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Um Encontro com Kierkegaard -Romance de David Lodge

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa 2001

David Lodge, escritor inglês, em seu romance Terapia, publicado em 1997 no Brasil, cria uma história em que o personagem Lawrence Passmore narra suas reflexões e vivências a partir de seu encontro com as idéias de Sören Kierkegaard.
Lawrence é um homem descontente com sua imagem, sente um estranhamento de si mesmo, percebe-se incapaz de viver o presente, sempre correndo atrás do espectro da perfeição que lhe escapa. Queixa-se também de uma dor constante no joelho diagnosticada como Sêndrome da Disfunção do Joelho - SDJ.
Questiona-se por que não se sente satisfeito, visto que sua vida financeira é muito boa, sua estrutura familiar é estável, goza de boa saúde (com exceção do joelho) e considera-se bem-sucedido profissionalmente. Pergunta-se então: qual é o problema? E responde: "Não vou Saber Disso Jamais. Em sua terapia, define assim seu estado de infelicidade: "A questão é que eu não fui sempre infeliz. Ou razoavelmente contente. Mas em algum lugar, em alguma época, perdi aquilo, o pique de viver pura e simplesmente, sem ficar ansioso ou deprimido" (Lodge, 1997, p. 26). Na tentativa de resolver seus problemas, submete-se a diferentes tratamentos: médico e cirúrgico, fisioterapia, psicoterapia, cognitivo-comportamental, aromaterapia e acupuntura, sem, no entanto, alcançar os resultados esperados.
Certo dia, ao sentir-se intrigado com a pergunta: "Como vai a sua angst?", Lawrence sai em busca de seu significado e depara-se com a definição filosófica: "(filosofia do existencialismo) a angústia causada pela percepção do homem de que seu futuro não é determinado, mas deve ser escolhido livremente", e sente-se, então, invadido pela sensação de auto-reconhecimento: "Angústia é o que sinto quando acordo de madrugada num suor frio. Angústia aguda, mas sem ser especêfica. Claro que logo associo coisas especêficas a ela. Impotência, por exemplo" (ibid., p. 77).
A partir daê, vai ao encontro de Kierkegaard e de suas obras: Temor e tremor, Desespero humano, Conceito de angústia, Ou... ou e Repetição. Sente-se afetado pelas temáticas abordadas pelo filósofo, mesmo tendo a impressão de que não compreendeu do que se tratava. Inicia com a leitura de O conceito de angústia, tema que mais o interessou, mas decepciona-se com o êndice que insistia em trazer o "pecado".
Ainda sem compreender bem, avalia como interessante o seguinte trecho: "Eu posso dizer que aprender a conhecer a angústia é uma aventura com que cada homem tem de confrontar-se se não quiser cair na perdição ou por não conhecer a angústia ou por se afundar nela. Aquele, portanto, que tenha aprendido certo a viver em angústia, aprendeu a coisa mais importante". Lawrence questiona-se então: "Mas o que é aprender certo a viver a angústia e como é diferente de se afundar nela? Isso é o que gostaria de saber" (ibid., p. 106).
Resolve então ler Ou... ou, por sentir-se intrigado com o têtulo, e em um dos trechos, novamente tem a mesma sensação já experimentada anteriormente, a de que Kierkegaard estava falando diretamente de sua condição. Reconhece-se, portanto, no homem que o filósofo define como homem infeliz: "O homem infeliz está sempre ausente para com ele mesmo, nunca presente para ele" (ibid., p. 119). Lawrence discorda, em princêpio, do filósofo: "Não, errado, meu caro Sören - nunca paro de pensar em mim, esse é que é o problema. Mas, quando analisei, pensar em mim não é a mesma coisa que estar presente para mim" (ibid., p. 119). Percebe, portanto, que nunca está presente a si mesmo porque está sempre vivendo no passado, de recordações ou no futuro, vivendo na expectativa.
à medida que vai descobrindo Kierkegaard, Lawrence percebe sua forma estética de ser no mundo. Reflete sobre a diferença entre a dúvida e o desespero, e sobre a impossibilidade de desvencilhar-se de escolher e viver a dúvida e o arrependimento pelas possibilidades não escolhidas. Na busca de encontrar-se consigo mesmo, de retratar-se e de resgatar sua felicidade, faz um retrospecto de sua vida, indo ao encontro de vivências, pessoas e lugares importantes. Ao fazer o caminho de Compostela, Lawrence compreende verdadeiramente os estágios da existência: estético, ético e religioso. O peregrino do tipo Estético busca deliciar-se com os prazeres pitorescos do Camino. O peregrino do tipo ético vivencia a dúvida, questionando-se por todo o percurso se realmente é um peregrino verdadeiro. E o peregrino do tipo Religioso, o verdadeiro peregrino, apenas caminha, pois vive o estado de profunda interioridade, aceitando os paradoxos do existir humano sem tentar resolvê-los como nos outros dois tipos de peregrinação.
Lawrence, por fim, parece não mais sofrer de SDJ, e sua persistente frase "Não vou Saber Disso Jamais" é tomada como condição do existir.

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa

Referência bibliográfica:
LODGE, David. Terapia. São Paulo: Scipione, 1997.

Psicoterapeuta em clênica particular, diretora e professora do IFEN.

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03 Maio 2018
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