tarefa podermos conquistar uma condição de liberdade? Como corresponder a outro apelo? Como manter-se na experiência fenomenológica (dar um passo atrás) na medida em que somos provocados pelo mundo que é o nosso, onde impera a Gestell?

Vale aqui acompanhar o caminho seguido por Heidegger quando desafiado a pensar sobre o caráter de duplicidade, que se encontra naquilo do qual a técnica se origina. Heidegger (1958), ao citar Hölderlin, diz: “Mas onde há perigo, cresce também a salvação” (p.91). Podemos, lado a lado, ao percurso de pensamento de Heidegger sobre a técnica, pensar que no lugar onde nasce a psicologia clínica tecnocrata, também medra a possibilidade de pensar o que resiste, ou seja, uma psicologia do cuidado de si. Assim, abre-se a oportunidade de pensar a clínica em sua duplicidade: a tecnocrata e a que resiste ao domínio da técnica, ou seja, que escuta a possibilidade de configurações existenciais dissonantes. Clínica esta que resguarda o espaço do pensamento que medita e que não tem pretensões de chegar a um lugar determinado, apenas resiste, sabendo que a resistência é uma tarefa contínua.

Não pretendemos, com este trabalho demonizar (Heidegger, 1957/1991) ou encontrar um caminho de superação da técnica, mas sim saber que esse é o nosso horizonte de constituição de sentidos e determinações. Trata-se de deixar estar no horizonte da técnica, deixar aparecer o caráter epocal, que é o nosso, para - ao mesmo tempo - poder estar nele, sem ser dele, sem deixar subtrair-se por ele, ou seja, para não estar nele ao modo do autômato. Frente a essa afirmativa, surge imediatamente outra questão: como esse saber- fazer se apresenta em sua concretude ôntica no espaço destinado a clínica psicológica, propriamente dita?

Todas essas questões, acima descritas, só se tornam problemas quando não se pode contar com uma teoria que sustente uma prática, no sentido de que possamos saber de antemão como vamos conduzir aquele que nos pede orientação. Obviamente, não iremos saber como conduzir o outro, pois isso implicaria em ter uma verdade previamente estabelecida, para assim tomar o lugar do outro em suas decisões e decidir por ele. Mas essa resposta mesma já nos indica um caminho a seguir, ou seja, uma vez assumindo que não se têm respostas, saber que não há como responder. Por outro lado, a pergunta que nos foi encaminhada já nos implica no processo. Não tenho como respondê-la, mas tenho como sustentá-la de modo que aquele que pede respostas possa alcançar o seu próprio caminho na condução de sua tensão. Isso significa que o encaminhamento do clínico, em uma perspectiva existencial, não se orienta em um sentido que aponta para uma positividade. Ao contrário, ele pretende que uma vez mantendo o espaço de negatividade, que o outro assuma e tome para si o seu caráter de liberdade e, portanto, de possibilidades.

Pensamos poder mostrar que, para um saber-fazer clínico prescindimos da necessidade da constituição de um objeto bem como de uma teoria que sustente uma prática. Mattar e Sá (2008) compartilham com a proposta deste estudo quando afirmam que para sustentar um espaço para a realização de uma clínica existencial devemos atentar- nos em que:

Uma vez que as demandas do sofrimento existencial, endereçadas à clínica psicoterápica, cada vez mais estão relacionadas ao nivelamento histórico de sentido que pode ser computado no cálculo global de exploração e consumo, é imprescindível, para que a psicoterapia possa se constituir em um espaço de reflexão propiciador de outros modos de existir, que ela própria não permaneça subordinada a esse mesmo horizonte histórico de redução de sentido (p.191).

Neste sentido, em outro momento, afirmamos que:

Na clínica existencial, o psicólogo analista apenas participa, mas não comanda, nem determina, nem posiciona. No entanto, a sua participação é decisiva para que aconteça um jogo em que o analista e o analisando abram um espaço de abertura às possibilidades que se encontram obscurecidas, para que essas possam transparecer. Para tanto, esse analista precisa ao menos, como diz Kierkegaard (1987), da adição. Isso quer dizer que já tenha questionado as imposições, orientações sedimentadas ou retóricas hegemônicas presentes em nosso horizonte histórico. Só assim o psicólogo clínico poderá no mínimo não sedimentar ainda mais a retórica, que, no final das contas, nos mantém totalmente aprisionados às determinações hegemônicas desse horizonte (Feijoo, 2012, p. 982).

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03 Maio 2018
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