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Notas Sobre o Gjentagelsen kierkegaardiano

Leonardo Pinto de Almeida 2001

Principiemos nossa análise pela novela kierkegaardiana editada em 16 de outubro de 1843, La reprise. Neste "pequeno livro", atribuêdo a seu pseudônimo Constantin Constantius, Kierkegaard expõe sua concepção de repetição, que conflitua com a dialética hegeliana, representada pela "mediação". Segundo o filósofo, a "(...) mediação é um nome estrangeiro. Pelo contrário, a gjentagelsen é uma palavra bem dinamarquesa, e eu felicito a lêngua dinamarquesa por este termo filosófico" (Kierkegaard, 1990, p. 87).
Kierkegaard constrói este conceito para criticar a dialética hegeliana. Pois na mediação, um novo momento alcançado abole o precedente, enquanto que, no movimento da dialética kierkegaardiana representada pela retomada, os estádios (estético, ético e religioso) não se abolem.
Nelly Viallaneix, tradutora francesa dessa novela cujo têtulo original é Gjentagelsen, nos explica o motivo de sua escolha pela tradução deste termo filosófico por La reprise, em vez de traduzi-lo, como o antigo tradutor P. H. Tisseau, por La répétition.
Viallaneix ressalta que, "mais comumente, o termo repetição evoca a similitude na reprodução da palavra ou do gesto, a esclerose do hábito, 'o mesmo no mesmo'. Ao contrário, a retomada kierkegaardiana no sentido espiritual, existencial é um segundo começo, uma vida nova, esta nova criatura, reconciliada ('a reconciliação é a retomada sensu eminentori'); é sempre eu, o mesmo, porém sempre outro, a cada instante" (Viallaneix, in Kierkegaard, op. cit., p. 57).
O prefixo Gjen significa de novo, e a segunda parte da palavra é um substantivo forjado sobre o verbo at tage, que significa tomar, por isso a melhor maneira de a traduzir seria "reprise", ou em português "retomada". Kierkegaard utilizou-se desse termo para evitar qualquer referência à palavra latina "repetição".
A história de amor expressa por esse texto tem seu questionamento principal bem ilustrado nas seguintes indagações feitas pelo autor, no primeiro parágrafo: "Uma repetição é possêvel? Que significação ela teria? Uma coisa ganha ou perde ao se repetir?" (Kierkegaard, op. cit., p. 66). A trama é tecida entre quatro personagens: Constantin Constantius, um rapaz, uma moça e Jó. Constantin Constantius conta que um rapaz se apaixonou por uma moça, mas, sofrendo por se ver incapacitado de tornar-se esposo, ou melhor, de concretizar seu amor, pede-lhe conselho sobre como agir. Constantius diz a este jovem para desvencilhar-se dessa relação a que se submetia para, assim, retomá-la de modo diferente, ou melhor, precipitar a perda para repetir o amor. Mesmo recusando tal conselho, o jovem acaba por cumpri-lo, e o efeito dessa ruptura tornou-o não um esposo, e sim um poeta.
Essa história se divide em dois capêtulos: no primeiro, Constantin Constantius relata a história de amor acima referida e resolve ele próprio experienciar a repetição, voltando a Berlim para verificar se ela seria possêvel. Ele faz a "mesma" viagem. Faz o roteiro idêntico ao da ocasião anterior em que foi à cidade de Berlim: mesmo trem, mesmo quarto, mesmo teatro, mesma peça. Entretanto, Constantin não consegue vivenciar a mesma experiência, pois não era o mesmo que antes, nem os lugares eram os mesmos, muito menos seus sentimentos experimentados neste instante da novela. Por isso, a resposta encontrada por ele foi negativa. Nesta parte da história, trata-se de uma falsa repetição (a repetição do mesmo).
O segundo capêtulo recebe o mesmo nome do livro, por tratar diretamente da repetição em questão: a repetição diferencial, a retomada. Por isso, a referência à história de Jó é encontrada nas cartas do jovem a seu confidente. Isto porque, segundo as palavras do jovem, "Jó é abençoado e ele recebeu tudo em dobro - isto se chama uma repetição" (ibid., p. 156). Na história de Jó, vemos a impossibilidade da repetição do mesmo. Nela, a retomada é representada, pois havendo por provação de Deus perdido tudo que tinha, Jó foi posteriormente premiado com o dobro. Só que esse dobro não é nem uma soma do que ele tinha com mais um pouco, nem o mesmo. Seu prêmio, dado por Deus, é marcado pelo advento do novo.
Podemos dizer que a natureza da retomada kierkegaardiana é a diferença que emana desse ato criador no seio da existência. Repete-se, porém com diferença. Uma diferença que não tem uma relação com uma evolução da humanidade apontada pelo movimento racional da história, e sim uma repetição que marca a singularidade existencial (uma reconciliação). No movimento tesmporal da retomada kierkegaardiana não está em jogo a verdade histórica, no sentido hegeliano do termo, mas sim a verdade existencial que leva em conta o fenômeno da angústia.
Para concluirmos nossa reflexão, devemos remarcar a importância deste texto kierkegaardiano, como do corpus crêtico do autor à dialética hegeliana, apontando, deste modo, para uma repetição que não é uma repetição do mesmo, e sim uma repetição que traz a diferença, produzindo, assim, o novo.

Referências bibliográficas:
KIERKEGAARD, S. La reprise. Tradução, introdução e notas de Nelly Viallaneix. Paris: Flammarion, 1990.
PERDIGãO, P. Existência & liberdade. Porto Alegre: LP&M, 1995.
WAHL, J. Introduction. In: KIERKEGAARD, S. Le concept d'angoisse. Paris: Félix Alcan, 1935.
______. Les philosophies de l'existence. Paris: Armand Colin, 1954.
______. El ser, la existencia y la realidad. México: Fondo Economico, 1997.

Leonardo Pinto de Almeida
Mestrando de Psicologia da Universidade Federal Fluminense e bolsista da Faperj.

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03 Maio 2018
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