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A Escuta da Queixa através da Redução Fenomenológica

Myriam Moreira Protásio 1999

Seguem-se alguns relatos apresentados na primeira sessão. O cliente é convidado, depois de cerca de 40 minutos de conversa, a organizar junto com o terapeuta o que seria sua queixa, ou seja, o que o traz para a terapia.

1. "Eu queria que essa angústia saêsse de dentro de mim, que essa tristeza saêsse, que eu ficasse mais forte, que eu parasse de chorar."

2. "Não estou mais gostando de mim mesma. Me sinto um saco. Tem várias coisas acontecendo, mas mesmo assim eu não precisaria estar tão chata."

3. Pr. relata dificuldade de relacionamento com mãe, irmãos e amigos, pensamentos constantes em morrer e tentativa de suicêdio. "Quero entender melhor tudo isto."

4. "Insegurança. Me sinto descontrolada emocionalmente, tenho dificuldade de relacionamento. Preciso aprender a ouvir as pessoas, me expressar melhor. Sou muito fechada."

5. Mãe percebe a filha agressiva consigo e com receio de chegar perto do pai. Apresentou um episódio de somatização.

6. Mãe relata a filha de mal com a vida, com dificuldade para dormir, para relaxar. Necessidade além do normal de se mexer, irrita-se com tudo.

Observando os relatos acima, alguns sentimentos chamam a atenção: confusão, desamor, impotência diante de sua dor, insegurança. O sentimento de confusão, ou seja, de "não entender o que está acontecendo comigo" é repetido de forma implêcita ou explêcita.

O terapeuta é colocado, desde o primeiro momento, diante desta "confusão", a qual é seu primeiro instrumento de trabalho, uma vez que vai partir do que tem, do que é concreto.

Irvin Yalom já atentava para isto, quando em seu Psicoterapia existencial, no capêtulo 6, dizia:

(...) freqüentemente termino minha primeira sessão de consulta sem um quadro claro do problema do paciente: eu considero o fato de o paciente não poder definir o problema como o problema.

De fato, parece óbvio que, diante de um "Eu queria que essa angústia saêsse de dentro de mim, que essa tristeza saêsse, que eu ficasse mais forte, que eu parasse de chorar", a questão primeira que surge é: O que está acontecendo? O que torna esta criatura tão triste? O que a leva a sentir-se tão frágil e impotente diante de sua dor?

Kierkegaard afirma, em Desespero humano:

"O homem que desespera tem um motivo de desespero, é o que se pensa durante um momento, e só um momento: porque logo surge o verdadeiro desespero, o verdadeiro rosto do desespero. Desesperado de uma coisa, o homem desespera de si".

à medida que, nas reduções fenomenológicas, o lugar onde o cliente está vai ficando mais claro para ele mesmo, abre-se um largo leque em que, não raro, surgem esclarecimentos como:

- Quero dar conta disto, e sou infeliz por não consegui-lo;

- Não posso ser feliz se o outro, que é importante para mim, não o é;

- Preciso que o outro seja diferente do que é, para que eu seja feliz.

O cliente sente-se confuso entre seu querer e suas possibilidades, vivendo o paradoxo na ação, desejando algo e agindo de forma diversa desta, como quando quer ser feliz, mas coloca sua felicidade na ação do outro.

Quanto mais difusa a queixa, mais esforço será despendido no sentido de esclarecê-la, e a melhora do cliente estará condicionada a este esclarecimento. Só de posse de seu próprio sentido, de sua forma de colocar-se no mundo, o cliente apresentará mudança, o que coloca o terapeuta no urgente lugar de facilitador do esclarecimento do cliente sobre si mesmo e sobre o seu estar-no-mundo, sob pena de o processo tornar-se mais longo em virtude da dificuldade do cliente de compreender sua questão.

A experiência aponta que, uma vez esclarecida as incongruências em cada paradoxo enfrentado, o processo terapêutico ganha agilidade. O que leva a crer que a maior parte do processo é usada neste ir e vir, processo este guiado pelas possibilidades de cada um dos envolvidos em cada momento terapêutico vivido.

é da possibilidade de escuta do terapeuta e de suas intervenções e da possibilidade do cliente de ouvir e atentar que advém a mudança, objetivo final da terapia. A cada nova luz que se abre neste processo mútuo de escuta e fala, novos passos, pequenos ou grandes, são dados pelo cliente em direção a si próprio, e pelo terapeuta em direção a seu objetivo, requerido desde o primeiro momento, que é facilitar o autoconhecimento, tendo como conseqüência que o cliente viva de forma confortável consigo próprio, ou seja, reconhecendo-se como um ser de possibilidades e impossibilidades, existindo dentro desta condição.

Neste caminho de reconhecer suas possibilidade e impossibilidades, o cliente deparar-se-á com as condições inerentes à existência, conforme Yalom, ou com os paradoxos da existência, conforme Kierkegaard. No enfrentamento destas condições estará a abertura para o viver pleno, em consonância consigo mesmo e com o mundo.

Myriam Moreira Protásio

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03 Maio 2018
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