IFEN - Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro - CRPJ 05/359

O Conceito de Angústia: Súmula da Obra de Sören Kierkegaard

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo 2001

Em 1844, Kierkegaard publicou O conceito de angústia, no qual investiga a temática do pecado. Nesse livro, ele afirma ainda que o pecado se caracteriza pela indefinição e pela constante modificação de acordo com a atmosfera que o rodeia, exigindo da ciência que pretende investigar tal temática clareza, delimitação e finalidade, para que deste modo se possa compreender o conjunto daquilo que se investiga. Uma determinada ciência só poderá harmonizar-se com a ciência como um todo conhecendo seu lugar, sabendo de sua finalidade e reconhecendo seus limites.
A psicologia como matéria cientêfica deve, então, definir e delimitar o que pretende estudar acerca do pecado. Afirma o filósofo que cabe a esta área de estudo não o conteúdo do pecado, mas a sua possibilidade, pois é psicologicamente fora de contestação que a natureza do homem contém a possibilidade do pecado. Kierkegaard afirma, então, que a questão a ser investigada pela psicologia é a angústia frente à possibilidade do pecado.
Partindo da metáfora do pecado original - Adão e Eva -, Kierkegaard sugere a angústia como situação que ocorre a Adão frente à possibilidade de escolha. O pecado original de Adão traz a consciência da culpabilidade, o sofrimento e a angústia. O homem, por sua natureza pecaminosa, posto que lhe é dado escolher, vive na intranqüilidade. A angústia é o sentimento que ocorre diante da possibilidade, caracterizando a situação de liberdade - o homem que é livre, é livre para o pecado. Ela surge em face do real estabelecido e do futuro. Tanto o pecado quanto a liberdade não se dão a partir de nenhuma premissa: a liberdade é infinita e provém do nada, e o pecado não ocorre num processo contênuo como necessidade, e sim em salto e como possibilidade.
Não deve, então, a psicologia tratar o pecado como objeto e sim como ato, dada a constante modificação que é própria do pecado. Ao homem é oferecida a possibilidade do pecado, e neste aspecto a psicologia ocupa-se da existência individual que se dá em movimento, saltos de estado para estado, e em cada estado existe uma esfera de possibilidades, em igual proporção, a angústia.
à psicologia não cabe discutir eticamente o pecado, cabe-lhe estudar as posições psicológicas da liberdade diante do pecado, a não-liberdade pela carência de interioridade ou pela não-consciência, podendo se revelar de diferentes modos: hermetismo, perda somático-psêquica da liberdade, perda pneumática da liberdade. Na posição psicológica do hermetismo, a não-liberdade se faz presente pela ausência de comunicação. é, pois, a linguagem, o verbo, que pode retirar o homem desta posição.
A perda somático-psêquica da liberdade se mostra por uma irritabilidade tensa, por uma hipocondria e, até mesmo, uma histeria. Falta interioridade, e esta se expressa no corpo pela angústia.
Na perda pneumática da liberdade mantém-se a crença na certeza e na imortalidade, forma mais acentuada de não se assumir a angústia. Entende-se o eterno de modo inteiramente abstrato. O homem preso ao temporal não consegue ver concretamente seu limite ou imagina a eternidade de modo metafêsico. A eternidade condicionada ao temporal consiste na situação que o homem teme, e por isso tenta esquivar-se e nem deseja pensar.
A carência de interioridade, pronunciada pela angústia, possibilita que se alcance a consciência do eu. Exercitar a consciência do eu consiste numa atividade que se dá em um processo de compreensão e não em um processo mecânico, e quanto mais concreto é o conteúdo da consciência, mais concreta se faz a compreensão, e, uma vez que falte a consciência, tem-se o fenômeno da não-liberdade.
Enfim, para se escapar da angústia e da liberdade podem-se inventar inúmeros subterfúgios. Porém, é a angustia que constitui o possêvel da liberdade. Na angústia é que surge para o homem a possibilidade de constituir-se certo de sua finitude e conhecedor de suas ilusões.

Referência bibliográfica:
KIERKEGAARD, S. O conceito de angústia. São Paulo: Hemus, 1968.
Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo
Psicoterapeuta em clínica particular, presidente do IFEN,
doutora em Psicologia pela UFRJ e professora da PUC/RJ.

Notas Sobre o Gjentagelsen kierkegaardiano

Leonardo Pinto de Almeida 2001

Principiemos nossa análise pela novela kierkegaardiana editada em 16 de outubro de 1843, La reprise. Neste "pequeno livro", atribuêdo a seu pseudônimo Constantin Constantius, Kierkegaard expõe sua concepção de repetição, que conflitua com a dialética hegeliana, representada pela "mediação". Segundo o filósofo, a "(...) mediação é um nome estrangeiro. Pelo contrário, a gjentagelsen é uma palavra bem dinamarquesa, e eu felicito a lêngua dinamarquesa por este termo filosófico" (Kierkegaard, 1990, p. 87).
Kierkegaard constrói este conceito para criticar a dialética hegeliana. Pois na mediação, um novo momento alcançado abole o precedente, enquanto que, no movimento da dialética kierkegaardiana representada pela retomada, os estádios (estético, ético e religioso) não se abolem.
Nelly Viallaneix, tradutora francesa dessa novela cujo têtulo original é Gjentagelsen, nos explica o motivo de sua escolha pela tradução deste termo filosófico por La reprise, em vez de traduzi-lo, como o antigo tradutor P. H. Tisseau, por La répétition.
Viallaneix ressalta que, "mais comumente, o termo repetição evoca a similitude na reprodução da palavra ou do gesto, a esclerose do hábito, 'o mesmo no mesmo'. Ao contrário, a retomada kierkegaardiana no sentido espiritual, existencial é um segundo começo, uma vida nova, esta nova criatura, reconciliada ('a reconciliação é a retomada sensu eminentori'); é sempre eu, o mesmo, porém sempre outro, a cada instante" (Viallaneix, in Kierkegaard, op. cit., p. 57).
O prefixo Gjen significa de novo, e a segunda parte da palavra é um substantivo forjado sobre o verbo at tage, que significa tomar, por isso a melhor maneira de a traduzir seria "reprise", ou em português "retomada". Kierkegaard utilizou-se desse termo para evitar qualquer referência à palavra latina "repetição".
A história de amor expressa por esse texto tem seu questionamento principal bem ilustrado nas seguintes indagações feitas pelo autor, no primeiro parágrafo: "Uma repetição é possêvel? Que significação ela teria? Uma coisa ganha ou perde ao se repetir?" (Kierkegaard, op. cit., p. 66). A trama é tecida entre quatro personagens: Constantin Constantius, um rapaz, uma moça e Jó. Constantin Constantius conta que um rapaz se apaixonou por uma moça, mas, sofrendo por se ver incapacitado de tornar-se esposo, ou melhor, de concretizar seu amor, pede-lhe conselho sobre como agir. Constantius diz a este jovem para desvencilhar-se dessa relação a que se submetia para, assim, retomá-la de modo diferente, ou melhor, precipitar a perda para repetir o amor. Mesmo recusando tal conselho, o jovem acaba por cumpri-lo, e o efeito dessa ruptura tornou-o não um esposo, e sim um poeta.
Essa história se divide em dois capêtulos: no primeiro, Constantin Constantius relata a história de amor acima referida e resolve ele próprio experienciar a repetição, voltando a Berlim para verificar se ela seria possêvel. Ele faz a "mesma" viagem. Faz o roteiro idêntico ao da ocasião anterior em que foi à cidade de Berlim: mesmo trem, mesmo quarto, mesmo teatro, mesma peça. Entretanto, Constantin não consegue vivenciar a mesma experiência, pois não era o mesmo que antes, nem os lugares eram os mesmos, muito menos seus sentimentos experimentados neste instante da novela. Por isso, a resposta encontrada por ele foi negativa. Nesta parte da história, trata-se de uma falsa repetição (a repetição do mesmo).
O segundo capêtulo recebe o mesmo nome do livro, por tratar diretamente da repetição em questão: a repetição diferencial, a retomada. Por isso, a referência à história de Jó é encontrada nas cartas do jovem a seu confidente. Isto porque, segundo as palavras do jovem, "Jó é abençoado e ele recebeu tudo em dobro - isto se chama uma repetição" (ibid., p. 156). Na história de Jó, vemos a impossibilidade da repetição do mesmo. Nela, a retomada é representada, pois havendo por provação de Deus perdido tudo que tinha, Jó foi posteriormente premiado com o dobro. Só que esse dobro não é nem uma soma do que ele tinha com mais um pouco, nem o mesmo. Seu prêmio, dado por Deus, é marcado pelo advento do novo.
Podemos dizer que a natureza da retomada kierkegaardiana é a diferença que emana desse ato criador no seio da existência. Repete-se, porém com diferença. Uma diferença que não tem uma relação com uma evolução da humanidade apontada pelo movimento racional da história, e sim uma repetição que marca a singularidade existencial (uma reconciliação). No movimento tesmporal da retomada kierkegaardiana não está em jogo a verdade histórica, no sentido hegeliano do termo, mas sim a verdade existencial que leva em conta o fenômeno da angústia.
Para concluirmos nossa reflexão, devemos remarcar a importância deste texto kierkegaardiano, como do corpus crêtico do autor à dialética hegeliana, apontando, deste modo, para uma repetição que não é uma repetição do mesmo, e sim uma repetição que traz a diferença, produzindo, assim, o novo.

Referências bibliográficas:
KIERKEGAARD, S. La reprise. Tradução, introdução e notas de Nelly Viallaneix. Paris: Flammarion, 1990.
PERDIGãO, P. Existência & liberdade. Porto Alegre: LP&M, 1995.
WAHL, J. Introduction. In: KIERKEGAARD, S. Le concept d'angoisse. Paris: Félix Alcan, 1935.
______. Les philosophies de l'existence. Paris: Armand Colin, 1954.
______. El ser, la existencia y la realidad. México: Fondo Economico, 1997.

Leonardo Pinto de Almeida
Mestrando de Psicologia da Universidade Federal Fluminense e bolsista da Faperj.

O Desespero Kierkegaardiano

Joelson Tavares Rodrigues 2001

A obra de Kierkegaard é toda profundamente interessante para aqueles comprometidos em sondar os mistérios da alma humana. Porém, três de seus livros se destacam aos olhos dos estudantes das temáticas psicológicas, em virtude dos atravessamentos que estabelece com a psicologia; são eles: O conceito de angústia (1968), O desespero humano (1961) e Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor (1986). Trataremos aqui de O desespero humano.
Nesse livro, Kierkegaard caracteriza o desespero como uma doença mortal, a doença da alma. Mortal não como no senso comum entendemos, uma vez que não morremos dela mas sim com ela, ou seja, se sofremos de uma doença grave e incurável podemos imaginar o fim do sofrimento com a morte; no desespero, estamos condenados até o fim de nossos dias, pois dele não morremos, restando, conseqüentemente, apenas suportá-lo.
Além disso, Kierkegaard é descrente da possibilidade de uma existência não desesperada. Para ele o desespero estará sempre presente, mesmo que encoberto ou em estado latente; o que ocorre é que nem todos estarão conscientes de seu próprio desespero, por isto o filósofo o vê sob duas perspectivas ou categorias: sob o ângulo da consciência - o conhecimento ou a ignorância de sua existência - e sob a perspectiva do que ele chama de "fatores da sêntese do eu" (Kierkegaard, 1961, p. 61).
Para Kierkegaard, o pior dos desesperados será aquele que nenhuma consciência tenha do seu próprio desespero, a ponto de ele questionar se será lêcito lhes dar este nome. Estarão aê incluêdos aqueles que vivem uma existência de distração e distanciamento de si mesmos e que preferirão muitas vezes manter-se na ilusão em que se encontram. A consciência poderá ir se ampliando até um estágio em que o desespero será vivido em sua maior plenitude, quando teremos o desespero daqueles que se reconhecem como tendo um eu.
O eu se constituirá, para o filósofo, como uma sêntese da dialética do finito e do infinito, o eterno e o temporal, as necessidades e as possibilidades. Kierkegaard, então, irá falar do desespero do infinito ou a carência de finito, o desespero no infinito ou a carência de infinito, o desespero do possêvel ou a carência de necessidade, o desespero na necessidade ou a carência de possêvel, e poderêamos falar ainda do desespero do temporal ou a carência do eterno e o desespero do eterno ou a carência do temporal. O desespero como queda se dá quando o eu, em vez de manter a mobilidade, cristaliza-se em um dos pontos - objetiva resolver a relação dialética que por si mesma é paradoxal, tenta equacionar aquilo que poderêamos chamar de paradoxos da existência: sabendo-se mortal, o homem deseja a imortalidade; sendo necessariamente limitado pelas necessidades, almeja viver como possibilidade; tendo no imaginário o infinito, confronta-se a todo momento com a finitude.
Estes conceitos poderão ter inúmeros desdobramentos na prática clênica. Ana Maria Feijoo (2000, p. 113) propõe uma forma de psicoterapia na qual se busca a reconstituição desta relação dialética através da mobilização dos paradoxos, tendo em vista que a inexistência ou escassez deste movimento resultará na perda do eu, em seu decaimento; promover-se-á, então, o confronto com a situação paradoxal, com o necessário e o possêvel, o eterno e o temporal, o finito e o infinito. O que se pretende é que o paciente se dê conta de onde ele está, do seu estar lançado, da sua condição irremissivelmente paradoxal, mas acima de tudo singular.

Joelson Tavares Rodrigues

Referências bibliográficas:
FEIJOO, A. M. L. C. A escuta e a fala em psicoterapia. São Paulo: Vetor, 2000.
KIERKEGAARD, S. O desespero humano. Porto: Livraria Tavares Martins, 1961.
______. O conceito de angústia. São Paulo: Hemus, 1968.
______. Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. Lisboa: Edições 70, 1986.

Graduado em Medicina, com têtulo de Especialista em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestrando em Psicologia da Universidade Federal Fluminense e membro do IFEN.

