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A Psicomotricidade na Abordagem Fenomenológico-Existencial

Myriam Moreira Protásio 1997

O homem comunica-se através da linguagem verbal, ruas também através de gestos, movimentos, olhares, forma de caminhar - sua linguagem corporal.
Quando o bebê chora - ou não -, logo que nasce, o essencial não é seu choro, mas a comunicação, já precocemente estabelecida. Ao chorar, contorcer-se e fazer caretas o bebê mostra-se, ou seja, transmite-se ao mundo, bem antes de a conquista da palavra dar lugar à priorização da comunicação pela fala.
A esta comunicação, a este estar-no-mundo intenso dentro do limite da corporeidade - espaço próprio do sujeito -, pode-se nominar psicomotricidade.
A psicomotricidade do indivêduo desenvolve-se com sua maturação biológica, seguindo esquemas já conhecidos e definidos por médicos, biólogos, fisioterapeutas. O estudo da motricidade pode ser compreendido a partir do interesse despertado pelo diferente:
"O bizarro, o invulgar e o inesperado sempre atraêram a atenção e têm, freqüentemente, despertado temor e espanto. [...] A ocorrência de eventos e circunstâncias invulgares estimulam os esforços individuais e os movimentos sociais relacionados com a compreensão, a assistência, a prevenção e o controle dessas condições e eventos." (Telford, Charles W. e Sawrey, James M., 1976.)
Embora, conforme admitem os próprios autores, esta visão possa ir longe demais enquanto generalização, os estudos sobre o desenvolvimento humano parecem seguir esquemas, descrevendo o desenvolvimento normal para que se possa compreender o diferente.
A psicomotricidade não foge a esta regra quando define os padrões considerados normais para o desenvolvimento psicomotor (considerando descrições feitas pela neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia e áreas afins), desenvolvendo pontos de referência escalonados a partir dos quais poder-se-ão construir todos os testes infantis e as escalas de quociente de desenvolvimento; e, por conseguinte, avaliar e diagnosticar o atraso atual, assim como o desenvolvimento futuro. (Coste, Jean Claude, 198 1)
Também a psicologia desenvolveu seus primeiros testes de inteligência (A escala Binet-Simon) com o objetivo de investigar o potencial de aprendizagem de crianças que tinham dificuldade na execução de tarefas escolares. (em Bardon e Bermett, 1975).
Estes estudos têm levado ao conhecimento e compreensão daquilo que Heidegger chama de contingente, ou seja, o que é dado ao sujeito pelos limites de sua corporeidade - suas estruturas factuais. (Heidegger falará também das estruturas sociais, culturais, econômicas, geográficas. - Gilles, Thomas Ransom, 1989)
Isto posto, o objetivo deste trabalho é desenvolver a forma como uma abordagem fenomenológica para a psicomotricidade considerará não o contingente em si, mas o fenômeno, ou seja, a forma como o sujeito vivente integra-se ao vivido.
Mariana é uma menina de 9 anos. Chega ao psicólogo depois de 6 anos tratando-se com uma fonoaudióloga e uma fisioterapeuta - só agora a equipe conseguiu inserir o psicólogo no tratamento. A queixa apresentada pela fisioterapeuta é que Mariana recusa-se a fazer progressos, teve uma forte regressão no quadro geral e sofreu perda recente do avô materno. A queixa trazida pela mãe ressalta este elemento de regressão e uma grande preocupação com a possibilidade de mudança do quadro neurológico.
No psicodiagnóstico foi possêvel levantar grande limitação na comunicação verbal, assim como comprometimentos na psicomotricidade. Mariana baba muito, tem movimentos corporais descoordenados e grosseiros, apreensão e a motricidade fina pouco controladas. A dinâmica familiar aparece centrada na filha, ressaltando-se um sentimento de angústia pela possibilidade iminente de perda - principalmente por parte da mãe. O pai parece colocar-se alheio a esta dinâmica. No relato da mãe pode-se perceber a identificação dos sentimentos da filha a partir de seus próprios e a fragilidade de arribas, mantida sob controle.
é então sugerida psicoterapia para Mariana e orientação para os pais.
Começa a terapia. A linguagem verbal pobre suscita uma nova forma de comunicação e é a criança quem define a fórmula.
