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Sören Kierkegaard e o "Cavaleiro da Fé"

Myriam Moreira Protasio 2001

Abraão, aos 70 anos, vê cumprir-se a promessa de Deus para consigo: "terás grande descendência". Torna-se pai na velhice. Quando recebe de Deus a orientação de que deve sacrificar seu filho, Abraão crê e crumpre a ordem divina.
Em Temor e tremor, publicado em 7 de outubro de 1843, sob o pseudônimo de Johannes de Silentio, Kierkegaard disserta sobre o momento em que o homem entrega-se, pela fé, ao que lhe é mais próprio, usando a trajetória de Abraão como referencial. Investiga as várias possibilidades de resposta a esta solicitação, fundadas nos estágios ético e estético, e a possibilidade de total entrega ao incompreensêvel, ao inimaginável, só possêvel pela fé. Detém-se a refletir e extasiar-se com este momento, aquele em que as leis do mundo perdem o sentido, o indivêduo perde sentido, só restando o desejo de Deus e a entrega a este desejo: "instantaneamente me sinto paralisado" (Kierkegaard, 1990, p. 46).
O autor ambiciona aquele algo mais, ir além da entrega às coisas do mundo, chegar até Deus pela fé. Esta entrega se faz pela paixão. O homem da fé não se dispersa nem se justifica, vê em sua vida um só propósito e a ele se entrega, embora sua vida possa parecer igual à de todos os outros em sua finitude: "o cavaleiro da fé não se contradiz, e há contradição em esquecer a substância de toda sua vida, mesmo se continua sendo o mesmo" (ibid., p. 58).
Contradizer-se pertence ao racional. Na razão pensa-se no "inverossêmil, no inesperado, no imprevisto", em que o cavaleiro convence-se da "impossibilidade segundo o alcance humano". Mas o cavaleiro da fé, na resignação infinita, sustenta a impossibilidade perante o mundo, embora a realize no finito crendo no absurdo. "O paradoxo da fé não pode reduzir-se a nenhum raciocênio, porque a fé começa precisamente onde acaba a razão" (ibid., p. 71).
Kierkegaard considera o paradoxo da fé frente ao geral. Na fé o indivêduo coloca-se acima do geral (o ético). O herói (ético) move-se pelos resultados e pela moral. O cavaleiro da fé move-se pela paixão, não pode ser ajudado ou compreendido. Encontra-se em jogo o cotidiano, o geral - e o indivêduo, o solitário, e a entrega a este particular, a isto que é mais próprio, sem perder-se do geral, estando, no entanto, em conformidade com este. O dever absoluto até Deus consiste, portanto, no paradoxo de encontrar-se o indivêduo acima do geral, colocando-se em relação absoluta com o absoluto.
O cavaleiro da fé vive em relação com o absoluto, encontrando-se solitário pela impossibilidade de refugiar-se ou ser compreendido. Pela perspectiva do geral é um assassino ou um louco, mas Abraão tem a sua vida "como um seqüestro divino", e é ao absoluto que se entrega.
O encontro com o geral exige o reconhecimento, a revelação, o compartilhar. O segredo implica crise, "de onde só pode sair pela manifestação". O indivêduo, movido pelo estético, pode fazer segredo, mas o faz referendado em si mesmo, em suas motivações próprias. O ético trabalha com a concordância no geral, buscando conformidade nas normas através da manifestação. No religioso, também silencia-se, pela impossibilidade de ser compreendido. O silêncio pertence, portanto, ao estético e ao religioso, sendo que no estético serve a si mesmo, e no religioso, ao absoluto.
Kierkegaard analisa como "Abraão não pode falar, pois não pode fornecer a explicação definitiva". Abraão não está em consonância com o geral e não pode ser compreendido, encontra-se em contato com o absoluto, pois crê que o que lhe é pedido não será necessário. Vive a solidão da decisão, a angústia e a miséria. Considera possibilidades de ação de Abrãao, formas de não-enfrentamento da missão que lhe foi conferida, mas adverte: a indecisão não pertence ao cavaleiro da fé.
Angústia e miséria caracterizam a existência daquele que luta por cumprir sua missão. Kierkegaard considera esta missão como atribuêda por Deus e só realizável pelo cavaleiro da fé, no estágio religioso ao qual o indivêduo chega através do salto solitário.
E conclui: "Aquilo que chamo propriamente humano é a paixão, através da qual cada geração compreende inteiramente a outra e compreende a si própria (...) Mas a mais alta paixão do homem é a fé, e nenhuma geração começa aqui em ponto diferente da anterior..." (ibid., p. 148).

Myriam Moreira Protasio

Referências bibliográficas:
KIERKEGAARD, S. Temor y temblor. Tradução de Jaime Grinberg. Buenos Aires: Editorial Losada S.A., 1947.
______. Temor e tremor. Tradução de Maria José Marinho, Introdução de Alberto Ferreira. Lisboa: Guimarães Editores, 1990.

Psicoterapeuta em clênica particular, diretora e professora do IFEN.

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03 Maio 2018
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