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Uma Reflexão sobre a Atuação do Psicólogo na Dependência Química

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa 1999

A idéia deste artigo partiu de uma questão levantada por um ouvinte, em palestra proferida na II Jornada de Psicoterapia Fenomenológico-Existencial da UGF, intitulada "O uso de drogas na humanidade: unidades de significado", que pretende elucidar alguns aspectos da práxis psicoterapêutica fenomenológico-existencial.

A questão é: Que trabalho psicoterapêutico pode ser desenvolvido com um usuário de drogas que já apresenta dependência, mas que não se considera um dependente, na linguagem do senso comum, nega sua dependência?

Cabe esclarecer alguns pontos da questão: Como o psicoterapeuta fica ciente de que se trata de um usuário de drogas, e mais, da sua dependência? Tais informações podem ser fornecidas pelo próprio cliente ao tentar negar a situação, por familiares, quando se trata de menores, por profissionais que o acompanham, em clênicas em que esteve internado para desintoxicação, e também através de indêcios que o próprio cliente fornece em suas sessões psicoterapêuticas.

O segundo aspecto refere-se ao entendimento desta negação (seja ela implêcita, quando não é mencionada pelo cliente, ou explêcita, quando o cliente em seu relato não assume esta condição) por um terapeuta que compreende o homem dentro de uma perspectiva fenomenológico-existencial. Quando uma pessoa nega sua dependência, revela um obscurecimento da sua consciência, motivo pelo qual não consegue constatar sua própria condição do existir no mundo.

O objetivo da psicoterapia numa perspectiva fenomenológico-existencial é proporcionar o autoconhecimento do homem, que vai se dar a partir da constatação da sua responsabilidade pela construção de sua própria existência e, assim, para assumir o que quer ser a cada momento de sua vida, vivendo o risco como mola propulsora para seu devir, sabendo-se lançado em um mundo contingencial.

O trabalho psicoterapêutico se dará a partir da queixa que o cliente traz, e que na maioria das vezes consiste na angústia daquele momento.

Na medida em que o cliente relata suas dificuldades vivenciadas em seu dia-a-dia, ou mesmo quando fica na tagarelice, é função do psicoterapeuta, por meio de intervenções, compreender bem como possibilitar que esta pessoa constate quais as estratégias que vem empregando para lidar com os paradoxos de sua existência. é uma reflexão sobre como o cliente atua nas relações que estabelece com o mundo e consigo mesmo e qual o sentido dado a tais vivências. Portanto, a partir do relato da cotidianidade, numa dialética de escuta e fala, trabalham-se as questões inerentes à existência.

O trabalho desenvolvido pelo psicoterapeuta norteado pelos princêpios fenomenológico-existenciais, com pessoas que apresentam dependência de drogas, assumindo ou não a sua condição no mundo, se constituirá a partir da realidade apresentada pela pessoa que lhe solicita ajuda, aceitando-a dentro de suas possibilidades. Nesta relação de confiança e cumplicidade que vai se estabelecendo, torna-se imprescindêvel à compreensão do ser que se revela e que se encontra desesperado diante do desconhecimento de si. Cabe, então, deixar fora desta relação qualquer coisa que possa ferir a premissa básica que consiste em ver o homem como um ser-aê desprovido de sentido e que cabe a este dar um sentido próprio a cada momento da sua existência.

Portanto, o que é enfocado não é o uso de drogas, e sim o dasein. Nesta caminhada é importante averiguar qual o sentido dado à droga por esta pessoa na sua existência, assim como a todas as outras escolhas que faz em seu percurso.

Para tal, é fundamental que o psicoterapeuta esteja atento ao discurso do cliente, pois, como afirma Heidegger, "é na linguagem que o indivêduo revela aquilo que ele esconde".

A liberdade de escolha na construção de seu projeto existencial pode ser abordada quando o cliente relata como age no mundo, lidando com seus compromissos, seus afazeres do dia-a-dia, com os problemas que surgem em sua rotina, como dirige seu automóvel e lida com as leis e normas vigentes em seu contexto e, por fim, a forma como encara as possêveis conseqüências de seus atos.

A condição da singularidade do ser lançado em um mundo contingencial desprovido de sentido deve ser abordada. O psicoterapeuta atuará como um facilitador na constatação por parte do cliente de sua solidão, cabendo somente a este a missão de dar significado para sua própria vida.

Os limites da própria existência também são temas que se desenrolam no processo psicoterapêutico. A morte, as perdas, as limitações, sejam elas ligadas ao ser ou às contingências do ambiente, levam o cliente a considerar sua finitude como uma realidade concreta, assim podendo vislumbrar com maior nitidez seu horizonte existencial, pois reconhece seus limites e possibilidades. Todo este processo se dá a partir desta premissa, na qual o terapeuta atua a partir do que é possêvel ser dado pelo cliente, respeitando seu momento existencial.

O medo do enfrentamento dos paradoxos da existência é ponto fundamental a ser trabalhado no processo psicoterapêutico com usuários de drogas. A aceitação da temporalidade e o reconhecimento de sua realidade concreta diferenciando-a das possibilidades facilitarão o encontro do ser consigo mesmo e o ser com o mundo.

Concluindo, a questão proposta pode ser escIarecida pelas afirmações de Feijoo (1):

Quando se pretende ajudar o outro, deve-se promover a aproximação, permanecendo na situação de acompanhar aquele que está sob a ilusão. Só desta forma haverá a possibilidade de tirarmos o homem de sua ilusão. Sabendo-se desde o inêcio, que é uma tarefa difêcil em qualquer caso.

Para levar um homem ao seu centro é preciso chegar onde ele se encontra e começar por aê. Este é o segredo da arte de ajudar os demais.


Para se ajudar o outro deve-se entender mais do que ele entende, mas antes de tudo deve-se entender o que ele entende. Se assim não for a ajuda de nada lhe valerá. Tudo começa quando se pode entender o que o outro entende e a forma como entende.


Quando um homem não quer ser conduzido, resta ainda obrigá-lo a dar-se conta do ponto em que está.

(1) FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. "Os mandamentos do psicoterapeuta existencial", Informativo IFEN, ano 3, n.1, Rio de Janeiro, mar. a998.


Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa

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03 Maio 2018
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