Sören Kierkegaard e o "Cavaleiro da Fé"

Myriam Moreira Protasio 2001

Abraão, aos 70 anos, vê cumprir-se a promessa de Deus para consigo: "terás grande descendência". Torna-se pai na velhice. Quando recebe de Deus a orientação de que deve sacrificar seu filho, Abraão crê e crumpre a ordem divina.
Em Temor e tremor, publicado em 7 de outubro de 1843, sob o pseudônimo de Johannes de Silentio, Kierkegaard disserta sobre o momento em que o homem entrega-se, pela fé, ao que lhe é mais próprio, usando a trajetória de Abraão como referencial. Investiga as várias possibilidades de resposta a esta solicitação, fundadas nos estágios ético e estético, e a possibilidade de total entrega ao incompreensêvel, ao inimaginável, só possêvel pela fé. Detém-se a refletir e extasiar-se com este momento, aquele em que as leis do mundo perdem o sentido, o indivêduo perde sentido, só restando o desejo de Deus e a entrega a este desejo: "instantaneamente me sinto paralisado" (Kierkegaard, 1990, p. 46).
O autor ambiciona aquele algo mais, ir além da entrega às coisas do mundo, chegar até Deus pela fé. Esta entrega se faz pela paixão. O homem da fé não se dispersa nem se justifica, vê em sua vida um só propósito e a ele se entrega, embora sua vida possa parecer igual à de todos os outros em sua finitude: "o cavaleiro da fé não se contradiz, e há contradição em esquecer a substância de toda sua vida, mesmo se continua sendo o mesmo" (ibid., p. 58).
Contradizer-se pertence ao racional. Na razão pensa-se no "inverossêmil, no inesperado, no imprevisto", em que o cavaleiro convence-se da "impossibilidade segundo o alcance humano". Mas o cavaleiro da fé, na resignação infinita, sustenta a impossibilidade perante o mundo, embora a realize no finito crendo no absurdo. "O paradoxo da fé não pode reduzir-se a nenhum raciocênio, porque a fé começa precisamente onde acaba a razão" (ibid., p. 71).
Kierkegaard considera o paradoxo da fé frente ao geral. Na fé o indivêduo coloca-se acima do geral (o ético). O herói (ético) move-se pelos resultados e pela moral. O cavaleiro da fé move-se pela paixão, não pode ser ajudado ou compreendido. Encontra-se em jogo o cotidiano, o geral - e o indivêduo, o solitário, e a entrega a este particular, a isto que é mais próprio, sem perder-se do geral, estando, no entanto, em conformidade com este. O dever absoluto até Deus consiste, portanto, no paradoxo de encontrar-se o indivêduo acima do geral, colocando-se em relação absoluta com o absoluto.
O cavaleiro da fé vive em relação com o absoluto, encontrando-se solitário pela impossibilidade de refugiar-se ou ser compreendido. Pela perspectiva do geral é um assassino ou um louco, mas Abraão tem a sua vida "como um seqüestro divino", e é ao absoluto que se entrega.
O encontro com o geral exige o reconhecimento, a revelação, o compartilhar. O segredo implica crise, "de onde só pode sair pela manifestação". O indivêduo, movido pelo estético, pode fazer segredo, mas o faz referendado em si mesmo, em suas motivações próprias. O ético trabalha com a concordância no geral, buscando conformidade nas normas através da manifestação. No religioso, também silencia-se, pela impossibilidade de ser compreendido. O silêncio pertence, portanto, ao estético e ao religioso, sendo que no estético serve a si mesmo, e no religioso, ao absoluto.
Kierkegaard analisa como "Abraão não pode falar, pois não pode fornecer a explicação definitiva". Abraão não está em consonância com o geral e não pode ser compreendido, encontra-se em contato com o absoluto, pois crê que o que lhe é pedido não será necessário. Vive a solidão da decisão, a angústia e a miséria. Considera possibilidades de ação de Abrãao, formas de não-enfrentamento da missão que lhe foi conferida, mas adverte: a indecisão não pertence ao cavaleiro da fé.
Angústia e miséria caracterizam a existência daquele que luta por cumprir sua missão. Kierkegaard considera esta missão como atribuêda por Deus e só realizável pelo cavaleiro da fé, no estágio religioso ao qual o indivêduo chega através do salto solitário.
E conclui: "Aquilo que chamo propriamente humano é a paixão, através da qual cada geração compreende inteiramente a outra e compreende a si própria (...) Mas a mais alta paixão do homem é a fé, e nenhuma geração começa aqui em ponto diferente da anterior..." (ibid., p. 148).

Myriam Moreira Protasio

Referências bibliográficas:
KIERKEGAARD, S. Temor y temblor. Tradução de Jaime Grinberg. Buenos Aires: Editorial Losada S.A., 1947.
______. Temor e tremor. Tradução de Maria José Marinho, Introdução de Alberto Ferreira. Lisboa: Guimarães Editores, 1990.

Psicoterapeuta em clênica particular, diretora e professora do IFEN.

Um Encontro com Kierkegaard -Romance de David Lodge

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa 2001

David Lodge, escritor inglês, em seu romance Terapia, publicado em 1997 no Brasil, cria uma história em que o personagem Lawrence Passmore narra suas reflexões e vivências a partir de seu encontro com as idéias de Sören Kierkegaard.
Lawrence é um homem descontente com sua imagem, sente um estranhamento de si mesmo, percebe-se incapaz de viver o presente, sempre correndo atrás do espectro da perfeição que lhe escapa. Queixa-se também de uma dor constante no joelho diagnosticada como Sêndrome da Disfunção do Joelho - SDJ.
Questiona-se por que não se sente satisfeito, visto que sua vida financeira é muito boa, sua estrutura familiar é estável, goza de boa saúde (com exceção do joelho) e considera-se bem-sucedido profissionalmente. Pergunta-se então: qual é o problema? E responde: "Não vou Saber Disso Jamais. Em sua terapia, define assim seu estado de infelicidade: "A questão é que eu não fui sempre infeliz. Ou razoavelmente contente. Mas em algum lugar, em alguma época, perdi aquilo, o pique de viver pura e simplesmente, sem ficar ansioso ou deprimido" (Lodge, 1997, p. 26). Na tentativa de resolver seus problemas, submete-se a diferentes tratamentos: médico e cirúrgico, fisioterapia, psicoterapia, cognitivo-comportamental, aromaterapia e acupuntura, sem, no entanto, alcançar os resultados esperados.
Certo dia, ao sentir-se intrigado com a pergunta: "Como vai a sua angst?", Lawrence sai em busca de seu significado e depara-se com a definição filosófica: "(filosofia do existencialismo) a angústia causada pela percepção do homem de que seu futuro não é determinado, mas deve ser escolhido livremente", e sente-se, então, invadido pela sensação de auto-reconhecimento: "Angústia é o que sinto quando acordo de madrugada num suor frio. Angústia aguda, mas sem ser especêfica. Claro que logo associo coisas especêficas a ela. Impotência, por exemplo" (ibid., p. 77).
A partir daê, vai ao encontro de Kierkegaard e de suas obras: Temor e tremor, Desespero humano, Conceito de angústia, Ou... ou e Repetição. Sente-se afetado pelas temáticas abordadas pelo filósofo, mesmo tendo a impressão de que não compreendeu do que se tratava. Inicia com a leitura de O conceito de angústia, tema que mais o interessou, mas decepciona-se com o êndice que insistia em trazer o "pecado".
Ainda sem compreender bem, avalia como interessante o seguinte trecho: "Eu posso dizer que aprender a conhecer a angústia é uma aventura com que cada homem tem de confrontar-se se não quiser cair na perdição ou por não conhecer a angústia ou por se afundar nela. Aquele, portanto, que tenha aprendido certo a viver em angústia, aprendeu a coisa mais importante". Lawrence questiona-se então: "Mas o que é aprender certo a viver a angústia e como é diferente de se afundar nela? Isso é o que gostaria de saber" (ibid., p. 106).
Resolve então ler Ou... ou, por sentir-se intrigado com o têtulo, e em um dos trechos, novamente tem a mesma sensação já experimentada anteriormente, a de que Kierkegaard estava falando diretamente de sua condição. Reconhece-se, portanto, no homem que o filósofo define como homem infeliz: "O homem infeliz está sempre ausente para com ele mesmo, nunca presente para ele" (ibid., p. 119). Lawrence discorda, em princêpio, do filósofo: "Não, errado, meu caro Sören - nunca paro de pensar em mim, esse é que é o problema. Mas, quando analisei, pensar em mim não é a mesma coisa que estar presente para mim" (ibid., p. 119). Percebe, portanto, que nunca está presente a si mesmo porque está sempre vivendo no passado, de recordações ou no futuro, vivendo na expectativa.
à medida que vai descobrindo Kierkegaard, Lawrence percebe sua forma estética de ser no mundo. Reflete sobre a diferença entre a dúvida e o desespero, e sobre a impossibilidade de desvencilhar-se de escolher e viver a dúvida e o arrependimento pelas possibilidades não escolhidas. Na busca de encontrar-se consigo mesmo, de retratar-se e de resgatar sua felicidade, faz um retrospecto de sua vida, indo ao encontro de vivências, pessoas e lugares importantes. Ao fazer o caminho de Compostela, Lawrence compreende verdadeiramente os estágios da existência: estético, ético e religioso. O peregrino do tipo Estético busca deliciar-se com os prazeres pitorescos do Camino. O peregrino do tipo ético vivencia a dúvida, questionando-se por todo o percurso se realmente é um peregrino verdadeiro. E o peregrino do tipo Religioso, o verdadeiro peregrino, apenas caminha, pois vive o estado de profunda interioridade, aceitando os paradoxos do existir humano sem tentar resolvê-los como nos outros dois tipos de peregrinação.
Lawrence, por fim, parece não mais sofrer de SDJ, e sua persistente frase "Não vou Saber Disso Jamais" é tomada como condição do existir.

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa

Referência bibliográfica:
LODGE, David. Terapia. São Paulo: Scipione, 1997.

Psicoterapeuta em clênica particular, diretora e professora do IFEN.

O Pensamento de Heidegger e a Psicoterapia

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo 2000

Pensar a psicoterapia a partir de uma perspectiva fenomenológico-existencial consiste em um remeter-se a uma análise do existir na dimensão da analêtica da existência tal como foi desenvolvida por Heidegger em "Ser e tempo".

Heidegger permite pensar na possibilidade de trazer à psicoterapia sua filosofia quando nos Zoffikonner Seminaire refere-se à patologia como distúrbio da liberdade e da flexibilidade do homem singular e propõe que se recorra à psicoterapia para ajudar o homen a resgatar a liberdade e flexibilidade na sua relação com o mundo.

Em "Ser e tempo", Heidegger refere-se ao homem em sua singularidade com a denominação de da-sein (pre-sença) que, como totalidade estrutural, se mostra na cotidianidade mediana, imprópria e impessoal, porém sempre como abertura para possibilidades de outras formas de expressão, quais sejam: autênticas, próprias e singulares. A pré-sença constitui-se num ente aberto às possibilidades, logo, em liberdade em seu modo de ser. Pode, então, se dar na impessoalidade, como no pessoal; pode ainda revelar-se na inautenticidade, bem corno na autenticidade. Na verdade, nada se estrutura como definitivo, pois é a própria abertura da pre-sença, em sentido ontológico, que abre sempre às possibilidades, tanto em direção à autenticidade como à inautenticidade. Ao paralisar-se no modo da impessoalidade e da inautenticidade, a pre-sença tende ao fechamento. Os limites de sua abertura para o mundo restringem suas possibilidades. Em fechamento, o homem esquece-se do ser e perde-se no ente.

Na duplicidade ente e ser, a pre-sença pode esquecer-se do ser e tomar-se como ente. Perdido no ente, a pre-sença vive do modo como o mundo dita que deve viver. No mundo do das man, perde-se no impessoal, no impróprio e no inautêntico. Esquece-se de sua liberdade de escolha no mundo das possibilidades e passa a viver no "é". "é".as propriedades que o mundo lhe atribui. "é", no conformismo da massa, mais uma "ovelha no rebanho".

A pre-senca. no movimento do ser e ente, clama, tomada pela angústia por ser si própria, pessoal e autêntica, que implica, em última instância, em reconhecer-se como um ser para-a-morte. Tal clamor ocorre, mesmo que na forma de estorvo, de inquietude, mesmo que silencioso ou disfarçado nos afazeres cotidianos. Incomoda, mas salva.

Muitas vezes, ainda esquecida de sua liberdade, a pre-sença justifica sua apreensão pelas situações exteriores: o governo, os pais, o inconsciente, enfim. Outras vezes, no entanto, o incômodo a mobiliza, e aê vai em busca da sua possibilidade mais própria do seu ser-para-a-morte.

Heidegger refere-se ao cuidado como constituindo a própria dimensão do ser da pre-sença, o pôr-se para fora: é o ec-sistir, movimento do existir. O cuidado - como processo de constituição da pre-sença - se dá no acontecer, isto é, no tempo. Cuidar constitui-se no exercêcio da pre-ocupação com o acontecer.

O cuidado constitui-se no movimento do existir, na abertura do ser do ente. O fechamento do ser do ente, a escassez da ec-sistência, significa dizer que se é mais do "ente" do que do "ontos". Uma maior fixação no "ente" resulta num fechamento, passando-se a ser isto ou aquilo. Abdica-se da condição de "ontos" fecha-se na entidade, que é expressão do "ontos", mas que também o vela. O "ontos" só tem uma maneira de se dar, que é a maneira do "ente". Porém o "ente" obscurece o "ontos". No movimento, o "ontos" se mostra e se esconde à maneira do "ente". A falta de movimento caracteriza a inflexibilidade.

Logo, têm-se nas reflexões de Heidegger a liberdade e a não-liberdade, bem como na flexibilidade, movimento do existir, e a inflexibilidade, fechamento. A psicoterapia propõe-se, nesta perspectiva, a abrir caminho para que a liberdade e o movimento se dêem.

O percurso psicoterapêutico vai se dar de modo que o psicoterapeuta possa assumir o lugar de mensageiro do discurso do cliente, num processo mútuo de corresponder e des-prender, tal como entendido por Heidegger em sua perspectiva ontológica. No corresponder, a fala se desprende quando escuta. No des-prender, a escuta se dá simultaneamente com o responder. Compreende-se que é deste modo que se dá o processo de "escutas e falas" do psicoterapeuta e do cliente.

A psicoterapia aqui proposta se dá no sentido da acompanhar esse acontecer "ontos" e ente, no sentido do cuidado. Trata-se de uma psicoterapia que exerça o pre-ocupar-se, com o psicoterapeuta participando do acontecer do cliente. Na compreensão, cuidando do acontecer, facilita o reconhecimento do sentido mais próprio ou impróprio. Ocupar-se do acontecer cuida. Assim, entrega-se o estar-aê às possibilidades mais próprias, ao mesmo tempo em que se entrega o homem ao mundo, constituindo-se num estar-lançado.

O mundo próprio constitui-se com suas próprias possibilidades e limites. A psicoterapia, nesta perspectiva, não pensa em termos de realidade, mas de possibilidades. O psicoterapeuta prossegue no cuidado com o cliente na abertura de caminhos, restabelecendo o movimento, como acontecer, como ec-sistir.

Trata-se aqui da psicoterapia como um tornar manifesto o que é presente. Não importam, nesta perspectiva, os resultados, embora se pense em consequências, pelo modo de lidar com o mundo em liberdade, assumindo suas próprias escolhas. O psicoterapeuta vai atuar como um facilitador, cuja produção vai consistir em deixar aparecer o que se oculta.

A psicologia clênica numa perspectiva fenomenológico existencial consiste em possibilitar um pensamento meditante, abrindo a possibilidade daquele que, em angústia, clama pelo seu poder-ser mais próprio, reconhecendo-se como ser-para-a-morte, pois encontra-se perdido no impróprio. Neste querer-ter-consciência pode descobrir-se em sua liberdade, tanto no que se refere à utilização das coisas, como no seu próprio fazer-se no mundo. Pode, ainda, descobrir sua serenidade no "inútil" e não se angustiar para se tornar um objeto de utilidade, para adequar-se às exigências do mundo do das man".

