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Os Paradoxos da Existência na História do Uso das Drogas

Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa 1998

Com base na filosofia de Kierkegaard, o desespero é o sentimento que o homem experimenta por toda a sua existência ao se deparar com situações dialéticas tais como possibilidade / necessidade, finito / infinito, temporal / eterno, situações estas que são impossêveis de serem resolvidas mas podem ser vivenciadas a partir da sêntese. Cabe a seguinte reflexão acerca desta dialética histórica: será que o uso da droga aparece no homem como uma tentativa de resolver os paradoxos que a sua existência oferece? Há uma busca incessante de alcançar todos os possêveis: o infinito, a imortalidade, e desta forma não se confrontar com a necessidade, o finito, e o temporal, ou vice-versa. Assim, a droga pode ser uma estratégia que o homem utiliza para tentar resolver tais paradoxos.
A partir de uma revisão histórica da civilização humana, pode-se observar que a droga se fez presente na cotidianeidade do homem desde as primeiras notêcias de sua existência. Tanto nas civilizações antigas quanto nas indêgenas as plantas psicoativas como o ópio, a coca, a maconha eram bastante utilizadas e estavam ligadas a rituais religiosos, culturais, sociais, estratégico militares entre outros. Buscava-se através da magia e religião a cura de doenças, o afastamento do mal espêrito, obter sucesso nas caçadas e nas conquistas e atenuar a fome e o rigor do clima de determinadas regiões. Aqui já se pode constatar o enfrentamento do através do imaginário.
Observa-se que a utilização de substâncias psicoativas pelo homem vai apresentar valores e simbolismos especêficos, que vão variar de acordo com o contexto histórico cultural, em setores como o religioso/mêstico, social, econômico, medicinal, psicológico, climatológico, militar, e na busca do prazer. Portanto, o homem lança mão de veêculos inebriantes para modificar e/ou alterar sua percepção e humor, tendo como conseqüência, na maioria das vezes, uma alteração do comportamento.
Pesquisas arqueológicas concluêram que determinadas pinturas deixadas pelos homens da Idade da Pedra teriam sido criadas sob efeito de transes xamanêsticos que provavelmente incluêam o consumo de plantas psicoativas.
Nos tempos bêblicos, o vinho estava presente, e o homem já se deparava com a questão de como desfrutar dos prazeres das drogas sem, no entanto, tomar-se dependente delas. Ainda hoje o vinho é parte integrante de cerimônias religiosas como a católica, judaica e do candomblé.
O ópio era considerado como sêmbolo mitológico dos antigos gregos e era revestido de um significado divino e seus efeitos eram vistos como uma dádiva dos deuses destinada a acalmar os enfermos ou aqueles que de algum mal padeciam. Na Odisséia, Homero relata que a bela Helena ofereceu a Telêmaco uma bebida que fazia esquecer a dor e a infelicidade.
Em alguns momentos pode-se perceber a dificuldade de estabelecer a sêntese na dialética finito-infinito. Já na Antiguidade, na cultura européia, o vinho e a cerveja eram utilizados como drogas, em especial nas festas e, conseqüentemente, ocorria a embriagues. A sociedade de então, já preocupada com o consumo abusivo de tais substâncias, lança mão da religião e da moral na tentativa de exercer o controle. Novamente presente a contradição: o prazer ilimitado X a necessidade de limites.
Na modernidade, no cenário das grandes conquistas de terras através da navegação, a droga se apresenta como facilitadora para o domênio dos povos nativos e como fonte de enriquecimento para o conquistador.
Na Europa do século XIX, observou-se o abuso do ópio sob a forma medicinal. Com o advento da ciência e sua crescente modernidade, as drogas que a princêpio se apresentavam na forma de produto advindo da natureza, quando levadas para o laboratório foram transformadas e passaram a produzir outras, artificialmente - as drogas sintéticas.
As anfetaminas, ao serem lançadas em forma de comprimidos, em 1837, ficaram conhecidas como a nova maravilha capaz de revigorar as energias e elevar o estado de humor. Na segunda Grande Guerra foram largamente utilizadas pela população e pelos soldados para aplacar a fome, a fadiga e o sono. A morfina, principal constituinte do ópio, uma das potentes drogas analgésicas, com a descoberta simultânea da seringa, foi amplamente utilizada, no inêcio por razões terapêuticas e logo depois por dependência ao produto.
