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O Desespero Kierkegaardiano

Joelson Tavares Rodrigues 2001

A obra de Kierkegaard é toda profundamente interessante para aqueles comprometidos em sondar os mistérios da alma humana. Porém, três de seus livros se destacam aos olhos dos estudantes das temáticas psicológicas, em virtude dos atravessamentos que estabelece com a psicologia; são eles: O conceito de angústia (1968), O desespero humano (1961) e Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor (1986). Trataremos aqui de O desespero humano.
Nesse livro, Kierkegaard caracteriza o desespero como uma doença mortal, a doença da alma. Mortal não como no senso comum entendemos, uma vez que não morremos dela mas sim com ela, ou seja, se sofremos de uma doença grave e incurável podemos imaginar o fim do sofrimento com a morte; no desespero, estamos condenados até o fim de nossos dias, pois dele não morremos, restando, conseqüentemente, apenas suportá-lo.
Além disso, Kierkegaard é descrente da possibilidade de uma existência não desesperada. Para ele o desespero estará sempre presente, mesmo que encoberto ou em estado latente; o que ocorre é que nem todos estarão conscientes de seu próprio desespero, por isto o filósofo o vê sob duas perspectivas ou categorias: sob o ângulo da consciência - o conhecimento ou a ignorância de sua existência - e sob a perspectiva do que ele chama de "fatores da sêntese do eu" (Kierkegaard, 1961, p. 61).
Para Kierkegaard, o pior dos desesperados será aquele que nenhuma consciência tenha do seu próprio desespero, a ponto de ele questionar se será lêcito lhes dar este nome. Estarão aê incluêdos aqueles que vivem uma existência de distração e distanciamento de si mesmos e que preferirão muitas vezes manter-se na ilusão em que se encontram. A consciência poderá ir se ampliando até um estágio em que o desespero será vivido em sua maior plenitude, quando teremos o desespero daqueles que se reconhecem como tendo um eu.
O eu se constituirá, para o filósofo, como uma sêntese da dialética do finito e do infinito, o eterno e o temporal, as necessidades e as possibilidades. Kierkegaard, então, irá falar do desespero do infinito ou a carência de finito, o desespero no infinito ou a carência de infinito, o desespero do possêvel ou a carência de necessidade, o desespero na necessidade ou a carência de possêvel, e poderêamos falar ainda do desespero do temporal ou a carência do eterno e o desespero do eterno ou a carência do temporal. O desespero como queda se dá quando o eu, em vez de manter a mobilidade, cristaliza-se em um dos pontos - objetiva resolver a relação dialética que por si mesma é paradoxal, tenta equacionar aquilo que poderêamos chamar de paradoxos da existência: sabendo-se mortal, o homem deseja a imortalidade; sendo necessariamente limitado pelas necessidades, almeja viver como possibilidade; tendo no imaginário o infinito, confronta-se a todo momento com a finitude.
Estes conceitos poderão ter inúmeros desdobramentos na prática clênica. Ana Maria Feijoo (2000, p. 113) propõe uma forma de psicoterapia na qual se busca a reconstituição desta relação dialética através da mobilização dos paradoxos, tendo em vista que a inexistência ou escassez deste movimento resultará na perda do eu, em seu decaimento; promover-se-á, então, o confronto com a situação paradoxal, com o necessário e o possêvel, o eterno e o temporal, o finito e o infinito. O que se pretende é que o paciente se dê conta de onde ele está, do seu estar lançado, da sua condição irremissivelmente paradoxal, mas acima de tudo singular.

Joelson Tavares Rodrigues

Referências bibliográficas:
FEIJOO, A. M. L. C. A escuta e a fala em psicoterapia. São Paulo: Vetor, 2000.
KIERKEGAARD, S. O desespero humano. Porto: Livraria Tavares Martins, 1961.
______. O conceito de angústia. São Paulo: Hemus, 1968.
______. Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. Lisboa: Edições 70, 1986.

Graduado em Medicina, com têtulo de Especialista em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestrando em Psicologia da Universidade Federal Fluminense e membro do IFEN.

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O IFEN é uma instituição sem fins lucrativos que, desde sua criação, visa divulgar uma outra possibilidade de considerar a Psicologia, como uma área de estudo que se dirige à existência tal como ela se dá no próprio ato de existir.

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03 Maio 2018
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