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

A Atuação do Psicólogo no Hospital: Uma Perspectiva Fenomenológico-Existencial

Elaine Lopez Feijoo 2000

A vida, a doença e até mesmo a morte constituem-se como aspectos que devem ser considerados de forma multidisciplinar. E como tal, devem ser estruturados e tratados por diferentes profissionais: médicos, psicólogos, enfermeiros, entre outros profissionais de saúde.

A doença e a morte só podem ser entendidas numa perspectiva dialética, já que não podem ser consideradas como estados. A saúde implica na doença, bem como esta implica naquela. A morte, então, também numa perspectiva dialética, coexiste com a vida; logo, coexiste com a doença.

Numa visão mecanicista e cartesiana, há a crença de que a técnica e a ciência dariam conta de todos os males, inclusive da morte. A medicina, como ciência cartesiana, desenvolve toda uma tecnologia a fim de lutar para que o ideal cartesiano de supressão de todos os males se efetive.

A psicologia que não exerce a cura, no sentido de Descartes, e sim o cuidado - no sentido de Heidegger -, não se preocupa com a tecnologia, mas sim com o humano. Importa ao psicólogo o sentido dado, por aquele que está doente, bem como o de seus familiares, à doença, à vida e à possibilidade do morrer.

A atuação do psicólogo na instituição hospitalar deve se dar no sentido de tornar claro o que significa o percurso da vida: viver, adoecer, morrer. 0 psicólogo na perspectiva fenomenológico-existencial deve ter em mente o aspecto humano, permitindo que o paciente tenha uma expressão livre de seus sentimentos, medos, desejos e que se sinta acima de tudo dono de sua vida e, portanto, podendo participar de tudo que lhe acontece; não minimizar os dados acerca da situação do paciente. No entanto, cuidar de falar aquilo que pode ouvir e a seu modo; tratar a doença como algo inerente àquele indivêduo em determinado momento; respeitar as diferenças individuais, fazendo de cada relação uma situação singular; colocar-se à disposição do paciente e seus familiares, bem como estabelecer um trabalho de rotina na visita às diferentes enfermarias.

A partir daê, o psicólogo deve proceder:

- Na instituição hospitalar: como interlocutor, buscando estabelecer um equilêbrio nas relações entre os profissionais, profissionais e pacientes, profissionais e familiares, familiares e pacientes;

- Na relação com o paciente: como observador atento, estabelecendo um diálogo como fator de cuidado com o paciente e uma escuta atenta da fala do paciente; deixando clara a necessidade de refletir sobre o significado do adoecer e mobilizando recursos próprios de cada paciente para o seu processo de reestabelecimento;

- Na relação com os familiares, sabendo-se que o desajuste do grupo familiar é algo freqüente como decorrência do surgimento da doença, o psicólogo deve apoiar psicologicamente os membros da famêlia, dando atenção a esta, bem como as informações pertinentes, ajuda - enfim, assistência psicológica; realizar entrevistas no ato da internação para obter dados referentes ao paciente e seus familiares; informar sobre a doença, a importância da alimentação, da higiene e da relação com o paciente.

Na situação de morte: colocar-se à disposição para assistir às famêlias, dando-lhes apoio, orientação e proceder a uma reflexão.

Elaine Lopez Feijoo

A Prevenção em Psicologia na Ótica Fenomenológico-Existencial

Myriam Moreira Protasio 2000
A possibilidade de intervir a nêvel preventivo no que diz respeito à saúde mental tem ocupado psiquiatras e psicólogos. No campo da Psicologia, esta demanda vem sendo respondida por investigações e propostas ligadas ao desenvolvimento, à educação e a intervenções na infância, onde mais se concentram os estudos voltados para a profilaxia da saúde mental: "Qualquer intervenção na infância, psicológica ou não, pode ser pensada como medida preventiva".

Procedimentos são ditados ou sugeridos tendo a prevenção como objetivo, no âmbito das relações parentais, da imposição de limites, da educação, da saúde, do desenvolvimento infantil, ainda que calcados em referenciais teóricos distintos entre si. Visam à proteção à criança, carente ainda de instrumentos de defesa e sobrevivência frente às vicissitudes da vida.

A criança evolui, regida por leis biológicas, da total dependência para a autonomia. Na infância, quanto mais dependente e constrita em necessidades a existência, menores são as possibilidades. No entanto, em qualquer idade, o eu estará submetido a condicionantes (sejam eles intrênsecos, como a condição fêsica, ou extrênsecos, como a condição sócio-econômica e cultural). Dentre estas condições, o eu faz-se, escolhendo-se no seu fazer-se pois, enquanto há possibilidades, há escolhas; enquanto há escolhas possêveis, há liberdade. é nesta liberdade que o eu se coloca como ser próprio e genuêno. Neste sentido, a patologia psêquica diz respeito à paralisação frente à liberdade, a perda do movimento na existência.

O existencialismo é a abordagem em Psicologia que considera o homem entregue ao mundo e a si mesmo, onde o eu constrói-se a cada ação. A existência constitui-se em risco, e não há nenhuma garantia. Se não há garantia, se não se pode prever ou antecipar o futuro, parece impossêvel uma ação preventiva permeada pelo pensamento existencialista.

Martin Heidegger, filósofo alemão que viveu de 1889 a 1976, reflete em "Ser e tempo" (1986) acerca do sentido do ser, partindo do ôntico, o ser concreto, que se mostra, fechado, para o ontológico, o ser * aberto. Propõe a substituição do sujeito como generalização (ôntico) e a reflexão sobre o ser-aê, dasein, ou seja, o ser lançado a todas as possibilidades da existência (ontológico), afirmando que só pela reflexão pode-se chegar ao sentido do ser. Afirma: "a 'essência' da pre-sença está fundada em sua existência. Para que possa ser uma constituição essencial da pre-sença, o "eu" deve ser interpretado existencialmente." (vol. 1, p.168)

Ao refletir sobre a cotidianidade do ser, Heidegger propõe três condições do existir humano: disposição, compreensão e discurso. "O modo de ser da abertura se forma na disposição, compreensão e discurso. O modo de ser cotidiano da abertura se caracteriza pelo falatório, curiosidade e ambigüidade. Todas essas caracterêsticas mostram a mobilidade da de-cadência em suas funções essenciais de tentação, tranqüilidade, alienação e aprisionamento". (vol. 1 p. 242) Quando a pre-sença detém-se no modo de sei impessoal (de-cadência), a disposição aparece como ambigüidade, a compreensão como curiosidade e a linguagem como falatório.

Descritas as condições constituintes da existência, este filósofo reflete sobre a impossibilidade de alcançar o todo estrutural deste ser a partir da montagem de elementos e propõe:

"a angústia, junto com a própria presença que nela se abre, oferece o solo fenomenal para a apreensão explêcita da totalidade originária da pre-sença. Esse desentranha-se como cura .... (vol. I, p. 245) ... a angústia revela o ser para o poder-ser mais próprio, ou seja, o ser-livre para a liberdade de assumir e escolher a si mesmo. Do ponto de vista ontológico, ... ser para o poder-ser mais próprio significa: em seu ser, a pre-sença sempre precedeu a si mesma. " (vol. 1, p. 252).

A cura, enquanto a priori, ser-o-que-era-para-ser, acha-se em toda atitude e situação de fato. Surge como essência da existência do homem, como o mais originário do ser enquanto vive. A morte, como limitante desta existência, limita a cura, que subsiste enquanto existe vida, dando a dimensão temporal do homem. Limitado temporariamente, o da-sein desponta como ser-para-a-morte. "A morte vem ao encontro como um acontecimento conhecido, que ocorre dentro de mundo" (vol. 2, p.35). A pre-sença, diante da possibilidade certa da morte, abre-se para seu poder-ser-mais-próprio. Esta é a abertura privilegiada da pre-sença que, como cura, clama pelo seu poder-ser-mais-próprio, clama a sair da impessoalidade e assumir-se como ser-para-a-morte na de-cisão.

A idéia de prevenção ganha nova dimensão em Heidegger. Prevenir, nesta acepção, fala, portanto, da aclamação do débito em que todo ser encontra-se em relação ao seu ser mais próprio. Enquanto sorge (cuidado e cura), a prevenção surge como inerente à existência, ao ser. Apresenta-se como fundamento do ser. O cuidado de si mesmo fundamenta a existência. E a angústia é o farol que aponta, na cura, o distanciamento do ser daquilo que é seu ser-mais-próprio.

Nesta dimensão, o lugar da prevenção firma-se com o próprio ser, dá-se no âmbito do ser-no-mundo. Desaponta como o lugar da reflexão junto ao ser, a ser cuidado na pre-ocupação. Não há garantias, não há fórmulas: há o ser e o mundo.

A atuação profissional configura-se no encontro com o ser, no buscar junto ao ser, guiado por sua angústia, o seu ser mais próprio; resgatando junto ao ser, nas diversas situações e ocupações, o movimento existencial, o movimento do ser que se perde e se acha, que se confunde e se resgata. O profissional vai agir como facilitador do resgate da liberdade numa existência que se perdeu (escravizou-se) nas contingências, sejam elas externas (condições sociais e situacionais) ou internas (uma grande dor, uma grande perda, um trauma), Refletirá junto ao ser o seu próprio existir - seus pensamentos, sentimentos, sua atuação, a liberdade, suas possibilidades, o risco, a escolha, a autenticidade, a fidelidade a si mesmo, os limitantes da existência: morte, solidão, liberdade, promovendo o enfrentamento em detrimento da resolução.

Myriam Moreira Protasio

O Advento das Ciências Numa Tentativa de Resolução dos Paradoxos

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo 1999

Deparar-se com os grandes mistérios da vida sempre intrigou o homem. A natureza se lhe impõe e ele cria mitos de que, uma vez explicando a sua origem, acredita conhecer seus mistérios e portanto desvendá-los, como faziam os antigos; dominando-a, como presumiu a ciência, e tornando-a submissa, enfim, acredita que não mais ocorrerão os imprevistos. Este confronto entre a tentativa de controle do natural por parte do homem e a constatação de sua contingência vai constituir o paradoxo da existência. Segundo Kierkegaard, aê reside o desespero humano, condição essencial do homem enquanto tal.

Os diferentes sistemas, seja o religioso, o polêtico ou o cientêfico, a todo momento proclamam que descobriram ou estão prestes a descobrir a chave que permitirá o desvelamento de todos os mistérios da existência humana, do universo, do cosmos. Desta forma libertarão o homem do desespero frente ao acaso, ao inesperado.

As superstições, segundo muitos antropólogos, eram a forma pela qual o homem antigo mostrava seu conhecimento sobre a natureza dos fenômenos, e através dos presságios realizava suas previsões. Conta Russel que os sacerdotes utilizavam o conhecimento de tal fenômeno para ganhar a confiança do povo e, ainda, que o venerável Beda afirmara que "os cometas pressagiam revoluções de reinos, pestilências, guerras, vendavais ou calor".

Para Kierkegaard as contradições caracterizam o viver, enquanto que para a matemática o paradoxo constitui-se numa proposição tal, que dela se deduz uma contradição, e como tal deve ser eliminada, daê todo o esforço da ciência em conciliar onda e partêcula. Enquanto a ciência apregoa a resolução dos contrários, pela exclusão de um dos pólos, a Filosofia do existir acredita na conciliação. A tentativa de solucionar o paradoxo resulta em fracasso, ou, nas palavras de Kierkegaard, "em queda".

O discurso filosófico e cientêfico desde os meados do século XVII revela tal pretensão. Com o afastamento das idéias dogmáticas da filosofia e da religião, uma vez que estas não davam uma solução prática para ps dilemas humanos e, que suas respostas não diminuêam as diferentes inquietações daquele refletia acerca das problemáticas da natureza, os diferentes pensadores da época vão buscar outras estratégias para driblar o inevitável. Russel a este respeito comenta: "Devido às obras de grandes homens do século XVII, desenvolveu-se uma nova visão do mundo, e foi esta visão, não argumentos especêficos, que causou a decadência da crença em presságios, feitiçaria, possessão demonêaca, etc".

Assim, com as descobertas de Galileu, com a filosofia de Descartes e com o modelo matemático de Newton, formulou-se a ilusão de que o homem havia resolvido todos os paradoxos da existência. As equações diferenciais explicariam todos os fenômenos da natureza, o complexo reduzido ao simples não esconderia mais os seus mistérios, a revelação dos mecanismos tornava explêcito todo o funcionamento da natureza. Com o tempo, a ciência evoluiria e o homem não mais ficaria surpreendido com o inesperado, e, dominando a natureza, faria desta sua serva e criada, pois no centro do universo ele era o rei todo poderoso. O inevitável, tão temido, como por exemplo, a velhice e a morte, não seria mais um problema, pois, uma vez descobertos, mecanismos, não mais se morreria nem tampouco se envelheceria. Estava-se a caminho da fonte da eterna juventude, e da mesma forma que Zeus escapou de seu destino, tomando-se imortal, acreditou o homem também estar às vésperas de tamanha proeza.

Não tardou para que se chegasse à conclusão de que se tratava de um triste engodo. A ciência havia descoberto muito sobre a natureza, mas não a dominara, ao contrário, quanto mais a sacrificava com as novas descobertas, mais conseqüências maléficas sofria o homem. A medicina desenvolveu muitos recursos cirúrgicos, vacinas, novas drogas, porém a morte ainda estava presente. Conseguiram-se mais anos de vida, porém distantes da fonte da eterna juventude. O homem conquistou mais conforto, com a criação de suas máquinas, de suas quêmicas, porém pagou seu preço, poluiu seu ar, sua água, sua terra, e outra vez viu-se frente a frente com o inevitável. Sentiu-se frágil, vulnerável, entregue.

O homem, no entanto, não se deu por vencido, inventando uma transformação dos conceitos, mudando sua relação com a natureza e tomando-se seu aliado. Acreditou novamente que, estabelecendo novo acordo, de forma mais humilde, não solucionaria todos os inevitáveis, mas adiaria alguns, principalmente aqueles que estavam relacionados com a sua decadência fêsica: a doença e a morte.

Surgem outros cientistas e filósofos e mudam-se os conceitos. Afirma Prigogine (1997): "A velha aliança rompeu-se; o homem sabe finalmente que está só na imensidão indiferente do Universo que emergiu por acaso". Está morto o demônio de Laplace, não é mais possêvel deduzir o passado nem prever o futuro, como postulado por este cientista.

Novas teorias tentaram desbravar os mistérios: eletromagnética, relatividade restrita, óptica e magnetismo e teoria quântica.

Surgiu novamente no homem a esperança, de uma vez conhecendo a natureza dos paradoxos, poder pactuar com a natureza, não mais dominando-a, mas estabelecendo o pacto, tendo garantias de que se pode negociar com ela.

As novas teorias apontaram para outros caminhos. Postularam o tempo circular e o homem criou a ilusão da eternidade, logo venceram a morte. Conceituaram os quanta como atemporais, portanto não esvaecem com o tempo, e o homem cria novamente a fantasia da possibilidade da eterna juventude. Preconizam a desordem como estimuladora dos processos de auto­organização, e o homem prontamente conclui: a doença enquanto desordem no orgânico pode, por um processo, de auto-organização, retomar a saúde, basta que o pensamento assim o queira.

