• Telefones: (21) 2268-9907 - (21) 2208-6473 - (21) 98725-6475 Email: ifen@ifen.com.br

O Advento das Ciências Numa Tentativa de Resolução dos Paradoxos

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo 1999

Deparar-se com os grandes mistérios da vida sempre intrigou o homem. A natureza se lhe impõe e ele cria mitos de que, uma vez explicando a sua origem, acredita conhecer seus mistérios e portanto desvendá-los, como faziam os antigos; dominando-a, como presumiu a ciência, e tornando-a submissa, enfim, acredita que não mais ocorrerão os imprevistos. Este confronto entre a tentativa de controle do natural por parte do homem e a constatação de sua contingência vai constituir o paradoxo da existência. Segundo Kierkegaard, aê reside o desespero humano, condição essencial do homem enquanto tal.

Os diferentes sistemas, seja o religioso, o polêtico ou o cientêfico, a todo momento proclamam que descobriram ou estão prestes a descobrir a chave que permitirá o desvelamento de todos os mistérios da existência humana, do universo, do cosmos. Desta forma libertarão o homem do desespero frente ao acaso, ao inesperado.

As superstições, segundo muitos antropólogos, eram a forma pela qual o homem antigo mostrava seu conhecimento sobre a natureza dos fenômenos, e através dos presságios realizava suas previsões. Conta Russel que os sacerdotes utilizavam o conhecimento de tal fenômeno para ganhar a confiança do povo e, ainda, que o venerável Beda afirmara que "os cometas pressagiam revoluções de reinos, pestilências, guerras, vendavais ou calor".

Para Kierkegaard as contradições caracterizam o viver, enquanto que para a matemática o paradoxo constitui-se numa proposição tal, que dela se deduz uma contradição, e como tal deve ser eliminada, daê todo o esforço da ciência em conciliar onda e partêcula. Enquanto a ciência apregoa a resolução dos contrários, pela exclusão de um dos pólos, a Filosofia do existir acredita na conciliação. A tentativa de solucionar o paradoxo resulta em fracasso, ou, nas palavras de Kierkegaard, "em queda".

O discurso filosófico e cientêfico desde os meados do século XVII revela tal pretensão. Com o afastamento das idéias dogmáticas da filosofia e da religião, uma vez que estas não davam uma solução prática para ps dilemas humanos e, que suas respostas não diminuêam as diferentes inquietações daquele refletia acerca das problemáticas da natureza, os diferentes pensadores da época vão buscar outras estratégias para driblar o inevitável. Russel a este respeito comenta: "Devido às obras de grandes homens do século XVII, desenvolveu-se uma nova visão do mundo, e foi esta visão, não argumentos especêficos, que causou a decadência da crença em presságios, feitiçaria, possessão demonêaca, etc".

Assim, com as descobertas de Galileu, com a filosofia de Descartes e com o modelo matemático de Newton, formulou-se a ilusão de que o homem havia resolvido todos os paradoxos da existência. As equações diferenciais explicariam todos os fenômenos da natureza, o complexo reduzido ao simples não esconderia mais os seus mistérios, a revelação dos mecanismos tornava explêcito todo o funcionamento da natureza. Com o tempo, a ciência evoluiria e o homem não mais ficaria surpreendido com o inesperado, e, dominando a natureza, faria desta sua serva e criada, pois no centro do universo ele era o rei todo poderoso. O inevitável, tão temido, como por exemplo, a velhice e a morte, não seria mais um problema, pois, uma vez descobertos, mecanismos, não mais se morreria nem tampouco se envelheceria. Estava-se a caminho da fonte da eterna juventude, e da mesma forma que Zeus escapou de seu destino, tomando-se imortal, acreditou o homem também estar às vésperas de tamanha proeza.

Não tardou para que se chegasse à conclusão de que se tratava de um triste engodo. A ciência havia descoberto muito sobre a natureza, mas não a dominara, ao contrário, quanto mais a sacrificava com as novas descobertas, mais conseqüências maléficas sofria o homem. A medicina desenvolveu muitos recursos cirúrgicos, vacinas, novas drogas, porém a morte ainda estava presente. Conseguiram-se mais anos de vida, porém distantes da fonte da eterna juventude. O homem conquistou mais conforto, com a criação de suas máquinas, de suas quêmicas, porém pagou seu preço, poluiu seu ar, sua água, sua terra, e outra vez viu-se frente a frente com o inevitável. Sentiu-se frágil, vulnerável, entregue.

O homem, no entanto, não se deu por vencido, inventando uma transformação dos conceitos, mudando sua relação com a natureza e tomando-se seu aliado. Acreditou novamente que, estabelecendo novo acordo, de forma mais humilde, não solucionaria todos os inevitáveis, mas adiaria alguns, principalmente aqueles que estavam relacionados com a sua decadência fêsica: a doença e a morte.

Surgem outros cientistas e filósofos e mudam-se os conceitos. Afirma Prigogine (1997): "A velha aliança rompeu-se; o homem sabe finalmente que está só na imensidão indiferente do Universo que emergiu por acaso". Está morto o demônio de Laplace, não é mais possêvel deduzir o passado nem prever o futuro, como postulado por este cientista.

Novas teorias tentaram desbravar os mistérios: eletromagnética, relatividade restrita, óptica e magnetismo e teoria quântica.

Surgiu novamente no homem a esperança, de uma vez conhecendo a natureza dos paradoxos, poder pactuar com a natureza, não mais dominando-a, mas estabelecendo o pacto, tendo garantias de que se pode negociar com ela.

