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A Dependência Química do Ponto de Vista da Fenomenologia

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa 1997

O contato e utilização do homem com substâncias possuidoras de propriedades inebriantes ou de entorpecimento mental, tendo como alguns de seus efeitos as sensações de euforia e bem-estar, é um hábito tão antigo corno a própria humanidade. Remonta à história das civilizações, dos povos antigos, passando pela antigüidade clássica até o desenvolvimento da civilização judaico-cristã ocidental. Podem ser observadas citações do uso da droga, muitas vezes ligado a padrões culturais de comportamento que incluem aspectos também religiosos.
Ao passar dos tempos foi ganhando conotações diversificadas corno de um simples, dentre outros, elemento caracterizador de uma determinada cultura até representar uma questão que afeta todo o espectro de uma sociedade como nos dias de hoje. Envolve questões sociais, culturais, éticas, legais e até mesmo econômicas.
Consequentemente, os problemas relacionados às drogas e aos seus usuários tornam-se a cada dia, mais complexos, necessitando, por parte dos profissionais implicados, de um grande empenho no estudo da compreensão desse distúrbio.
Para um melhor entendimento, torna-se importante definir alguns conceitos:
DROGA - é qualquer substância que, introduzida num organismo, é capaz de modificar uma ou mais de suas funções (Comitê de Peritos em Dependência às Drogas da OMS).
DEPENDêNCIA - é um estado psêquico e muitas vezes fêsico resultante da interação entre o organismo e a droga. Caracteriza-se por respostas comportamentais que envolvem sempre a compulsão para a tomada da droga de modo contênuo, ou periódico, com a finalidade de sentir efeitos prazerosos e, às vezes, interromper o desconforto conseqüente de sua privação. Tolerância pode estar presente ou não. Um indivêduo pode apresentar dependência a mais de uma droga (Comitê de Peritos de Dependência às Drogas da OMS).
Este Comitê ressalva ainda que deve ser vista como um contintium relacionado ao grau de comprometimento da qualidade de vida do usuário e a amplitude das circunstâncias em que a substância controla o seu comportamento.
A 10º Edição de Classificação Internacional de Doenças (CID-10) descreve a Sêndrome de Dependência (F1 x.2).
Um conjunto de fenômenos fisiológicos, comportamentais e cognitivos, no qual o uso de uma substância ou uma classe de substância alcança uma prioridade muito maior para um determinado indivêduo que outros comportamentos que antes tinham mais valor. Uma caracterêstica descritiva central da sêndrome de dependência é o desejo (freqüentemente forte, algumas vezes irresistêvel) de consumir drogas psicoativas (as quais podem ou não ter sido medicamente prescritas), álcool ou tabaco. Pode haver evidência de que o retorno ao uso da substância após um perêodo de abstinência leva a um reaparecimento mais rápido de outros aspectos da sêndrome do que o que ocorre com indivêduos não dependentes.
Esta classificação considera como drogas: álcool, opióides, canabinóides, sedativos ou hipnóticos, cocaêna, outros estimulantes, inclusive cafeêna, alucinógenos, tabaco, solventes voláteis. Tais drogas são divididas em categorias especêficas.
Traça também diretrizes para o diagnóstico que deve somente ser feito, caso três ou mais dos seguintes critérios descritos resumidamente a seguir tenham sido preenchidos por algum tempo durante o último ano.
1 - Forte desejo ou compulsão para usar a substância.
2 - Dificuldade em controlar o consumo da substância, em termos de inêcio, término e quantidade.
3 - Presença da sêndrome de abstinência ou uso da substância para evitar o aparecimento da mesma.
4 - Presença de tolerância, evidenciada pela necessidade de aumentar a quantidade para obter o mesmo efeito anterior.
5 - Abandono progressivo de outros interesses ou prazeres em prol do uso da substância.
6 - Persistência no uso, apesar das diversas conseqüências danosas.
São várias as versões que procuram elucidar a questão da dependência, Sem dúvida, todas objetivando o mesmo fim, diminuir o sofrimento do homem que não conseguiu livrar-se da dependência de drogas.
A concepção biomédica acredita que o distúrbio psêquico é puramente orgânico. As teorias psicológicas enfatizam a influência do psêquico. A psicanálise explica este fenômeno a partir da estrutura do inconsciente do indivêduo. A abordagem comportamental destaca o papel dos acontecimentos do ambiente, como determinadores da conduta humana. Na abordagem fenomenológico-existencial, a dependência quêmica constitui-se numa possibilidade de escolha dentre as possêveis disponêveis no mundo.
é partindo dessa premissa que a psicoterapia Fenomenológico-Existencial desenvolve seu trabalho. Valoriza o ser como pluridimensional, livre e aberto às suas possibilidades, podendo escolher cuidar de si criando a sua vida, responsabilizando-se por seu projeto. E para isso é necessário que se desaliene, tomando consciência de si, de seus limites e possibilidades e de sua liberdade de escolher com responsabilidade.
Sendo assim, a farda, as máscaras, os estereótipos, os laudos, os atributos, não são considerados pelo terapeuta quando este indivêduo entra em seu consultório, não importa seu sobrenome.
Tal conduta não inviabiliza a utilização de recursos e métodos, e, norteado na Psicopatologia Fenomenológica, serão apresentadas algumas vivências do dependente quêmico que podem ser comparadas à vivência manêaca.
A vivência do tempo, para estes indivêduos, em muito se assemelha, daê sua dificuldade de lidar com a idéia de futuro, pois apenas existe a vivência do presente, e a tentativa voraz de eternizá-lo. O passado, portanto, não serve como orientador das experiências. Conseqüentemente, tais indivêduos poderão se sentir incapazes de fazer projetos.
São capazes de colocar-se em situações de grande risco em busca de algo que os satisfaça, os obstáculos não são percebidos, nada é impossêvel. Vivenciam a crença de que não existe limite para sua ação.
Evitam entrar em contato com sua própria intimidade, vivendo afastado de si mesmo. Sendo assim, não apresentam interesses ou motivação para desempenhar alguma tarefa por um tempo considerável. Muitas vezes seu interesse é excessivo por um número excessivo de coisas, mas permanecendo na superficialidade, não se aprofundando em nada.
Nas relações, o mesmo pode ocorrer, mostrando-se a princêpio disponêvel ao contato e vinculando-se facilmente, porém este vênculo é frágil e logo é desfeito.
Diante das contingências da vida, acaba fadado ao fracasso, pois seus objetivos não são alcançados, daê, a grande e desmedida dificuldade de lidar com a frustração e a angústia, mas sua vivência é uma perene tentativa compulsiva de negá-las.
Pode parecer na verdade que o dependente quêmico vive uma verdadeira guerra interna, onde vez por outra, batalhas são perdidas - recaêda. Quando se escolhe catar os cacos e retomar a briga, uma batalha foi vencida. Mas às vezes, algumas batalhas tornam-se verdadeiramente cruciais para a sobrevivência.
BIBLIOGRAFIA
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JASPERS, Karl. Psicopatologia Geral. Vol. 1 e IL Atiteneu, B. P.
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NUNES, Portella e Romildo B. Nardi. Psiquiatria e Saúde Mental. SP, Atheneu, 1996.
ROMERO, Emilio. O inquilino do Imaginário. SP, Lemos Editorial, 1994.

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa

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03 Maio 2018
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