Teorias, filosofias, mitos, crenças, enfim, quase todas as criações humanas parecem ter como finalidade básica resolver o paradoxo da existência humana. Faz-se pertinente o conselho popular: "Para se tornar imortal plante uma árvore, escreva um livro e tenha um filho". Desta forma resolve-se o dilema do tempo. A dialética do espaço das possibilidades pode ser resolvida recorrendo-se aos manuais de pensamento positivo. Quanto ao paradoxo da finitude. basta compactuar com a natureza. Outra vez parece que não há o que temer, a ciência forneceu os fundamentos, basta que a vida seja organizada segundo esta nova forma de pensar, que aliás dizem que é antiga, mas se esquecendo que na Antiguidade a vida humana tinha uma duração menor e que o homem estava muito mais exposto às contingências dadas pela natureza.

Outra questão a se pensar é em parte levantada por Prigogine: será a metamorfose da ciência uma tentativa do homem de estabelecer um coerência intelectual? Mais ainda, estabelecer uma coerência pode ser uma forma de resolver os paradoxos, com os quais a todo momento o homem se confronta e, sentindo-se impotente, luta incessantemente utilizando-se da razão e da paixão? De acordo com Kierkegaard, esta é uma condição que, mais do que o caminhar ereto, torna o homem realmente humano.

A crença no fato de que a invenção da ciência pode constituir­se numa tentativa de resolução do paradoxo da vida parece ser compartilhada por Isabele Stengers no seguinte trecho: "A fuga para o mito de uma ciência misteriosa e todo-poderosa não pode senão contribuir para mascarar a dificuldade real dos problemas postos pela história".

Em Desespero humano defende Kierkegaard a idéia de que o existente resulta de uma lógica provocada pela tensão entre os contrários. Tentar acabar com o dilema implica então a própria destruição. Encontrar-se a si mesmo só é possêvel pela aceitação dos contrários e não pela eliminação. Ao definir o homem diz este autor: "O homem é espêrito, energia viva autodeterminante". Energia pela tensão estabelecida entre o finito e o infinito, o temporal e o eterno, a necessidade e a possibilidade, a razão e a paixão. E é nesta dialética que o homem vive o desespero, que toma possêvel a passagem do virtual para o real, do eterno para o agora, do infinito para si mesmo, dando-se conta de suas possibilidades, reconhecendo os seus limites: sua temporalidade, sua necessidade e sua finitude.

A cientificidade se valida ao cumprir sua função na necessidade, na técnica, nas máquinas. O problema se instaura quando se quer incluir aê os fenômenos da vida. Como diz Edgar Morin, a autonomia do sujeito é incompatêvel com a visão mecanicista e determinista. Este autor afirma ainda que indivêduo e espécie vão constituir sempre um paradoxo.

As estratégias da ciência, desprendendo-se do necessário, perdem-se nos possêveis e debanda para o imaginário. Na ilusão, sem nenhum elo com o real, perde-se o que há de mais natural: o fluxo da vida.

Cabe aqui parafrasear Pascal, que, mesmo tendo sido um ilustre matemático, portanto racionalista, soube humildemente reconhecer os limites da razão: "Os segredos da natureza estão ocultos e, ainda que produza incessantemente, nem sempre descobriremos seus efeitos... e, por mais que apareça sempre idêntica a si mesma, não é sempre igualmente conhecida".

A existência, caracterizando-se pelo seu constante movimento, não pode jamais ser abarcada num sistema. O existir implica­do num eterno paradoxo nunca será definido a partir de critérios cientêficos ou quaisquer outros. O homem, por caracterizar-se como desesperado, vai sempre viver a contradição de, mesmo se sabendo mortal, buscar a imortalidade; de, mesmo sabendo-se finito, procurar a infinitude; de, ainda sabendo-se necessidade, caminhar no sentido das possibilidades, enquanto razão, se apercebendo paixão. é este vai-e-vem, este movimento, que fundamenta a sêntese do existente: o eu que se faz em cada instante de sua existência, inventando mais uma estratégia racional no sentido de vencer os paradoxos, mas que na paixão sabe que só lhe resta a entrega e que viver é uma atitude de fé, da qual nem o mito e nem a ciência são suficientes para destrinchar os seus mistérios.
Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

Uma Reflexão sobre a Atuação do Psicólogo na Dependência Química

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa 1999

A idéia deste artigo partiu de uma questão levantada por um ouvinte, em palestra proferida na II Jornada de Psicoterapia Fenomenológico-Existencial da UGF, intitulada "O uso de drogas na humanidade: unidades de significado", que pretende elucidar alguns aspectos da práxis psicoterapêutica fenomenológico-existencial.

A questão é: Que trabalho psicoterapêutico pode ser desenvolvido com um usuário de drogas que já apresenta dependência, mas que não se considera um dependente, na linguagem do senso comum, nega sua dependência?

Cabe esclarecer alguns pontos da questão: Como o psicoterapeuta fica ciente de que se trata de um usuário de drogas, e mais, da sua dependência? Tais informações podem ser fornecidas pelo próprio cliente ao tentar negar a situação, por familiares, quando se trata de menores, por profissionais que o acompanham, em clênicas em que esteve internado para desintoxicação, e também através de indêcios que o próprio cliente fornece em suas sessões psicoterapêuticas.

O segundo aspecto refere-se ao entendimento desta negação (seja ela implêcita, quando não é mencionada pelo cliente, ou explêcita, quando o cliente em seu relato não assume esta condição) por um terapeuta que compreende o homem dentro de uma perspectiva fenomenológico-existencial. Quando uma pessoa nega sua dependência, revela um obscurecimento da sua consciência, motivo pelo qual não consegue constatar sua própria condição do existir no mundo.

O objetivo da psicoterapia numa perspectiva fenomenológico-existencial é proporcionar o autoconhecimento do homem, que vai se dar a partir da constatação da sua responsabilidade pela construção de sua própria existência e, assim, para assumir o que quer ser a cada momento de sua vida, vivendo o risco como mola propulsora para seu devir, sabendo-se lançado em um mundo contingencial.

O trabalho psicoterapêutico se dará a partir da queixa que o cliente traz, e que na maioria das vezes consiste na angústia daquele momento.

Na medida em que o cliente relata suas dificuldades vivenciadas em seu dia-a-dia, ou mesmo quando fica na tagarelice, é função do psicoterapeuta, por meio de intervenções, compreender bem como possibilitar que esta pessoa constate quais as estratégias que vem empregando para lidar com os paradoxos de sua existência. é uma reflexão sobre como o cliente atua nas relações que estabelece com o mundo e consigo mesmo e qual o sentido dado a tais vivências. Portanto, a partir do relato da cotidianidade, numa dialética de escuta e fala, trabalham-se as questões inerentes à existência.

O trabalho desenvolvido pelo psicoterapeuta norteado pelos princêpios fenomenológico-existenciais, com pessoas que apresentam dependência de drogas, assumindo ou não a sua condição no mundo, se constituirá a partir da realidade apresentada pela pessoa que lhe solicita ajuda, aceitando-a dentro de suas possibilidades. Nesta relação de confiança e cumplicidade que vai se estabelecendo, torna-se imprescindêvel à compreensão do ser que se revela e que se encontra desesperado diante do desconhecimento de si. Cabe, então, deixar fora desta relação qualquer coisa que possa ferir a premissa básica que consiste em ver o homem como um ser-aê desprovido de sentido e que cabe a este dar um sentido próprio a cada momento da sua existência.

Portanto, o que é enfocado não é o uso de drogas, e sim o dasein. Nesta caminhada é importante averiguar qual o sentido dado à droga por esta pessoa na sua existência, assim como a todas as outras escolhas que faz em seu percurso.

Para tal, é fundamental que o psicoterapeuta esteja atento ao discurso do cliente, pois, como afirma Heidegger, "é na linguagem que o indivêduo revela aquilo que ele esconde".

A liberdade de escolha na construção de seu projeto existencial pode ser abordada quando o cliente relata como age no mundo, lidando com seus compromissos, seus afazeres do dia-a-dia, com os problemas que surgem em sua rotina, como dirige seu automóvel e lida com as leis e normas vigentes em seu contexto e, por fim, a forma como encara as possêveis conseqüências de seus atos.

A condição da singularidade do ser lançado em um mundo contingencial desprovido de sentido deve ser abordada. O psicoterapeuta atuará como um facilitador na constatação por parte do cliente de sua solidão, cabendo somente a este a missão de dar significado para sua própria vida.

Os limites da própria existência também são temas que se desenrolam no processo psicoterapêutico. A morte, as perdas, as limitações, sejam elas ligadas ao ser ou às contingências do ambiente, levam o cliente a considerar sua finitude como uma realidade concreta, assim podendo vislumbrar com maior nitidez seu horizonte existencial, pois reconhece seus limites e possibilidades. Todo este processo se dá a partir desta premissa, na qual o terapeuta atua a partir do que é possêvel ser dado pelo cliente, respeitando seu momento existencial.

O medo do enfrentamento dos paradoxos da existência é ponto fundamental a ser trabalhado no processo psicoterapêutico com usuários de drogas. A aceitação da temporalidade e o reconhecimento de sua realidade concreta diferenciando-a das possibilidades facilitarão o encontro do ser consigo mesmo e o ser com o mundo.

Concluindo, a questão proposta pode ser escIarecida pelas afirmações de Feijoo (1):

Quando se pretende ajudar o outro, deve-se promover a aproximação, permanecendo na situação de acompanhar aquele que está sob a ilusão. Só desta forma haverá a possibilidade de tirarmos o homem de sua ilusão. Sabendo-se desde o inêcio, que é uma tarefa difêcil em qualquer caso.

Para levar um homem ao seu centro é preciso chegar onde ele se encontra e começar por aê. Este é o segredo da arte de ajudar os demais.


Para se ajudar o outro deve-se entender mais do que ele entende, mas antes de tudo deve-se entender o que ele entende. Se assim não for a ajuda de nada lhe valerá. Tudo começa quando se pode entender o que o outro entende e a forma como entende.


Quando um homem não quer ser conduzido, resta ainda obrigá-lo a dar-se conta do ponto em que está.

(1) FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. "Os mandamentos do psicoterapeuta existencial", Informativo IFEN, ano 3, n.1, Rio de Janeiro, mar. a998.


Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa

A Escuta da Queixa através da Redução Fenomenológica

Myriam Moreira Protásio 1999

Seguem-se alguns relatos apresentados na primeira sessão. O cliente é convidado, depois de cerca de 40 minutos de conversa, a organizar junto com o terapeuta o que seria sua queixa, ou seja, o que o traz para a terapia.

1. "Eu queria que essa angústia saêsse de dentro de mim, que essa tristeza saêsse, que eu ficasse mais forte, que eu parasse de chorar."

2. "Não estou mais gostando de mim mesma. Me sinto um saco. Tem várias coisas acontecendo, mas mesmo assim eu não precisaria estar tão chata."

3. Pr. relata dificuldade de relacionamento com mãe, irmãos e amigos, pensamentos constantes em morrer e tentativa de suicêdio. "Quero entender melhor tudo isto."

4. "Insegurança. Me sinto descontrolada emocionalmente, tenho dificuldade de relacionamento. Preciso aprender a ouvir as pessoas, me expressar melhor. Sou muito fechada."

5. Mãe percebe a filha agressiva consigo e com receio de chegar perto do pai. Apresentou um episódio de somatização.

6. Mãe relata a filha de mal com a vida, com dificuldade para dormir, para relaxar. Necessidade além do normal de se mexer, irrita-se com tudo.

Observando os relatos acima, alguns sentimentos chamam a atenção: confusão, desamor, impotência diante de sua dor, insegurança. O sentimento de confusão, ou seja, de "não entender o que está acontecendo comigo" é repetido de forma implêcita ou explêcita.

O terapeuta é colocado, desde o primeiro momento, diante desta "confusão", a qual é seu primeiro instrumento de trabalho, uma vez que vai partir do que tem, do que é concreto.

Irvin Yalom já atentava para isto, quando em seu Psicoterapia existencial, no capêtulo 6, dizia:

(...) freqüentemente termino minha primeira sessão de consulta sem um quadro claro do problema do paciente: eu considero o fato de o paciente não poder definir o problema como o problema.

De fato, parece óbvio que, diante de um "Eu queria que essa angústia saêsse de dentro de mim, que essa tristeza saêsse, que eu ficasse mais forte, que eu parasse de chorar", a questão primeira que surge é: O que está acontecendo? O que torna esta criatura tão triste? O que a leva a sentir-se tão frágil e impotente diante de sua dor?

Kierkegaard afirma, em Desespero humano:

"O homem que desespera tem um motivo de desespero, é o que se pensa durante um momento, e só um momento: porque logo surge o verdadeiro desespero, o verdadeiro rosto do desespero. Desesperado de uma coisa, o homem desespera de si".

à medida que, nas reduções fenomenológicas, o lugar onde o cliente está vai ficando mais claro para ele mesmo, abre-se um largo leque em que, não raro, surgem esclarecimentos como:

- Quero dar conta disto, e sou infeliz por não consegui-lo;

- Não posso ser feliz se o outro, que é importante para mim, não o é;

- Preciso que o outro seja diferente do que é, para que eu seja feliz.

O cliente sente-se confuso entre seu querer e suas possibilidades, vivendo o paradoxo na ação, desejando algo e agindo de forma diversa desta, como quando quer ser feliz, mas coloca sua felicidade na ação do outro.

Quanto mais difusa a queixa, mais esforço será despendido no sentido de esclarecê-la, e a melhora do cliente estará condicionada a este esclarecimento. Só de posse de seu próprio sentido, de sua forma de colocar-se no mundo, o cliente apresentará mudança, o que coloca o terapeuta no urgente lugar de facilitador do esclarecimento do cliente sobre si mesmo e sobre o seu estar-no-mundo, sob pena de o processo tornar-se mais longo em virtude da dificuldade do cliente de compreender sua questão.

A experiência aponta que, uma vez esclarecida as incongruências em cada paradoxo enfrentado, o processo terapêutico ganha agilidade. O que leva a crer que a maior parte do processo é usada neste ir e vir, processo este guiado pelas possibilidades de cada um dos envolvidos em cada momento terapêutico vivido.

é da possibilidade de escuta do terapeuta e de suas intervenções e da possibilidade do cliente de ouvir e atentar que advém a mudança, objetivo final da terapia. A cada nova luz que se abre neste processo mútuo de escuta e fala, novos passos, pequenos ou grandes, são dados pelo cliente em direção a si próprio, e pelo terapeuta em direção a seu objetivo, requerido desde o primeiro momento, que é facilitar o autoconhecimento, tendo como conseqüência que o cliente viva de forma confortável consigo próprio, ou seja, reconhecendo-se como um ser de possibilidades e impossibilidades, existindo dentro desta condição.