As novas teorias apontaram para outros caminhos. Postularam o tempo circular e o homem criou a ilusão da eternidade, logo venceram a morte. Conceituaram os quanta como atemporais, portanto não esvaecem com o tempo, e o homem cria novamente a fantasia da possibilidade da eterna juventude. Preconizam a desordem como estimuladora dos processos de auto­organização, e o homem prontamente conclui: a doença enquanto desordem no orgânico pode, por um processo, de auto-organização, retomar a saúde, basta que o pensamento assim o queira.

Teorias, filosofias, mitos, crenças, enfim, quase todas as criações humanas parecem ter como finalidade básica resolver o paradoxo da existência humana. Faz-se pertinente o conselho popular: "Para se tornar imortal plante uma árvore, escreva um livro e tenha um filho". Desta forma resolve-se o dilema do tempo. A dialética do espaço das possibilidades pode ser resolvida recorrendo-se aos manuais de pensamento positivo. Quanto ao paradoxo da finitude. basta compactuar com a natureza. Outra vez parece que não há o que temer, a ciência forneceu os fundamentos, basta que a vida seja organizada segundo esta nova forma de pensar, que aliás dizem que é antiga, mas se esquecendo que na Antiguidade a vida humana tinha uma duração menor e que o homem estava muito mais exposto às contingências dadas pela natureza.

Outra questão a se pensar é em parte levantada por Prigogine: será a metamorfose da ciência uma tentativa do homem de estabelecer um coerência intelectual? Mais ainda, estabelecer uma coerência pode ser uma forma de resolver os paradoxos, com os quais a todo momento o homem se confronta e, sentindo-se impotente, luta incessantemente utilizando-se da razão e da paixão? De acordo com Kierkegaard, esta é uma condição que, mais do que o caminhar ereto, torna o homem realmente humano.

A crença no fato de que a invenção da ciência pode constituir­se numa tentativa de resolução do paradoxo da vida parece ser compartilhada por Isabele Stengers no seguinte trecho: "A fuga para o mito de uma ciência misteriosa e todo-poderosa não pode senão contribuir para mascarar a dificuldade real dos problemas postos pela história".

Em Desespero humano defende Kierkegaard a idéia de que o existente resulta de uma lógica provocada pela tensão entre os contrários. Tentar acabar com o dilema implica então a própria destruição. Encontrar-se a si mesmo só é possêvel pela aceitação dos contrários e não pela eliminação. Ao definir o homem diz este autor: "O homem é espêrito, energia viva autodeterminante". Energia pela tensão estabelecida entre o finito e o infinito, o temporal e o eterno, a necessidade e a possibilidade, a razão e a paixão. E é nesta dialética que o homem vive o desespero, que toma possêvel a passagem do virtual para o real, do eterno para o agora, do infinito para si mesmo, dando-se conta de suas possibilidades, reconhecendo os seus limites: sua temporalidade, sua necessidade e sua finitude.

A cientificidade se valida ao cumprir sua função na necessidade, na técnica, nas máquinas. O problema se instaura quando se quer incluir aê os fenômenos da vida. Como diz Edgar Morin, a autonomia do sujeito é incompatêvel com a visão mecanicista e determinista. Este autor afirma ainda que indivêduo e espécie vão constituir sempre um paradoxo.

As estratégias da ciência, desprendendo-se do necessário, perdem-se nos possêveis e debanda para o imaginário. Na ilusão, sem nenhum elo com o real, perde-se o que há de mais natural: o fluxo da vida.

Cabe aqui parafrasear Pascal, que, mesmo tendo sido um ilustre matemático, portanto racionalista, soube humildemente reconhecer os limites da razão: "Os segredos da natureza estão ocultos e, ainda que produza incessantemente, nem sempre descobriremos seus efeitos... e, por mais que apareça sempre idêntica a si mesma, não é sempre igualmente conhecida".

A existência, caracterizando-se pelo seu constante movimento, não pode jamais ser abarcada num sistema. O existir implica­do num eterno paradoxo nunca será definido a partir de critérios cientêficos ou quaisquer outros. O homem, por caracterizar-se como desesperado, vai sempre viver a contradição de, mesmo se sabendo mortal, buscar a imortalidade; de, mesmo sabendo-se finito, procurar a infinitude; de, ainda sabendo-se necessidade, caminhar no sentido das possibilidades, enquanto razão, se apercebendo paixão. é este vai-e-vem, este movimento, que fundamenta a sêntese do existente: o eu que se faz em cada instante de sua existência, inventando mais uma estratégia racional no sentido de vencer os paradoxos, mas que na paixão sabe que só lhe resta a entrega e que viver é uma atitude de fé, da qual nem o mito e nem a ciência são suficientes para destrinchar os seus mistérios.
Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

Sobre Nós

O IFEN é uma instituição sem fins lucrativos que, desde sua criação, visa divulgar uma outra possibilidade de considerar a Psicologia, como uma área de estudo que se dirige à existência tal como ela se dá no próprio ato de existir.

Informações

03 Maio 2018
03 Maio 2018
03 Maio 2018

Contatos

Rua Barão de Piracinunga, 62 - Tijuca - Rio de Janeiro/RJ - CEP: 20521-170
Telefones: (21) 2268-9907
(21) 2208-6473
(21) 98725-6475
E-Mail: ifen@ifen.com.br
© 2018 Your Company. All Rights Reserved. Designed By JoomLead