Nas duas Grandes Guerras, a droga fez-se presente, sua comercialização não era mais o fator primordial e sim estratégico, servindo ora para enfraquecer o inimigo, ora como amenizador da dor para os feridos e revigorante de energia para os soldados.
Em 1924, avaliava-se em torno de 100 mil os usuários de drogas. Entretanto, os trabalhos cientêficos eram proporcionalmente escassos. A opinião pública mostrava-se alheia ao fato, por falta de informação, e as autoridades não se mostravam eficazes.
O assunto era abordado por autores que faziam uso de drogas e descreviam de forma romântica, os efeitos e os rituais que cercavam o uso de drogas. Criavam na realidade uma auréola de exotismo e status; em tomo de tal prática.
Nos anos 50, a utilização de drogas sintéticas com efeito tranqüilizante, como as Benzodiazepinas, acentuou-se. Situações que eram consideradas mazelas existenciais começaram progressivamente a ser tratadas com esses calmantes, que ajudam a aliviar as tensões do dia e permitem um sono mais tranqüilo. Nos dias de hoje, o uso de calmante é prática costumeira em todas as classes sociais, faz parte da cultura da medicação.
Nos anos 60, o movimento hippie floresce com uma proposta revolucionária, onde a juventude transforma-se em um grupo de contestação radical aos valores incorporados pela sociedade pré e industrial. Através de suas roupas, músicas e drogas, o movimento hippie pregava uma "ideologia libertatória', que buscava "cair fora" do sistema social e cultural convencional do Ocidente. Buscando criar um mundo alternativo e novas formas de pensar, sentir e perceber a realidade, utilizavam-se de drogas psicodélicas e experiências mêticas que proporcionavam efeitos prazerosos e alteravam o estado de consciência possibilitando uma nova forma de aproximação do real. O uso de solventes orgânicos torna-se prática nos EUA e no Brasil a partir dos anos 70.
A faixa etária dos usuários de droga começa a se alargar: o que até os anos 50 era prática do adulto advindo geralmente de colônias asiáticas e intoxicadas por tratamentos terapêuticos fazendo uso pessoal, nos anos 70 amplia-se tanto para os adolescentes quanto para os idosos. Enquanto os jovens recorrem com maior freqüência às drogas ilêcitas corno a cola de sapateiro (solvente), maconha e a cocaêna, os idosos fazem uso das drogas lêcitas como o tabaco, o álcool, a cafeêna e os medicamentos.
Atualmente, ainda na tentativa de resolução do paradoxo, a droga se tornou assunto que traz grande polêmica, em todos os setores da sociedade, conseqüentemente, dividindo opiniões. No entanto, há uma tendência a enfatizar os perigos e malefêcios que a droga pode trazer, sendo ela associada à marginalidade, à violência, ao crime, à degradação, dando a falsa idéia de que está presente só nas classes inferiores.
Faz-se necessário refletir, a partir do método fenomenológico e dos princêpios existenciais, sobre a prática do psicólogo. Afirma Kierkegaard, em seu livro Meu ponto de vista explicativo da minha obra como escritor, de 1849:
"Um homem pode ter a sorte de fazer muito por outro, a de conduzir até onde deseja levá-lo; para nos atermos ao nosso tema principal e constante, pode ter a felicidade de o ajudar a tornar-se cristão. Mas essa possibilidade não está no meu poder; depende de uma multidão de circunstâncias, e sobretudo da vontade de outro. Nunca posso de modo algum impor a alguém uma opinião, uma convicção, uma crença; mas posso obrigá-lo a tornar-se atento."
O homem pode escolher utilizar-se da droga como forma de alcançar algo que lhe parece inacessêvel, como pode ser visto em sua história, em que tenta prolongar o prazer, aplacar a dor, dominar o outro, ultrapassar seus próprios limites e os impostos pelas contingências, diferenciar-se dos demais através de comportamentos bizarros, dicotomizar suas relações no mundo, nós-eles, e até mesmo obter sucesso. Na tentativa ilusória de tornar-se o que não se é, esquece-se do mundo e de si, opta por não escolher ou então apóia-se na sua liberdade para alcançar o impossêvel. Acredita poder controlar o tempo de acordo com seu desejo e até sentir-se imortal.
Portanto, já que não é possêvel enquanto psicoterapeuta dissipar a ilusão do homem na tentativa e resolver os paradoxos de sua vida, cabe-nos a tarefa de torná-lo atento, sendo um facilitador na abertura de seu leque de possibilidades, vislumbrando seu horizonte onde se trabalha com o possêvel e o real, na singularidade da vivência concreta de cada ser-aê-no-mundo.
Maria Bernadete Medeiros Fernandes Lessa

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03 Maio 2018
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