Neste caminho de reconhecer suas possibilidade e impossibilidades, o cliente deparar-se-á com as condições inerentes à existência, conforme Yalom, ou com os paradoxos da existência, conforme Kierkegaard. No enfrentamento destas condições estará a abertura para o viver pleno, em consonância consigo mesmo e com o mundo.

Myriam Moreira Protásio

Os Mandamentos do Psicoterapeuta Existencial

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo 1998

Soren Aybe Kierkegaard viveu de 1813 a 1845, percurso no qual desenvolveu sua extraordinária obra, que versa sobre a filosofia do existir, assim denominada para diferenciar-se das obras de seu precursor Hegel, cuja filosofia consistia na sistematização do ser. O ser que se enquadraria num sistema abstrato que, tratando do homem enquanto abstração, distanciava-se do real, na medida em que se aproximava de um ideal.
Kierkegaard, de formação teológica e filosófica, pretende alcançar o existente cru sua realidade concreta, portanto vivida. E mais, teve como objetivo, através de suas obras literárias, levar o homem ao conhecimento de si mesmo; nisto consistia a sua atitude de fé. Como autor religioso, forma pela qual ele próprio se denominou, dizia ter como projeto, esforçar-se no sentido de tirar o homem da ilusão de ser aquilo que não é.
O percurso e os meios pelos quais este autor vai promover tal façanha vêm descritos em seu livro publicado em sua primeira edição em 1846: Meu ponto de vista. Começa afirmando que o segredo da arte de ajudar o outro consiste em esforçar-se para encontrá-lo onde ele está e, então, começar daê. Continua mais adiante descrevendo o processo de ajuda e afirma: "Ajudar o outro consiste em desembaraçá-lo dos laços da própria ilusão, a fim de que ele chegue a ser o que é. A partir do estudo desta obra , pode-se extrair o que aqui se denominou "Os Mandamentos do Psicoterapeuta Existencial". Mesmo não se encontrando nenhuma referência a esta produção de Kierkegaard em Rogers, foi este quem mais se aproximou desta proposta ao desenvolver estudos sobre a postura mais adequada de um psicólogo humanista, seja como psicoterapeuta, seja como educador, ou ainda como facilitador em situações de grupo. E agora, na medida em que se desdobram as recomendações do filósofo, vai se articular como se deve proceder no processo psicoterápico sob a ótica existencialista.
Tanto Kierkegaard quanto o psicoterapeuta existencial pretendem ajudar o homem, "energia viva autodeterminante", a encarar sem temor o seu ser e a enfrentar o paradoxo da existência humana. Para este filósofo, só através deste percurso é que se pode arrancar o homem do estágio estético para o religioso, ou seja, conduzi-lo do estético para a fé, enquanto que o psicólogo vai se valer destes mesmos recursos, a fim de que o homem se reconheça a si mesmo, assumindo a responsabilidade de suas escolhas e daquilo que continua a escolher ser, em cada momento de sua vida, sabendo-se, ao mesmo tempo, lançado às contingência do mundo.
Seguem, então, os "Mandamentos do Psicoterapeuta Existencial".2
1º) Pela impossibilidade de destruir uma ilusão por via direta, deve-se então fazê-lo por meios indiretos. Só assim a ilusão pode ser arrancada pela raiz.
2º) O método indireto organiza-se dialeticamente para em seguida retirar-se, timidamente. Desta forma, aquele que ajuda não presencia o reconhecimento que o homem faz de si mesmo, por ter vivido uma ilusão.
3º) Quando se pretende ajudar o outro, deve-se promover a aproximação, permanecendo na situação de acompanhar aquele que está sob a ilusão. Só desta forma haverá a possibilidade de tirarmos o homem de sua ilusão. Sabendo-se desde o inêcio que é uma tarefa difêcil em qualquer caso.
4º) Aquele que vive na ilusão, em maior parte, vivencia a categoria estético-ética. A fim de atacar com disposição a ilusão, deve-se chegar até ele, para então poderem caminhar juntos. O escritor religioso, para entrar em contato com os homens, deve começar com as obras estéticas. Esta é a estratégia.
5º) é importante ter paciência, pois com impaciência pode-se acabar fortalecendo a ilusão. Faz-se necessário ser cuidadoso para poder dissipar a tal ilusão.
6º) Para levar um homem ao seu centro é preciso chegar onde ele se encontra e começar por aê. "Este é o segredo da arte de ajudar os demais".
7º) Para se ajudar o outro deve-se entender mais do que ele entende, mas antes de tudo deve-se entender o que ele entende. Se assim não for, a ajuda de nada lhe valerá. Tudo começa quando se pode entender o que o outro entende e a forma como entende.
8º) Se orgulhoso do meu conhecimento, antes de ajudar o outro, o que desejo é que me admirem. O autêntico esforço para ajudar começa com uma atitude humilde. O que ajuda deve colocar-se como desconhecendo mais do que aquele a quem ajuda.
9º) Ajudar não significa ser soberano, e sim criado. Ajudar não significa ser ambicioso, e sim paciente. Ajudar significa ter que resistir, no futuro, à imputação de que se está equivocado e, portanto, não se entende o que o outro entende.
10º) Apenas se chega até aquele que está equivocado, mostrando-se um ouvinte complacente e atento.
11º) Aquele que está disposto a ajudar carrega consigo a responsabilidade e também deve despender de todo o esforço, porém sabendo que tudo isto só vai ter valor em relação ao resultado obtido.
12º) As interpretações poéticas, muitas vezes, ajudam aquele que fala do seu sofrimento, sem que ele saiba que não se compartilha de sua paixão e, sim, que se quer livrá-lo dela.
13º) Deve-se ser um ouvinte que senta e escuta o que o outro encontra mais prazer em contar, sem assombro.
14º) Apresentar-se com o tipo de paixão do outro homem: alegre para os alegres, em tom menor para os melancólicos, facilita a aproximação.
15º) Não temer fazer tudo isto, mesmo que na verdade não se possa fazer sem medo e temor.
16º) Chegar a ser o que se é consiste em chegar à interioridade através da reflexão, ou ainda significa desembaraçar-se dos laços da própria ilusão, o que também é uma modificação reflexiva.
17º) Quando um homem não quer ser conduzido, resta ainda obrigá-lo a dar-se conta do ponto em que ele está.

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

Os Paradoxos da Existência na História do Uso das Drogas

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa 1998

Com base na filosofia de Kierkegaard, o desespero é o sentimento que o homem experimenta por toda a sua existência ao se deparar com situações dialéticas tais como possibilidade / necessidade, finito / infinito, temporal / eterno, situações estas que são impossêveis de serem resolvidas mas podem ser vivenciadas a partir da sêntese. Cabe a seguinte reflexão acerca desta dialética histórica: será que o uso da droga aparece no homem como uma tentativa de resolver os paradoxos que a sua existência oferece? Há uma busca incessante de alcançar todos os possêveis: o infinito, a imortalidade, e desta forma não se confrontar com a necessidade, o finito, e o temporal, ou vice-versa. Assim, a droga pode ser uma estratégia que o homem utiliza para tentar resolver tais paradoxos.
A partir de uma revisão histórica da civilização humana, pode-se observar que a droga se fez presente na cotidianeidade do homem desde as primeiras notêcias de sua existência. Tanto nas civilizações antigas quanto nas indêgenas as plantas psicoativas como o ópio, a coca, a maconha eram bastante utilizadas e estavam ligadas a rituais religiosos, culturais, sociais, estratégico militares entre outros. Buscava-se através da magia e religião a cura de doenças, o afastamento do mal espêrito, obter sucesso nas caçadas e nas conquistas e atenuar a fome e o rigor do clima de determinadas regiões. Aqui já se pode constatar o enfrentamento do através do imaginário.
Observa-se que a utilização de substâncias psicoativas pelo homem vai apresentar valores e simbolismos especêficos, que vão variar de acordo com o contexto histórico cultural, em setores como o religioso/mêstico, social, econômico, medicinal, psicológico, climatológico, militar, e na busca do prazer. Portanto, o homem lança mão de veêculos inebriantes para modificar e/ou alterar sua percepção e humor, tendo como conseqüência, na maioria das vezes, uma alteração do comportamento.
Pesquisas arqueológicas concluêram que determinadas pinturas deixadas pelos homens da Idade da Pedra teriam sido criadas sob efeito de transes xamanêsticos que provavelmente incluêam o consumo de plantas psicoativas.
Nos tempos bêblicos, o vinho estava presente, e o homem já se deparava com a questão de como desfrutar dos prazeres das drogas sem, no entanto, tomar-se dependente delas. Ainda hoje o vinho é parte integrante de cerimônias religiosas como a católica, judaica e do candomblé.
O ópio era considerado como sêmbolo mitológico dos antigos gregos e era revestido de um significado divino e seus efeitos eram vistos como uma dádiva dos deuses destinada a acalmar os enfermos ou aqueles que de algum mal padeciam. Na Odisséia, Homero relata que a bela Helena ofereceu a Telêmaco uma bebida que fazia esquecer a dor e a infelicidade.
Em alguns momentos pode-se perceber a dificuldade de estabelecer a sêntese na dialética finito-infinito. Já na Antiguidade, na cultura européia, o vinho e a cerveja eram utilizados como drogas, em especial nas festas e, conseqüentemente, ocorria a embriagues. A sociedade de então, já preocupada com o consumo abusivo de tais substâncias, lança mão da religião e da moral na tentativa de exercer o controle. Novamente presente a contradição: o prazer ilimitado X a necessidade de limites.
Na modernidade, no cenário das grandes conquistas de terras através da navegação, a droga se apresenta como facilitadora para o domênio dos povos nativos e como fonte de enriquecimento para o conquistador.
Na Europa do século XIX, observou-se o abuso do ópio sob a forma medicinal. Com o advento da ciência e sua crescente modernidade, as drogas que a princêpio se apresentavam na forma de produto advindo da natureza, quando levadas para o laboratório foram transformadas e passaram a produzir outras, artificialmente - as drogas sintéticas.
As anfetaminas, ao serem lançadas em forma de comprimidos, em 1837, ficaram conhecidas como a nova maravilha capaz de revigorar as energias e elevar o estado de humor. Na segunda Grande Guerra foram largamente utilizadas pela população e pelos soldados para aplacar a fome, a fadiga e o sono. A morfina, principal constituinte do ópio, uma das potentes drogas analgésicas, com a descoberta simultânea da seringa, foi amplamente utilizada, no inêcio por razões terapêuticas e logo depois por dependência ao produto.
Nas duas Grandes Guerras, a droga fez-se presente, sua comercialização não era mais o fator primordial e sim estratégico, servindo ora para enfraquecer o inimigo, ora como amenizador da dor para os feridos e revigorante de energia para os soldados.
Em 1924, avaliava-se em torno de 100 mil os usuários de drogas. Entretanto, os trabalhos cientêficos eram proporcionalmente escassos. A opinião pública mostrava-se alheia ao fato, por falta de informação, e as autoridades não se mostravam eficazes.
O assunto era abordado por autores que faziam uso de drogas e descreviam de forma romântica, os efeitos e os rituais que cercavam o uso de drogas. Criavam na realidade uma auréola de exotismo e status; em tomo de tal prática.
Nos anos 50, a utilização de drogas sintéticas com efeito tranqüilizante, como as Benzodiazepinas, acentuou-se. Situações que eram consideradas mazelas existenciais começaram progressivamente a ser tratadas com esses calmantes, que ajudam a aliviar as tensões do dia e permitem um sono mais tranqüilo. Nos dias de hoje, o uso de calmante é prática costumeira em todas as classes sociais, faz parte da cultura da medicação.
Nos anos 60, o movimento hippie floresce com uma proposta revolucionária, onde a juventude transforma-se em um grupo de contestação radical aos valores incorporados pela sociedade pré e industrial. Através de suas roupas, músicas e drogas, o movimento hippie pregava uma "ideologia libertatória', que buscava "cair fora" do sistema social e cultural convencional do Ocidente. Buscando criar um mundo alternativo e novas formas de pensar, sentir e perceber a realidade, utilizavam-se de drogas psicodélicas e experiências mêticas que proporcionavam efeitos prazerosos e alteravam o estado de consciência possibilitando uma nova forma de aproximação do real. O uso de solventes orgânicos torna-se prática nos EUA e no Brasil a partir dos anos 70.
A faixa etária dos usuários de droga começa a se alargar: o que até os anos 50 era prática do adulto advindo geralmente de colônias asiáticas e intoxicadas por tratamentos terapêuticos fazendo uso pessoal, nos anos 70 amplia-se tanto para os adolescentes quanto para os idosos. Enquanto os jovens recorrem com maior freqüência às drogas ilêcitas corno a cola de sapateiro (solvente), maconha e a cocaêna, os idosos fazem uso das drogas lêcitas como o tabaco, o álcool, a cafeêna e os medicamentos.
Atualmente, ainda na tentativa de resolução do paradoxo, a droga se tornou assunto que traz grande polêmica, em todos os setores da sociedade, conseqüentemente, dividindo opiniões. No entanto, há uma tendência a enfatizar os perigos e malefêcios que a droga pode trazer, sendo ela associada à marginalidade, à violência, ao crime, à degradação, dando a falsa idéia de que está presente só nas classes inferiores.
Faz-se necessário refletir, a partir do método fenomenológico e dos princêpios existenciais, sobre a prática do psicólogo. Afirma Kierkegaard, em seu livro Meu ponto de vista explicativo da minha obra como escritor, de 1849:
"Um homem pode ter a sorte de fazer muito por outro, a de conduzir até onde deseja levá-lo; para nos atermos ao nosso tema principal e constante, pode ter a felicidade de o ajudar a tornar-se cristão. Mas essa possibilidade não está no meu poder; depende de uma multidão de circunstâncias, e sobretudo da vontade de outro. Nunca posso de modo algum impor a alguém uma opinião, uma convicção, uma crença; mas posso obrigá-lo a tornar-se atento."
O homem pode escolher utilizar-se da droga como forma de alcançar algo que lhe parece inacessêvel, como pode ser visto em sua história, em que tenta prolongar o prazer, aplacar a dor, dominar o outro, ultrapassar seus próprios limites e os impostos pelas contingências, diferenciar-se dos demais através de comportamentos bizarros, dicotomizar suas relações no mundo, nós-eles, e até mesmo obter sucesso. Na tentativa ilusória de tornar-se o que não se é, esquece-se do mundo e de si, opta por não escolher ou então apóia-se na sua liberdade para alcançar o impossêvel. Acredita poder controlar o tempo de acordo com seu desejo e até sentir-se imortal.
Portanto, já que não é possêvel enquanto psicoterapeuta dissipar a ilusão do homem na tentativa e resolver os paradoxos de sua vida, cabe-nos a tarefa de torná-lo atento, sendo um facilitador na abertura de seu leque de possibilidades, vislumbrando seu horizonte onde se trabalha com o possêvel e o real, na singularidade da vivência concreta de cada ser-aê-no-mundo.
Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa

