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Os Mandamentos do Psicoterapeuta Existencial

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo 1998

Soren Aybe Kierkegaard viveu de 1813 a 1845, percurso no qual desenvolveu sua extraordinária obra, que versa sobre a filosofia do existir, assim denominada para diferenciar-se das obras de seu precursor Hegel, cuja filosofia consistia na sistematização do ser. O ser que se enquadraria num sistema abstrato que, tratando do homem enquanto abstração, distanciava-se do real, na medida em que se aproximava de um ideal.
Kierkegaard, de formação teológica e filosófica, pretende alcançar o existente cru sua realidade concreta, portanto vivida. E mais, teve como objetivo, através de suas obras literárias, levar o homem ao conhecimento de si mesmo; nisto consistia a sua atitude de fé. Como autor religioso, forma pela qual ele próprio se denominou, dizia ter como projeto, esforçar-se no sentido de tirar o homem da ilusão de ser aquilo que não é.
O percurso e os meios pelos quais este autor vai promover tal façanha vêm descritos em seu livro publicado em sua primeira edição em 1846: Meu ponto de vista. Começa afirmando que o segredo da arte de ajudar o outro consiste em esforçar-se para encontrá-lo onde ele está e, então, começar daê. Continua mais adiante descrevendo o processo de ajuda e afirma: "Ajudar o outro consiste em desembaraçá-lo dos laços da própria ilusão, a fim de que ele chegue a ser o que é. A partir do estudo desta obra , pode-se extrair o que aqui se denominou "Os Mandamentos do Psicoterapeuta Existencial". Mesmo não se encontrando nenhuma referência a esta produção de Kierkegaard em Rogers, foi este quem mais se aproximou desta proposta ao desenvolver estudos sobre a postura mais adequada de um psicólogo humanista, seja como psicoterapeuta, seja como educador, ou ainda como facilitador em situações de grupo. E agora, na medida em que se desdobram as recomendações do filósofo, vai se articular como se deve proceder no processo psicoterápico sob a ótica existencialista.
Tanto Kierkegaard quanto o psicoterapeuta existencial pretendem ajudar o homem, "energia viva autodeterminante", a encarar sem temor o seu ser e a enfrentar o paradoxo da existência humana. Para este filósofo, só através deste percurso é que se pode arrancar o homem do estágio estético para o religioso, ou seja, conduzi-lo do estético para a fé, enquanto que o psicólogo vai se valer destes mesmos recursos, a fim de que o homem se reconheça a si mesmo, assumindo a responsabilidade de suas escolhas e daquilo que continua a escolher ser, em cada momento de sua vida, sabendo-se, ao mesmo tempo, lançado às contingência do mundo.
Seguem, então, os "Mandamentos do Psicoterapeuta Existencial".2
1º) Pela impossibilidade de destruir uma ilusão por via direta, deve-se então fazê-lo por meios indiretos. Só assim a ilusão pode ser arrancada pela raiz.
2º) O método indireto organiza-se dialeticamente para em seguida retirar-se, timidamente. Desta forma, aquele que ajuda não presencia o reconhecimento que o homem faz de si mesmo, por ter vivido uma ilusão.
3º) Quando se pretende ajudar o outro, deve-se promover a aproximação, permanecendo na situação de acompanhar aquele que está sob a ilusão. Só desta forma haverá a possibilidade de tirarmos o homem de sua ilusão. Sabendo-se desde o inêcio que é uma tarefa difêcil em qualquer caso.
4º) Aquele que vive na ilusão, em maior parte, vivencia a categoria estético-ética. A fim de atacar com disposição a ilusão, deve-se chegar até ele, para então poderem caminhar juntos. O escritor religioso, para entrar em contato com os homens, deve começar com as obras estéticas. Esta é a estratégia.
5º) é importante ter paciência, pois com impaciência pode-se acabar fortalecendo a ilusão. Faz-se necessário ser cuidadoso para poder dissipar a tal ilusão.
6º) Para levar um homem ao seu centro é preciso chegar onde ele se encontra e começar por aê. "Este é o segredo da arte de ajudar os demais".
7º) Para se ajudar o outro deve-se entender mais do que ele entende, mas antes de tudo deve-se entender o que ele entende. Se assim não for, a ajuda de nada lhe valerá. Tudo começa quando se pode entender o que o outro entende e a forma como entende.
8º) Se orgulhoso do meu conhecimento, antes de ajudar o outro, o que desejo é que me admirem. O autêntico esforço para ajudar começa com uma atitude humilde. O que ajuda deve colocar-se como desconhecendo mais do que aquele a quem ajuda.
9º) Ajudar não significa ser soberano, e sim criado. Ajudar não significa ser ambicioso, e sim paciente. Ajudar significa ter que resistir, no futuro, à imputação de que se está equivocado e, portanto, não se entende o que o outro entende.
10º) Apenas se chega até aquele que está equivocado, mostrando-se um ouvinte complacente e atento.
11º) Aquele que está disposto a ajudar carrega consigo a responsabilidade e também deve despender de todo o esforço, porém sabendo que tudo isto só vai ter valor em relação ao resultado obtido.
12º) As interpretações poéticas, muitas vezes, ajudam aquele que fala do seu sofrimento, sem que ele saiba que não se compartilha de sua paixão e, sim, que se quer livrá-lo dela.
13º) Deve-se ser um ouvinte que senta e escuta o que o outro encontra mais prazer em contar, sem assombro.
14º) Apresentar-se com o tipo de paixão do outro homem: alegre para os alegres, em tom menor para os melancólicos, facilita a aproximação.
15º) Não temer fazer tudo isto, mesmo que na verdade não se possa fazer sem medo e temor.
16º) Chegar a ser o que se é consiste em chegar à interioridade através da reflexão, ou ainda significa desembaraçar-se dos laços da própria ilusão, o que também é uma modificação reflexiva.
17º) Quando um homem não quer ser conduzido, resta ainda obrigá-lo a dar-se conta do ponto em que ele está.

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

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03 Maio 2018
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