Sem palavras Mariana leva a terapeuta a conhecer seu mundo: a forma como viveu e foi tratada depois de um choque anafilático que sofrera com 42 dias de nascida que resultou em 20 dias de coma e lhe deixou seqüelas neurológicas. Sua comunicação verbal é, neste momento, bastante limitada. Assim Mariana vai "contando" a dor da mãe, a dedicação traduzida em forma de medicamentos, olhares angustiados, atenção intensa e constante. Mariana "conta" incessantemente como é estar doente, sob cuidados médicos e sob a preocupação ininterrupta da mãe, que mesmo fora de seu mundo espacial -estando no trabalho -monitora seu dia, sua rotina, já menina crescida. E reproduz em gestos e brincadeiras, com poucas palavras, a rotina dessa mãe que liga-se à vida da filha de longe, que sofre muito a perda do pai, que centra sua vida na vida da filha, -e da própria vida de Mariana, vivida pela expectativa da presença da mãe.
Revivendo sua história, Mariana vai redescobrindo-se, deixando de se ver pelo olhar da mãe para encontrar-se sob seus próprios olhos, seu próprio sentir. E descobre-se menina com 11, 12 anos, entrando na puberdade, optando por deixar as bonecas - "que são para crianças pequenas, de 6, 7 anos" - e olhando em volta, buscando algo que substitua a boneca. Descobre lápis, canetas, tesoura, cola. Vive a frustração de não reproduzir com suas mãos o que imaginou: a motricidade fina foi comprometida, e muitos movimentos amplos também, assim o grafismo denuncia a seqüela neurológica.
Como se tomada pela mão a terapeuta vai com Mariana em busca de alternativas. Encontram massinha plástica, argila, massa e rinha ita na hora, e um novo espaço vivencial inaugura-se.
A essa altura a linguagem verbal já fez progressos e Mariana fala do garoto que quer namorar, da empregada que faltou, da crise conjugal dos pais. A mãe queixa-se da filha malcriada, teimosa. Mariana está separada dela. Angustiada, pois separada. Separada, sendo si-mesma.
Paralelamente é feito o trabalho de orientação com os pais. A freqüência deste trabalho assume ritmo próprio, necessitando uma certa insistência da terapeuta para que ocorram os encontros. é trabalhada primeiramente a identificação dos sentimentos - objetivando não só a conscientização, mas também a destinação a quem de direito: você, mãe, sente isto. E o pai, como sente? E Mariana, como percebe isto? Este trabalho vai permitindo a diferenciação afetiva entre os membros da famêlia. Ao mesmo tempo são feitas orientações diretas, como levar Mariana para atividades de crianças, praças públicas - trabalha-se o medo da mãe de que, exposta, Mariana sofresse qualquer acidente e morresse. é explorada esta expectativa de morte iminente que persiste na mãe desde quando Mariana correu risco real de vida. A partir do trabalho de conscientização é possêvel abrir o leque de possibilidades em termos de expectativas em relação à filha, que num primeiro momento pula para o extremo de que Mariana se case e tenha filhos e assume proporções mais próximas do vivido, ou seja, perceber Mariana como uma criança de 11 anos, que está aprendendo a ler e a escrever, fazendo progressos em seu ritmo próprio, que entrando na puberdade busca informações e oscila entre brincar de boneca ou não, que desafia a mãe, fica malcriada.
O objetivo da descrição deste caso foi mostrar como a psicoterapia pode, a partir de linguagens diversas definidas pelo próprio cliente, chegar ao desenvolvimento e crescimento pessoais.
Citando Heidegger:
Se o homem é, é porque é "dizedor, mostrador" do Ser. é quando o homem fala, quando ele diz e faz florescer a presença que ele é. Se no juêzo, o falar que representa a linguagem aparece como um fazer do homem, um modo de expressão de sua subjetividade, esse falar não fundamenta o Ser do homem. A sua linguagem essencial não é o fato de o homem possuir a linguagem, mas antes o fato de o homem ser possuêdo pela linguagem. Pois só a linguagem fala realmente. é a linguagem que me faz sinal, e somos essencialmente um sinal... O homem só pode falar porque diz, porque mostra. (Gilles, Thomas Ransom, 1989)
A Psicomotricidade vai considerar o sujeito do ponto de vista, psicomotriz, ou seja, nesse linguajar não expresso apenas em palavras, mas em sua corporeidade. Trata-se de uma disciplina necessariamente multidisciplinar, uma vez que fará interseção com a Biologia, Psicologia, Fisioterapia, Lingüêstica, Medicina.