O Ser-no Mundo da Criança: Uma Proposta de Enfrentamento do Inevitável

Myriam Moreira Protásio 1998

Quando se observa ao redor pode-se constatar que todos os seres vivos têm um fluxo em comum: nascem e morrem. Enquanto estão vivos passam por transformações que são comumente chamadas de desenvolvimento. Assim tem ocorrido continuamente, embora não seja um movimento cêclico, uma vez que um ser só nasce e morre concretamente uma vez.
O que chama a atenção neste processo são justamente as transformações, condicionadas por espaço e tempo. Assim como as águas de um rio não passam duas vezes no mesmo lugar nem no mesmo tempo, a existência também é condicionada ao tempo que flui e ao espaço, que se amplia ou se retrai.
Segundo Ariès (1981), em se tratando da existência humana, este ciclo obedece ao que denomina idades da vida: o bebê, a criancinha, o púbere, o adolescente, o jovem, o adulto ou a idade madura e a velhice - se o processo se cumpre até o fim, claro, pois pode ser interrompido a qualquer momento, e o é muitas vezes. Como qualquer outro ser vivo, espera-se que nasça, desenvolva, dê frutos, definhe e morra.
De que forma cada ser toma fé de sua situação, apercebe-se de suas limitações e possibilidades? O que liga cada ser a si mesmo em sua trajetória no tempo e espaço? Quando se observa um indivêduo adulto, sabe-se que tem uma existência que o precede, e que este indivêduo é o mesmo que nasceu há tantos anos atrás em tal localização. No caso das crianças, ou do bebê, imagina-se sua existência para a frente, para o indivêduo adulto que irá se transformar. O ser está então localizado sempre em tempo e espaço, e é dentro destes parâmetros que se constitui.
De que forma fica mantida a integridade deste ser, e mais, que elementos se tornariam necessários para que não se perdesse a si mesmo?
A existência humana dá-se continuamente num encontro eu-eu/eu-outro. Como ser fiel a si mesmo e ao outro ao mesmo tempo? Isto constitui o paradoxo humano preconizado por Kierkegaard.
Se não é possêvel escolher as contingências que limitam o existir, lugar e ano em que se nasce ou vive, os pais que se têm, a situação econômica e social, condição fêsica e cognitiva - é sabido que as pessoas colocam-se diferentemente nestas contingências -, esta talvez seja a marca de cada um. As contingências estão aê, são encontradas, mas como lidar com elas fica na esfera da pessoalidade.
Uma pedagoga recentemente comentava sobre sua filha, já com 15 anos: "é impressionante como reconheço nela uma forma própria de estar no mundo desde pequena: é ativa, questionadora - esta talvez seja sua essência, sua marca registrada.
Na situação terapêutica, diante do sofrimento do cliente que se nos apresenta, é possêvel verificar o que pode ser chamado de desvio de percurso. Os filósofos existencialistas diriam em unêssono: o que evidencia o desvio de percurso de um ser é sua angústia, sua ansiedade ou "culpa existencial" no mundo. (Yalom, 1981)
O trabalho do terapeuta ou educador apresenta-se como um voltar-se para o cerne, para aquilo que fundamenta o desespero do cliente, para que, a partir daê, ele instrumentalize-se em busca de um viver pleno, em consonância com seus sentimentos e pensamentos.
Como terapeuta de crianças uma questão torna-se pertinente: como instrumentalizar a criança, em qualquer etapa de seu desenvolvimento, para o deparar-se com suas contingências sem desviar-se de seu cerne pessoal?
Yalom, com a descrição dos "presentes da existência", aponta uma possibilidade. As pesquisas e relatos que apresenta possibilitam pensar no enfrentamento das situações como o caminho de instrumentalização ou prevenção da saúde, ou seja, da articulação entre pensamento, sentimento e ação apregoada por Kierkegaard.
As pesquisas demonstram que a tendência vigente é a da resolução. O que diferencia a resolução do enfrentamento? Os relatos abaixo, retirados do livro do Yalom, talvez possam ilustrar esta questão.
Uma criança de 5 anos e sua mãe, professora universitária, conversam:
Criança: "Animais também têm um fim?"
Mãe: "Sim, animais também têm um fim. Tudo que vive também chega a um fim".
Criança: "Eu não quero chegar a um fim. Eu gostaria de viver mais do que qualquer coisa na terra".
Mãe: "Você não precisa morrer. Você pode viver para sempre".
Outra criança, de 4 anos, que perdeu seu avô e insistia em que ele não estava morto, e que quando lhe contaram que seu avô morrera de velhice buscava certeza de que seu pai e sua mãe não eram velhos, teve o seguinte diálogo com o terapeuta numa sessão de brincadeira:
"Cr.: Na noite passada eu encontrei uma abelha morta.
Tr.: Parecia morta?
Cr.: Ela foi morta. Alguém pisou nela e ela morreu.
Tr.: Morta como as pessoas mortas?
Cr.: Elas estão mortas mas não parecem pessoas mortas. Nada como pessoas mortas.
Tr.: Há uma diferença?
Cr.: Pessoas estão mortas e abelhas estão mortas. Mas elas são postas no chão e não estão boas. Pessoas.
Tr.: Não estão boas?
Cr.: Depois de um tempo, ela viverá (a abelha). Mas não uma pessoa. Eu não quero falar sobre isto.
Tr.: Por quê?
Cr.: Porque tenho dois avós vivos.
Tr.: Dois?
Cr.: Um.
Tr.: O que aconteceu com um?
Cr.: Morreu há muito tempo atrás. Há cem anos.
Tr.: Você também viverá tanto?
Cr.: Cem anos.
Tr.: E então?
Cr.: Morrerei talvez.
Tr.: Todas as pessoas morrem.
Cr.: é, terei que morrer.
Tr.: Isto é triste.
Cr.: Mas terei que morrer, de qualquer forma.
Tr.: Terá?
Cr.: Com certeza. Meu pai morrerá. Isto é triste.
Tr.: Por que ele morrerá?
Cr.: Não tem importância.
Tr.: Você não quer falar sobre isto.
Cr.: Quero ver minha mãe agora.
Tr.: Eu levarei você até ela.
Cr.: Eu sei onde as pessoas mortas estão. Nos cemitérios. Meu velho avô está morto. Ele não pode sair.
Tr.: Você quer dizer onde ele está sepultado.
Cr.: Ele não pode sair. Nunca."
Na primeira situação há a preocupação em tranqüilizar a criança, livrá-la da situação angustiante usando como recurso uma inverdade: "Você pode viver para sempre". Este procedimento está aqui designado como resolução.
Na segunda, o que está mobilizando a criança é explorado e enfrentado: a angústia é aceita como condição humana, a morte como algo definitivo e certo. Este procedimento é o enfrentamento.
Fica a sugestão de começar a pensar a educação, ou seja, o processo de ir junto com a criança em seu caminho de se transformar em adulto, idoso, pelo prisma da conscientização de sua situação, ou seja, do reconhecimento das contingências que limitam seu existir (a morte, a solidão, a liberdade, o sentido), promovendo um enfrentamento com sua real condição de vida.
Myriam Moreira Protásio

Reflexões de Uma Aluna de Psicologia

Elaine Lopez Feijoo 1998

O que é psicologia, todos nós sabemos. O que a psicologia fez para se tornar ciência, fomos pesquisar lá atrás, no "túnel do tempo". O que é fenomenologia, vamos aprender. Antes, passaremos pela história e conquistaremos um espaço diferente daquele que estamos acostumados a viver: o espaço da conquista.
- Mas conquistar o quê?
- Conquistar o saber!
Não só conquistaremos, como também aprenderemos um pouco mais sobre as idéias filosóficas, e sobre os seres humanos na sua singularidade.
Vivenciar a experiência de fazer esse trabalho, que foi algo intencional, me fez acreditar que o homem vive em cicios mundanos, e que por isso, muitas vezes, cai na inautenticidade. Esse estado de queda nada mais é que se arriscar na própria vivência cotidiana. Risco este que nos angustia a cada momento de dúvida, a cada passo andado, a cada ar respirado, a cada momento indagado.
Nós, seres humanos, somo fenômenos? Somos objetos de nossa própria ação ou somos comandados pelo nosso psiquismo em plena atividade? Não sei, só sei, que não somos passêveis de manipulação e nem de experimentação.
Por que suspender nosso juêzos e valores diante de nós mesmos? Por que fazermos a tão falada epochè?
Porque tentamos frente ao outro aprender a sermos nós mesmos, ao mesmo tempo tentando nos debruçar sobre a verdade do outro, esquecemos de sermos nós mesmos. Eis o paradoxo. Esquecermos de que não existe uma verdade única, tão pouco absoluta, e que se temos alguma verdade, ela é nossa, é individual, é como nós mesmos: singular!
Temos de suspender nosso valores para entendermos a nós próprios? Ou temos apenas de pedir ajuda? Quantas possibilidades nós temos frente às nossas necessidades! Quanto somos livres para escolhermos nosso próprio caminhos! O quanto somos e não sabemos! Ou apenas quem somos na angústia do nosso saber, por escolhermos ter sabido e por não saber que essa foi a escolha dentro das possibilidades dadas pela vida.
Quanto a mim, por não ter me dado conta de que viver é uma escolha, e que, se vivo, sou livre até mesmo por escolher morrer, viverei eternamente a angústia de ser livre e de saber que, porque sou lançada a qualquer momento posso morrer!
Poderei Ainda Viver Mergulhada Na Possibilidade De Preferir Não Escolher, E Por Não Querer Escolher, Já Fiz Minha Própria Escolha. Posso Vir A Lamentar O Que Não Foi Escolhido, E Por Isso Sentir Uma Enorme Culpa Existencial, Mas Se Sou Um Ser Lançado No Mundo, Tenho Que Assumir A Lamentação Do Risco Que Não Quis Correr.

Elaine Lopez Feijoo

A Influência das Idéias de Brentano na Psicologia Fenomenológico-Existencial

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo 1997

Franz Brentano viveu de 1838 a 1917. O oposicionismo constituiu-se numa caracterêstica marcante de sua existência. Enquanto padre católico opôs-se ao princêpio da infalibilidade do papa. Como filósofo discordou do empirismo, do racionalismo e do criticismo karêtiano e, ainda, como psicólogo, rejeitou a tese associacionista acerca do conteúdo da consciência como algo permanentemente real, assim como as idéias de Wundt sobre a consciência como um epifenômeno, portanto reduzida ao fisiológico.
Breniano fundou a psicologia do ato, argumentando que o fenômeno psiquico se constitui cono atividade e não como conteúdo. Defendeu a proposta de um inétodo empêrico nos estudos dos fenômenos psêquicos, porém não experimental. Afirmou ainda que a psicologia, da mesma forma que as ciências da natureza, parte da percepção e da experiência. A percepção interna vai constituir-se no seu principal recurso metodológico, indispensável aos estudos dos fenômenos psicológicos.
O ponto de partida na sistematização da psicologia de Brentano não foram os parâmetros enunciados pela ciência de seu tempo. Foi buscar seus fundamentos na filosofia dos escolásticos, em São Tomás de Aquino, em quem encontrou a teoria do intention. Esta desenvolveu-se a partir da intentionaliter, que caracteriza o conteúdo do pensamento que se fixa no espêrito e este, por sua vez, estando também intentionaliter nas coisas. A noção de tempo enquanto temporalidade no lugar do temporal como abstração foi a influência extraêda de Santo Agostinho.
A proposta de uma sistematização da psicologia do ponto de vista empêrico, mesmo com uma fundamentação filosófica, não deixa de se estruturar como ciência. Propôs duas maneiras de se chegar aos fenômenos psêquicos: a psicologia descritiva ou psicognosia, visando alcançar os elementos últimos de que se constitui a totalidade da consciência, desta forma, chegar à marca comum de todas as singularidades: a intencionalidade; a segunda maneira propõe a averiguação das leis do fluir dos fenômenos psêquicos, denominando-a de psicologia genética.
A sistematização das idéias de Brentano vai exercer fortes influências em diferentes áreas de estudo, tais como a filosofia fenomenológica de Husserl, Max Sheler e Martin Heidegger; as investigações sobre ontologia e metafêsica, sobre tudo ao que se referem as análises categoriais e os estudos pormenorizados sobre Aristóteles e, por fim, as investigações lógico-linguêsticas.
A psicologia de Brentano vai partir de pressupostos diferentes dos da psicologia fisiológica e da comportamental. Na crêtica aos princêpios da fisiologia na psicologia, retoma Aristóteles quando em Tratado da alma refere-se aos movimentos voluntários, afirmando não existir nenhum órgão intermediário entre o desejo e o membro que se movimenta. Neste aspecto considerou, então, que os fatos relativos aos ógãos pertencem a outro ramo de estudos e não à psicologia. Quanto ao comportamento, não concorda que seja determinado alheio à vontade e o que o determina é a intenção que o anima.
O fato de Brentano ter renunciado ao determinismo biológico ou psicológico não significa que ele tenha retornado à psicologia como estudo da alma, nem tampouco que retomou a uma filosofia especulativa, a fim de refletir acerca dos problemas humanos. Ao negar a possibilidade de se levar para o laboratório o psiquismo, propôs que este fenômeno fosse abordado de forma empêrica, mas não experimental, e mais, que se abandonasse a introspecção, como método, já que esta implicava em uma observação interna, e aos fenômenos psicológicos cabia a percepção interna. Esta proposta fica claramente descrita em seu livro A psicologia do ponto de vista empêrico, no seguinte trecho:
Tal como as ciências da natureza, a psicologia repousa sobre a percepção e a experiência. Mas seu recurso essencial é a percepção interna de nossos próprios fenômenos psêquicos, consistindo em uma representação, um julgamento, o que é prazer e dor, desejo e aversão, esperança e inquietação, coragem e desencorajamento, decisão e intenção voluntária, nunca o saberêamos se a percepção interna de nossos próprios fenômenos não nos lho ensinasse.
Brentano retomou a alma como objeto de estudo da psicologia, porém referiu-se a esta como um substrato substancial de representações, de sensações, de imagens, de lembranças, de esperanças. Denominou a todas estas vivências de fenômenos psêquicos, e como tais são intencionados. São atos que se referem a objetos exteriores e os objetos são imanentes aos atos mentais. A intenção, constituindo-se na propriedade essencial da vida consciente, vai indicar uma direção ou uma tensão da consciência para o objeto. Neste sentido, o espêrito nos escolásticos passou a se denominar consciência na psicologia de Brentano.
A consciência na psicologia do ato vai diferir da consciência cartesiana, uma vez que esta se desdobra sobre si mesma e aquela tende sempre para algo no mundo. Em termos desta proposta teórica em psicologia, falar-se-á em consciência intencional. A intencionalidade como a principal caracterêstica da consciência vai modificar a noção de experiência como estrutura e como conteúdo. A consciência intencional constitui-se numa atividade, na qual os fatos fêsicos vão diferir dos fatos psicológicos, que vão ser denominados fenômenos.
Os fenômenos psêquicos constituem-se de experiências intencionais, ocorrem como representações, juêzos e fenômenos emocionais e possuem as seguintes propriedades: de intencionalidade, de se constituêrem como objetos de percepção interna: portanto evidentes, de existir efetivamente, de se mostrarem como unidade, de se apresentarem como atos de representação.
As idéias de Brentano vão dar inêcio a uma psicologia que irá buscar as propriedades da consciência através da experiência interna. A partir da sistematização de sua teoria vão surgir a psicologia da gestalt, a teoria de Lewin, a psicologia fenomenológica, enfim toda a psicologia cuja ênfase recaia sobre a consciência com sua caracterêstica essencial: a intencional idade.
BIBLIOGRAFIA
BRENTANO, Franz. Psichologie du point de vue empirique. Paris: Editions Montaigne, 1944.
ENNIS, Antonio. Aristóteles: tratado del alma. Buenos Aires: Editora Espasa, 1944.
HEIDBREDER, Edria. Psicologias do século XX. São Paulo: Mestre Jou, 198 1.

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

A Dependência Química do Ponto de Vista da Fenomenologia

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa 1997

O contato e utilização do homem com substâncias possuidoras de propriedades inebriantes ou de entorpecimento mental, tendo como alguns de seus efeitos as sensações de euforia e bem-estar, é um hábito tão antigo corno a própria humanidade. Remonta à história das civilizações, dos povos antigos, passando pela antigüidade clássica até o desenvolvimento da civilização judaico-cristã ocidental. Podem ser observadas citações do uso da droga, muitas vezes ligado a padrões culturais de comportamento que incluem aspectos também religiosos.
Ao passar dos tempos foi ganhando conotações diversificadas corno de um simples, dentre outros, elemento caracterizador de uma determinada cultura até representar uma questão que afeta todo o espectro de uma sociedade como nos dias de hoje. Envolve questões sociais, culturais, éticas, legais e até mesmo econômicas.
Consequentemente, os problemas relacionados às drogas e aos seus usuários tornam-se a cada dia, mais complexos, necessitando, por parte dos profissionais implicados, de um grande empenho no estudo da compreensão desse distúrbio.
Para um melhor entendimento, torna-se importante definir alguns conceitos:
DROGA - é qualquer substância que, introduzida num organismo, é capaz de modificar uma ou mais de suas funções (Comitê de Peritos em Dependência às Drogas da OMS).
DEPENDêNCIA - é um estado psêquico e muitas vezes fêsico resultante da interação entre o organismo e a droga. Caracteriza-se por respostas comportamentais que envolvem sempre a compulsão para a tomada da droga de modo contênuo, ou periódico, com a finalidade de sentir efeitos prazerosos e, às vezes, interromper o desconforto conseqüente de sua privação. Tolerância pode estar presente ou não. Um indivêduo pode apresentar dependência a mais de uma droga (Comitê de Peritos de Dependência às Drogas da OMS).
Este Comitê ressalva ainda que deve ser vista como um contintium relacionado ao grau de comprometimento da qualidade de vida do usuário e a amplitude das circunstâncias em que a substância controla o seu comportamento.
A 10º Edição de Classificação Internacional de Doenças (CID-10) descreve a Sêndrome de Dependência (F1 x.2).
Um conjunto de fenômenos fisiológicos, comportamentais e cognitivos, no qual o uso de uma substância ou uma classe de substância alcança uma prioridade muito maior para um determinado indivêduo que outros comportamentos que antes tinham mais valor. Uma caracterêstica descritiva central da sêndrome de dependência é o desejo (freqüentemente forte, algumas vezes irresistêvel) de consumir drogas psicoativas (as quais podem ou não ter sido medicamente prescritas), álcool ou tabaco. Pode haver evidência de que o retorno ao uso da substância após um perêodo de abstinência leva a um reaparecimento mais rápido de outros aspectos da sêndrome do que o que ocorre com indivêduos não dependentes.
Esta classificação considera como drogas: álcool, opióides, canabinóides, sedativos ou hipnóticos, cocaêna, outros estimulantes, inclusive cafeêna, alucinógenos, tabaco, solventes voláteis. Tais drogas são divididas em categorias especêficas.
Traça também diretrizes para o diagnóstico que deve somente ser feito, caso três ou mais dos seguintes critérios descritos resumidamente a seguir tenham sido preenchidos por algum tempo durante o último ano.
1 - Forte desejo ou compulsão para usar a substância.
2 - Dificuldade em controlar o consumo da substância, em termos de inêcio, término e quantidade.
3 - Presença da sêndrome de abstinência ou uso da substância para evitar o aparecimento da mesma.
4 - Presença de tolerância, evidenciada pela necessidade de aumentar a quantidade para obter o mesmo efeito anterior.
5 - Abandono progressivo de outros interesses ou prazeres em prol do uso da substância.
6 - Persistência no uso, apesar das diversas conseqüências danosas.
São várias as versões que procuram elucidar a questão da dependência, Sem dúvida, todas objetivando o mesmo fim, diminuir o sofrimento do homem que não conseguiu livrar-se da dependência de drogas.
A concepção biomédica acredita que o distúrbio psêquico é puramente orgânico. As teorias psicológicas enfatizam a influência do psêquico. A psicanálise explica este fenômeno a partir da estrutura do inconsciente do indivêduo. A abordagem comportamental destaca o papel dos acontecimentos do ambiente, como determinadores da conduta humana. Na abordagem fenomenológico-existencial, a dependência quêmica constitui-se numa possibilidade de escolha dentre as possêveis disponêveis no mundo.
é partindo dessa premissa que a psicoterapia Fenomenológico-Existencial desenvolve seu trabalho. Valoriza o ser como pluridimensional, livre e aberto às suas possibilidades, podendo escolher cuidar de si criando a sua vida, responsabilizando-se por seu projeto. E para isso é necessário que se desaliene, tomando consciência de si, de seus limites e possibilidades e de sua liberdade de escolher com responsabilidade.
Sendo assim, a farda, as máscaras, os estereótipos, os laudos, os atributos, não são considerados pelo terapeuta quando este indivêduo entra em seu consultório, não importa seu sobrenome.
Tal conduta não inviabiliza a utilização de recursos e métodos, e, norteado na Psicopatologia Fenomenológica, serão apresentadas algumas vivências do dependente quêmico que podem ser comparadas à vivência manêaca.
A vivência do tempo, para estes indivêduos, em muito se assemelha, daê sua dificuldade de lidar com a idéia de futuro, pois apenas existe a vivência do presente, e a tentativa voraz de eternizá-lo. O passado, portanto, não serve como orientador das experiências. Conseqüentemente, tais indivêduos poderão se sentir incapazes de fazer projetos.
São capazes de colocar-se em situações de grande risco em busca de algo que os satisfaça, os obstáculos não são percebidos, nada é impossêvel. Vivenciam a crença de que não existe limite para sua ação.
Evitam entrar em contato com sua própria intimidade, vivendo afastado de si mesmo. Sendo assim, não apresentam interesses ou motivação para desempenhar alguma tarefa por um tempo considerável. Muitas vezes seu interesse é excessivo por um número excessivo de coisas, mas permanecendo na superficialidade, não se aprofundando em nada.
Nas relações, o mesmo pode ocorrer, mostrando-se a princêpio disponêvel ao contato e vinculando-se facilmente, porém este vênculo é frágil e logo é desfeito.
Diante das contingências da vida, acaba fadado ao fracasso, pois seus objetivos não são alcançados, daê, a grande e desmedida dificuldade de lidar com a frustração e a angústia, mas sua vivência é uma perene tentativa compulsiva de negá-las.
Pode parecer na verdade que o dependente quêmico vive uma verdadeira guerra interna, onde vez por outra, batalhas são perdidas - recaêda. Quando se escolhe catar os cacos e retomar a briga, uma batalha foi vencida. Mas às vezes, algumas batalhas tornam-se verdadeiramente cruciais para a sobrevivência.
BIBLIOGRAFIA
ASSAD, Jaissa de Mello. Recentes avanços no entendimento e tratamento do abuso de drogas e dependência. Informação Psiquiátrica. Volume 14, n" 4, UERJ, outubro/novembro/dezembro de 1995.
BERGERET, T. Toxicomanias. Porto Alegre, Artes Médicas, 1991.
CID- 10. Classificação de transtornos mentais de comportamento - descrições clênicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre, Artes Médicas, 1995.
FEI.100, Ana Maria Lopez Calvo. Apostilas de Psicopatologia Fenomenológica do curso de Formação em Psicologia Fenomenológico-Existencial do IFEN, RJ, 1996.
JASPERS, Karl. Psicopatologia Geral. Vol. 1 e IL Atiteneu, B. P.
Manual de Prevenção Primária. Divisão de Atenção Primária - NEPAD - Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao uso de Drogas.
NUNES, Portella e Romildo B. Nardi. Psiquiatria e Saúde Mental. SP, Atheneu, 1996.
ROMERO, Emilio. O inquilino do Imaginário. SP, Lemos Editorial, 1994.

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa

A Psicomotricidade na Abordagem Fenomenológico-Existencial

Myriam Moreira Protásio 1997

O homem comunica-se através da linguagem verbal, ruas também através de gestos, movimentos, olhares, forma de caminhar - sua linguagem corporal.
Quando o bebê chora - ou não -, logo que nasce, o essencial não é seu choro, mas a comunicação, já precocemente estabelecida. Ao chorar, contorcer-se e fazer caretas o bebê mostra-se, ou seja, transmite-se ao mundo, bem antes de a conquista da palavra dar lugar à priorização da comunicação pela fala.
A esta comunicação, a este estar-no-mundo intenso dentro do limite da corporeidade - espaço próprio do sujeito -, pode-se nominar psicomotricidade.
A psicomotricidade do indivêduo desenvolve-se com sua maturação biológica, seguindo esquemas já conhecidos e definidos por médicos, biólogos, fisioterapeutas. O estudo da motricidade pode ser compreendido a partir do interesse despertado pelo diferente:
"O bizarro, o invulgar e o inesperado sempre atraêram a atenção e têm, freqüentemente, despertado temor e espanto. [...] A ocorrência de eventos e circunstâncias invulgares estimulam os esforços individuais e os movimentos sociais relacionados com a compreensão, a assistência, a prevenção e o controle dessas condições e eventos." (Telford, Charles W. e Sawrey, James M., 1976.)
Embora, conforme admitem os próprios autores, esta visão possa ir longe demais enquanto generalização, os estudos sobre o desenvolvimento humano parecem seguir esquemas, descrevendo o desenvolvimento normal para que se possa compreender o diferente.
A psicomotricidade não foge a esta regra quando define os padrões considerados normais para o desenvolvimento psicomotor (considerando descrições feitas pela neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia e áreas afins), desenvolvendo pontos de referência escalonados a partir dos quais poder-se-ão construir todos os testes infantis e as escalas de quociente de desenvolvimento; e, por conseguinte, avaliar e diagnosticar o atraso atual, assim como o desenvolvimento futuro. (Coste, Jean Claude, 198 1)
Também a psicologia desenvolveu seus primeiros testes de inteligência (A escala Binet-Simon) com o objetivo de investigar o potencial de aprendizagem de crianças que tinham dificuldade na execução de tarefas escolares. (em Bardon e Bermett, 1975).
Estes estudos têm levado ao conhecimento e compreensão daquilo que Heidegger chama de contingente, ou seja, o que é dado ao sujeito pelos limites de sua corporeidade - suas estruturas factuais. (Heidegger falará também das estruturas sociais, culturais, econômicas, geográficas. - Gilles, Thomas Ransom, 1989)
Isto posto, o objetivo deste trabalho é desenvolver a forma como uma abordagem fenomenológica para a psicomotricidade considerará não o contingente em si, mas o fenômeno, ou seja, a forma como o sujeito vivente integra-se ao vivido.
Mariana é uma menina de 9 anos. Chega ao psicólogo depois de 6 anos tratando-se com uma fonoaudióloga e uma fisioterapeuta - só agora a equipe conseguiu inserir o psicólogo no tratamento. A queixa apresentada pela fisioterapeuta é que Mariana recusa-se a fazer progressos, teve uma forte regressão no quadro geral e sofreu perda recente do avô materno. A queixa trazida pela mãe ressalta este elemento de regressão e uma grande preocupação com a possibilidade de mudança do quadro neurológico.
No psicodiagnóstico foi possêvel levantar grande limitação na comunicação verbal, assim como comprometimentos na psicomotricidade. Mariana baba muito, tem movimentos corporais descoordenados e grosseiros, apreensão e a motricidade fina pouco controladas. A dinâmica familiar aparece centrada na filha, ressaltando-se um sentimento de angústia pela possibilidade iminente de perda - principalmente por parte da mãe. O pai parece colocar-se alheio a esta dinâmica. No relato da mãe pode-se perceber a identificação dos sentimentos da filha a partir de seus próprios e a fragilidade de arribas, mantida sob controle.
é então sugerida psicoterapia para Mariana e orientação para os pais.
Começa a terapia. A linguagem verbal pobre suscita uma nova forma de comunicação e é a criança quem define a fórmula.
Sem palavras Mariana leva a terapeuta a conhecer seu mundo: a forma como viveu e foi tratada depois de um choque anafilático que sofrera com 42 dias de nascida que resultou em 20 dias de coma e lhe deixou seqüelas neurológicas. Sua comunicação verbal é, neste momento, bastante limitada. Assim Mariana vai "contando" a dor da mãe, a dedicação traduzida em forma de medicamentos, olhares angustiados, atenção intensa e constante. Mariana "conta" incessantemente como é estar doente, sob cuidados médicos e sob a preocupação ininterrupta da mãe, que mesmo fora de seu mundo espacial -estando no trabalho -monitora seu dia, sua rotina, já menina crescida. E reproduz em gestos e brincadeiras, com poucas palavras, a rotina dessa mãe que liga-se à vida da filha de longe, que sofre muito a perda do pai, que centra sua vida na vida da filha, -e da própria vida de Mariana, vivida pela expectativa da presença da mãe.
Revivendo sua história, Mariana vai redescobrindo-se, deixando de se ver pelo olhar da mãe para encontrar-se sob seus próprios olhos, seu próprio sentir. E descobre-se menina com 11, 12 anos, entrando na puberdade, optando por deixar as bonecas - "que são para crianças pequenas, de 6, 7 anos" - e olhando em volta, buscando algo que substitua a boneca. Descobre lápis, canetas, tesoura, cola. Vive a frustração de não reproduzir com suas mãos o que imaginou: a motricidade fina foi comprometida, e muitos movimentos amplos também, assim o grafismo denuncia a seqüela neurológica.
Como se tomada pela mão a terapeuta vai com Mariana em busca de alternativas. Encontram massinha plástica, argila, massa e rinha ita na hora, e um novo espaço vivencial inaugura-se.
A essa altura a linguagem verbal já fez progressos e Mariana fala do garoto que quer namorar, da empregada que faltou, da crise conjugal dos pais. A mãe queixa-se da filha malcriada, teimosa. Mariana está separada dela. Angustiada, pois separada. Separada, sendo si-mesma.
Paralelamente é feito o trabalho de orientação com os pais. A freqüência deste trabalho assume ritmo próprio, necessitando uma certa insistência da terapeuta para que ocorram os encontros. é trabalhada primeiramente a identificação dos sentimentos - objetivando não só a conscientização, mas também a destinação a quem de direito: você, mãe, sente isto. E o pai, como sente? E Mariana, como percebe isto? Este trabalho vai permitindo a diferenciação afetiva entre os membros da famêlia. Ao mesmo tempo são feitas orientações diretas, como levar Mariana para atividades de crianças, praças públicas - trabalha-se o medo da mãe de que, exposta, Mariana sofresse qualquer acidente e morresse. é explorada esta expectativa de morte iminente que persiste na mãe desde quando Mariana correu risco real de vida. A partir do trabalho de conscientização é possêvel abrir o leque de possibilidades em termos de expectativas em relação à filha, que num primeiro momento pula para o extremo de que Mariana se case e tenha filhos e assume proporções mais próximas do vivido, ou seja, perceber Mariana como uma criança de 11 anos, que está aprendendo a ler e a escrever, fazendo progressos em seu ritmo próprio, que entrando na puberdade busca informações e oscila entre brincar de boneca ou não, que desafia a mãe, fica malcriada.
O objetivo da descrição deste caso foi mostrar como a psicoterapia pode, a partir de linguagens diversas definidas pelo próprio cliente, chegar ao desenvolvimento e crescimento pessoais.
Citando Heidegger:
Se o homem é, é porque é "dizedor, mostrador" do Ser. é quando o homem fala, quando ele diz e faz florescer a presença que ele é. Se no juêzo, o falar que representa a linguagem aparece como um fazer do homem, um modo de expressão de sua subjetividade, esse falar não fundamenta o Ser do homem. A sua linguagem essencial não é o fato de o homem possuir a linguagem, mas antes o fato de o homem ser possuêdo pela linguagem. Pois só a linguagem fala realmente. é a linguagem que me faz sinal, e somos essencialmente um sinal... O homem só pode falar porque diz, porque mostra. (Gilles, Thomas Ransom, 1989)
A Psicomotricidade vai considerar o sujeito do ponto de vista, psicomotriz, ou seja, nesse linguajar não expresso apenas em palavras, mas em sua corporeidade. Trata-se de uma disciplina necessariamente multidisciplinar, uma vez que fará interseção com a Biologia, Psicologia, Fisioterapia, Lingüêstica, Medicina.
Ao fazer a leitura do indivêduo a Psicomotricidade estarão considerando o desenvolvimento psicomotor (reflexos, coordenação, esquema corporal, tonicidade), a estruturação espaço-temporal (tempo, espaço, ritmo, distância) e a lateralidade. Vai ler a forma como o indivêduo apropria-se de seu corpo considerando ser a corporeidade a instância central da relação com o mundo.
Enquanto proposta reeducadora buscará proporcionar o reencontro do indivêduo com seu próprio corpo, considerando as instâncias acima referidas, dando ênfase a esta linguagem corporal. Associada à Psicoterapia trabalhará o indivêduo enquanto manifestação corporal, mas também verbal, ou seja, considerando todas as formas de expressão e buscando os significados dados pelo próprio vivente à sua forma de estar e se colocar em seu mundo. Há aqui que considerar o contingente, ou seja, aquilo que é dado ao indivêduo por suas circunstâncias particulares - constituição fêsica, sua cultura, seu momento histórico e sua história pessoal.
Uma proposta Fenomenológica para a Psicomotricidade implica em que se trabalhe no indivêduo as categorias fenomenológicas da existência, quais sejam: o tempo (sua história), o espaço (sua corporeidade), o outro (seu ser-com as coisas e os outros, sua estranheza) e a obra (seu estar-no-mundo, seu fazer-se).
O exame das diversas dimensões do ser no mundo levou à afirmação de que o mundo é construêdo: espaço e tempo são criações do homem, que dispõe da fala para tentar a superação da estranheza. Nesse sentido pode-se dizer que o mundo é obra do homem. Trata-se, contudo, de obra implêcita, de um fazer contênuo que nada mais é do que o próprio processo da vida. (AUGRAS, Monique, 1986)
O método fenomenológico, através da compreensão, apreende o indivêduo em sua própria forma, captando seu estar-no-mundo, buscando a essência do sujeito nele mesmo, a intencionalidade da consciência expressa em palavras e gestos e traduzida em significados, apreendidos pelo próprio sujeito.
No fenômeno, é possêvel apreender o sentido, ou a polisemia (há sentidos), ou seja, os sentidos possêveis do vivido. "A voz do 'homem' é plurissignificativa." (Heidegger, 1987).
O fenomenológo estará, através da captação intuitiva (o sentido que salta aos olhos) e da integração significativa (quando busca de forma rigorosa o sentido daquele vivido, dentre inúmeros sentidos possêveis), fazendo a redução fenomenológica, ou seja, apreendendo a essência do fenômeno vivenciado naquela situação especêfica em questão, presentificada no aqui e agora, promovendo a amplificação da consciência e a construção de sua verdade na ação, explorando as categorias existenciais: autenticidade, liberdade, responsabilidade, angústia, medo.
Uma Psicomotricidade Fenomenológica compreenderá o indivêduo em sua forma de estar-no-mundo a partir de sua corporeidade, integrando significados e explorando rigorosamente outros sentidos, ampliando a consciência de si-mesmo e promovendo a congruência entre pensamento, sentimento e ação, que levará a uma vivência autêntica.
* A publicação do caso foi autorizada pelo cliente e por seu responsável. O nome atribuêdo ao cliente é fictêcio para resguardar sua identidade.
BIBLIOGRAFIA
AUGRAS, Monique, O Ser da Compreensão. Petrópolis: Vozes, 1986.
BARDON, Jack I. e BENNETT, Virginia C. Psicologia Escolar. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
COSTE, Jean-Claude. A Psicomotricidade. Rio de Janeiro, Zahar 1981.
FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. Textos e apontamentos dos grupos de estudos (1992 a 1995) e da Formação em Psicologia Fenomenológico Existencial (1996).
GILLES, Thomas Ransom, História do Existencialismo e da Fenomenologia. São Paulo: E.P.U., 1989.
HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o Humanismo. Lisboa: Guimarães Editores, 1987.
TELFORD, Charkes W. e SAWREY, James M. O Indivêduo Excepcional. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
Myriam Moreira Protásio