Ao fazer a leitura do indivêduo a Psicomotricidade estarão considerando o desenvolvimento psicomotor (reflexos, coordenação, esquema corporal, tonicidade), a estruturação espaço-temporal (tempo, espaço, ritmo, distância) e a lateralidade. Vai ler a forma como o indivêduo apropria-se de seu corpo considerando ser a corporeidade a instância central da relação com o mundo.
Enquanto proposta reeducadora buscará proporcionar o reencontro do indivêduo com seu próprio corpo, considerando as instâncias acima referidas, dando ênfase a esta linguagem corporal. Associada à Psicoterapia trabalhará o indivêduo enquanto manifestação corporal, mas também verbal, ou seja, considerando todas as formas de expressão e buscando os significados dados pelo próprio vivente à sua forma de estar e se colocar em seu mundo. Há aqui que considerar o contingente, ou seja, aquilo que é dado ao indivêduo por suas circunstâncias particulares - constituição fêsica, sua cultura, seu momento histórico e sua história pessoal.
Uma proposta Fenomenológica para a Psicomotricidade implica em que se trabalhe no indivêduo as categorias fenomenológicas da existência, quais sejam: o tempo (sua história), o espaço (sua corporeidade), o outro (seu ser-com as coisas e os outros, sua estranheza) e a obra (seu estar-no-mundo, seu fazer-se).
O exame das diversas dimensões do ser no mundo levou à afirmação de que o mundo é construêdo: espaço e tempo são criações do homem, que dispõe da fala para tentar a superação da estranheza. Nesse sentido pode-se dizer que o mundo é obra do homem. Trata-se, contudo, de obra implêcita, de um fazer contênuo que nada mais é do que o próprio processo da vida. (AUGRAS, Monique, 1986)
O método fenomenológico, através da compreensão, apreende o indivêduo em sua própria forma, captando seu estar-no-mundo, buscando a essência do sujeito nele mesmo, a intencionalidade da consciência expressa em palavras e gestos e traduzida em significados, apreendidos pelo próprio sujeito.
No fenômeno, é possêvel apreender o sentido, ou a polisemia (há sentidos), ou seja, os sentidos possêveis do vivido. "A voz do 'homem' é plurissignificativa." (Heidegger, 1987).
O fenomenológo estará, através da captação intuitiva (o sentido que salta aos olhos) e da integração significativa (quando busca de forma rigorosa o sentido daquele vivido, dentre inúmeros sentidos possêveis), fazendo a redução fenomenológica, ou seja, apreendendo a essência do fenômeno vivenciado naquela situação especêfica em questão, presentificada no aqui e agora, promovendo a amplificação da consciência e a construção de sua verdade na ação, explorando as categorias existenciais: autenticidade, liberdade, responsabilidade, angústia, medo.
Uma Psicomotricidade Fenomenológica compreenderá o indivêduo em sua forma de estar-no-mundo a partir de sua corporeidade, integrando significados e explorando rigorosamente outros sentidos, ampliando a consciência de si-mesmo e promovendo a congruência entre pensamento, sentimento e ação, que levará a uma vivência autêntica.
* A publicação do caso foi autorizada pelo cliente e por seu responsável. O nome atribuêdo ao cliente é fictêcio para resguardar sua identidade.
BIBLIOGRAFIA
AUGRAS, Monique, O Ser da Compreensão. Petrópolis: Vozes, 1986.
BARDON, Jack I. e BENNETT, Virginia C. Psicologia Escolar. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
COSTE, Jean-Claude. A Psicomotricidade. Rio de Janeiro, Zahar 1981.
FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. Textos e apontamentos dos grupos de estudos (1992 a 1995) e da Formação em Psicologia Fenomenológico Existencial (1996).
GILLES, Thomas Ransom, História do Existencialismo e da Fenomenologia. São Paulo: E.P.U., 1989.
HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o Humanismo. Lisboa: Guimarães Editores, 1987.
TELFORD, Charkes W. e SAWREY, James M. O Indivêduo Excepcional. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
Myriam Moreira Protásio

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03 Maio 2018
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