A Psicologia Fenomenológico-Existencial: Contextualização

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo 1996

Etimologicamente, psicologia significa ciência da alma. A curiosidade acerca da alma sempre foi e continua sendo uma caracterêstica do homem. O primitivo considerava a alma como uma entidade responsável pelas manifestações de natureza subjetiva, que se justificava pela vivência dos sonhos, pelas manifestações delirantes e pela experiência da morte, chegando a conceituá-la como substância sutil numa concepção materialista, constituindo um duplo.
Aristóteles, também interessado no estudo da alma, porém com o propósito de averiguar sua imortalidade, definiu-a como o ato prime.iro, ou seja, como perfeição fundamental de um ser vivo.
Atualmente, a alma ainda constitui-se num alvo de interesse do homem contemporâneo e é descrita como um substrato substancial das representações, das sensações, das emoções, dos sentimentos; enfim, de uma expressão psêquica.
Ocorre que com o advento da ciência, a alma, como objet6 de estudo, tomou-se inconcebêvel. A psicologia passou a ser definida como a ciência que estuda o comportamento. O comportamento substitui a alma, uma vez que a ele é possível empregar todos os princêpios cientêficos e seus respectivos métodos, principalmente o método hipotético-dedutivo.
Por conseguinte, a psicologia passou a pertencer ao rol das ciências naturais, que contêm no bojo de seu objeto de estudo os fenômenos fisiológicos. Neste aspecto a psicologia fica reduzida à fisiologia
Brentano surge em ferrada oposição a Wundt como a qualquer outra proposta que considere os fenômenos psicológicos como epifenômenos. Por outro lado defende que não cabe à psicologia preocupar-se com a condição da imortalidade da alma. Este ponto de vista fica claro na passagem de seu livro Psychologie du point de vie empirique (1944):
"Assim, anunciar-se-ia para a psicologia, o mesmo espetáculo que vimos acontecer com as ciências da natureza. Foi a ambição dos alquimistas de produzirem ouro, fazendo ligas de metal, que os levou às pesquisas quêmicas. Mas tendo atingido a maturidade, a ciência renunciou à transmutação como coisa impossêvel." (p.43)
Desta forma identifica-se em Brentano uma nova direção ao estudo dos fatos psicológicos. Define a psicologia como a ciência dos fenômenos psêquicos, cuja verdade é somente uma verdade relativa, visto que anterior ao comportamento há a intencionalidade do homem, cujo ato consciente se revela livre.
A partir da possibilidade oferecida por Brentano, surgem seus discêpulos com o propósito de
aprofundar os conhecimentos sobre intencionalidades Entre eles pode se destacar Freud e Husserl. Do primeiro desenvolve-se a Psicanálise, enfatizando a intencionalidade inconsciente. Do segundo surge a Fenomenologia destacando a consciência intencional.
Husserl cria o método fenomenológico, que não pretende ser dedutivo, nem empêrico, consistindo na descrição do fenômeno, tal como ele se apresenta, sem reduzi-lo a algo que não aparece. Considera como fundamental a relação. Epistemologicamente, opõe-se à visão de sujeito e objeto isolados, passando a considera-los como correlacionados, já que a consciência é sempre intencional.
A escolha pelo método fenomenológico pode parecer estranha. O método pode até ser questionado com relação à sua cientificidade. Nas palavras de Gil (1995), estudioso dos métodos da ciência: "a adoção do método fenomenológico implica uma mudança radical de atitude em relação à investigação cientêfica. Por essa razão é que embora muito comentado, o método fenomenológico não vem sendo muito empregado na pesquisa social" (p.33).
A psicologia fenomenológico-existencial propõe a aplicação do método fenomenológico aos princêpios existenciais constantes da realidade concreta.
A proposta existencialista inicia-se nas reflexões de Kierkegaard sobre a existência, que se opunham a toda filosofia racionalista, principalmente a Hegel, cujo interesse residia no homem abstrato, cuja vivência caberia num sistema explicativo e absoluto. Kierkegaard afirma a existência concreta, onde a verdade é construêda na vivência de cada homem, portanto sendo impossêvel ser abarcada por um sistema.
Heidegger vai ser o primeiro a empreender a tarefa de aplicar o método fenomenológico aos princêpios existenciais propostos por Kiekegaard, entre eles: a verdade, a liberdade, a angústia, o desespero, a solidão e a decisão.
Na psicologia foi Rollo May (1954), quem em seu livro Existencia primeiro sistematizou as idéias dos fenomenólogos tais como Binswanger, Medard Boss e outros, bem como explicitou a proposta da psicologia existencial como um enfoque capaz de lançar luz sobre uma maior compreensão da existência humana. A psicologia fenomenológico-existencial constitui-se numa tentativa de refletir e propor soluções às questões da vida cotidiana. Neste aspecto tem como pretensão não só a reflexão, como também extrair daê uma praxis.
MAY, Rollo; Ellenberg. Existencia. Madrid, Gredos, 1954.
BRENTANO, Franz. Psychologie du point de vie empirique. Paris, Montaigne, 1944.
HUSSERL, Edmund. A idéia da Fenomenologia. Lisboa, Edições 70, 1958.
GIL, Antônio C.. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo, Atlas, 1995.

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

O Teórico Prático na Abordagem Fenomenológico-Existencial

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa 1996

Atualmente a Psicologia dispõe de um conjunto vasto e rico de teorias, tendo assim o resultado de seu conhecimento cada dia m ais distanciado de hipóteses isoladas e do reducionismo de práticas empêrico-dedutivas. Isso se dá pela necessidade de fortalecer o nêvel teórico, buscando uma prática adequada, modificando assim o quadro de dimensão utilitária. Necessita cada vez mais de uma ética onde os dois lados da relação -profissional/cliente - não sejam mutilados por uma visão reducionista distorcida e injusta acerca do homem.
Busca como critério de verdade a prática da teoria, mas não como teoria aplicada, e sim como prática teorizada, sendo dinâmica, inovadora e responsável, podendo assim construir a qualidade de sua condição epistemológica.
O uso indiscriminado de técnicas dissociadas de um corpo teórico fidedigno, muitas vezes consequência da aceitação questionável e incondicional de "idéias novas", pode levar a psicologia, como qualquer outra ciência, a um caminho de pensamentos e procedimentos mistificadores e obscurantistas, tendo uma visão limitada pragmatista voltada apenas para seus resultados imediatos.
Construir uma prática sobre alicerces teóricos e epistemológicos é, na verdade, uma tentativa de caminhar em busca de uma praxis madura, consciente e orientada para o crescimento, saúde e bem estar de quem busca ajuda profissional.
Há muito tempo percebe-sé uma cisão entre o teórico e o prático. O pesquisador fica isolado na sua torre de marfim, descobrindo articulações teóricas belêssimas e sensêveis. Quando, destas articulações, o leitor toma conhecimento, a emoção o invade. Enquanto o prático atua através do tato, e suas atuações acabam por trazer resultados, mas vez por outra sente-se inseguro e pergunta-se –"sou mago?".
O vilão de toda essa história é a cisão entre o fazer e o saber. Daê a proposta de conscientização da necessidade de se construir a ponte do teórico como prático e desta forma levar segurança ao prático e realidade ao teórico.
Esta proposta é um convite à reflexão e desvelamento das várias possibilidades que a teoria propicia ao conhecimento psicológico do homem, esvasiando-se assim a idéia de que apenas restringe, sendo forma para encaixar tanto profissional quanto cliente.
Dá margens a atuações criativas e adequadas à necessidade da situação, propiciando ao profissional correr riscos de forma ética e madura.
Contudo, tal proposta suscita constantes questionamentos que acarretam angústia. E a cada instante dado, para responde-los depara-se com outros mais, e assim necessitando um maior aprofundamento, ou seja, um maior compromisso com o que se acredita. Necessita, então, de grande dose de motivação e perseverança, espêrito de aventura para alcançar as intempéries das profundezas do conhecimento, chegando, assim, às coisas mesmas. é claro que para isso é imprescindêvel agir energicamente contra o pragmatismo imediatista, que toma o lugar do processo onde a crença nas soluções fáceis atua como verdadeiro bloqueador mental, empobrecendo a visão e o trabalho profissional.
Finalizando, a prática teorizada é uma das possibilidades de que o profissional de psicologia dispõe. Cabe a ele reconhece-Ia como tal, escolhe-Ia e identificar dentro de si as ferramentas que possui para viabiliza-la, construindo desta forma seu aporte substancial, possibilitando assim um encontro autêntico entre sua razão e sua prática.
BIBLIOGRAFIA
MARIA, Madre Cristina. Psicologia Cientêfica Geral. Agir, Rio de Janeiro, 1965.
RICH, John Martin. Bases Humanistas na Educação. Zahar, Rio de Janeiro, 1975.
KIERKEGAARD, Soren. Mi punto de vista. El Libio, Aguilar., Madrid, 1987.
GUILES, Thomas Ransom, História do Existencialismo e da Fenomenologia. E.P.U.,São Paulo, 1989.
Informativo do Conselho Regional de Psicologia. Y região, março/ 1994.

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa